Eduardo Jorge Esperança

 

Sobre a reificação das representações sociais

 

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes não consigo arrumar tudo isso.(...) Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos

que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos

se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo....

  in  Herberto Helder, OS PASSOS EM VOLTA, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1997, p. 9

 

 

 

Começo pela tentativa de definição do tema que desejo apresentar. Em seguida passarei à sua observação analítica, reflexão sobre alguns casos ilustrativos e, por fim, síntese expositiva do observado.

Por reificação das representações, em particular das representações sociais, pretendo enunciar o processo através do qual um qualquer fenómeno ou evento é configurado e fixo numa representação tangível, facilitando o seu processo de manuseamento social desse mesmo fenómeno, objecto de representação. Este é igualmente um processo de reificação porque, um fenómeno ou acontecimento, após observação atenta, se constituem como objectos dinâmicos, instáveis, temporários, e possuindo todo o tipo de propriedades transitórias. Só uma primeira razão funcional para a tangibilidade pode justificar a transformação de um fenómeno com estas propriedades, num objecto fixo/fixado.

O suporte dessa fixação é diverso, mas o facto dessa fixação ter como primeira origem a necessidade de manuseamento, faz com que esse suporte tenha de ter a capacidade de ser integrado nalguma linguagem socialmente articulada, em particular um tipo de linguagem natural.

"Um objecto não existe por si mesmo, existe para um indivíduo ou um grupo, e na sua relação com eles. É, por isso, a relação sujeito-objecto que determina o próprio objecto. Uma representação, é sempre uma representação de alguma coisa para alguém.(...) Aquilo a que o homem chama «realidade objectiva» no seu ambiente existe apenas pelo facto de ter havido um baptismo desse real  que só existe pelo facto de ser eeconhecido e nomeado e, relativamente a isso, a evocação (em particular pela palavra) equivale a uma determinação de existência (um trazer ao ser/estar), a uma ontofania."[1]

Os suportes mais comuns são o verbal-fonético e o verbal escrito;

o imagético, que pode igualmente reflectir-se no verbal.

 

Embutida na linguagem natural que utilizamos todos os dias, está uma miríade de representações que nos chegam con-formadas e reificadas pelo suporte da linguagem, solicitando apenas a sua evocação e, na maior parte dos casos, impondo uma prática evocativa determinada dentro dessa linguagem.[2]

Uma linguagem pressupõe o emprego de protocolos (ortografia, gramática, estilística, etc) muito específicos para que as suaas funções enquanto objecto de intercâmbio de representações tenham sucesso.

A necessidade desse protocolo, desse contrato de fixação de processos de intercâmbio, tende a solidificar os objectos integrados. Um novo fenómeno configurado e fixado numa linguagem tem, por estas circunstânciaas, grandes dificuldades dinâmicas; na sociedade da imprensa, que já é uma sociedade da imagem, essas circunstâncias quase bloqueiam qualquer tipo de dinâmica. Os novos objectos integrados são fixos na primeira constelação de sentido (reificado), e dificilmente evoluem. É o caso do francês escrito, que se cristalizou no françês do séc. XVIII, e que nada tem a ver com o françês falado hoje nas ruas de Paris. É o caso do sentido da expressão "computador", que tem dificuldade em ser rebocada pela rápida evolução tecnológica, e que de modo nenhum designa hoje o mesmo objecto que designa. Os suportes duros das linguagens naturais, são constituidos pelos modos da sua fixação nos textos escritos, nos protocolos de escrita, nos dicionários, nas práticas mediáticas de exposição das linguagens tanto verbais como imagéticas. Há um modo muito solidificado de re-apresentar o real na televisão, por exemplo. As próprias forças de validação do trabalho académico e do trabalho científico têm em si implicada uma fixidez mais ou menos próxima do padrão de racionalidade veiculado pelo paradigma científico mais validado, dominante.[3]  Uma maior distância, uma maior diferença nesse padrão de racionalidade, pode levar à não validação desse trabalho pelos centros de validação da comunidade científica.

Com modos de adereçamento diferentes, é possível ainda assim encontrar um "senso comum" científico tão criticável — do ponto de vista heurístico — como o latu "senso comum" social. O científico é um senso comum emergente do paradigma dominante que, uma vez aceite e evocado, facilita a permanência e validação do trabalho de investigação.

Esta deslocação para o campus da ciência, destina-se apenas a observar a identidade de processos de reificação que ocorrem no social, como na comunidade científica mais restrita.

Observando a actualidade, aqui reclamando a força da sua presença no Hoje, em termos de amostra (sem outro critério de representativodade que a ilustração do meu argumento) a fixidez versus a dinâmica de certas expressões nos dois campos; o social quotidiano e o científico.[4]

 

Timor — Observa-se a deslocação e contaminação de sentido produzida pela ordem dos acontecimentos. De pacata e esquecida colónia portuguesa no Oriente (quantos portugueses há 30 anos sabiam que partilhávamos uma ilha com a Indonésia?) ao actual sentido super-prenhe e dissipante. Uma dinâmica da expressão como representação, de um território e de um povo mas, dentro de uma razoável estática configuracional; pode dizer-se que, com a ajuda dos media, há homogeneidade de representação...

 

Resistência — O sentido desta expressão, embora aplicada a um fenómeno e território diferentes, não varia muito da noção de "resistência" mais conhecida, que foi a ocorrida na 2ª Grande Guerra, após a invasão germânica. Aqui, o sentido formal manteve-se.

 

Milícias — Esta expressão e o seu sentido relativamente a Timor, deve ter confundido boa parte dos habitantes de Francelos. Observa-se uma fixidez do significante, mas o sentido, o conteúdo representacional, é totalmente diferente, pelo menos para os francelinos.

"As representações sociais têm sempre um sujeito e um objecto: são sempre representação de alguma coisa para alguém. As representações elaboram-se a partir de materiais muito diversos, bastante heteróclitos: imagens, fórmulas semânticas, reminiscências pessoais ou memórias colectivas (mitos, contos), clichés derivados do conhecimento vulgar (ditos, crenças, superstições), e "ideias feitas" (preconceitos, estereótipos, etc.). Quanto ao seu aparecimento, este é contingentado pelo contexto político ou sócio-histórico."[5]

 

 

Classe social — O exemplo típico do conceito reificado que pode/deve ser empregue com muito cuidado. Qualquer investigador avisado sabe que deve depurar o mais possível os conceitos que emprega. Geralmente tem três alternativas:

1- Ou emprega um conceito conhecido do "senso comum" científico, com o cuidado de o referenciar/indexar a um determinado autor;

2- Ou emprega o significante, a expressão conhecida e lhe altera o sentido, definindo-o de novo, numa depuração semântica até ao ajuste optimizado ao seu corpo de investigação;

3- Ou cria um conceito completamente novo e define-o o melhor possível.

 

Então, a observar aqui, é o modo como certos conceitos reificados, seja pelo uso do "senso comum" científico, seja pelo descuido nesse uso, produzem um corpo representacional de objectos petrificados.

O que é que há de aparentemente bom nisto ?  A velocidade de produção e intercâmbio que o conceito pré-formado oferece — todos o utilizam, todos estão de acordo com o sentido do conceito, pelo menos até à queda do modelo científico que o sustenta. É por isto, também, que muitos autores e investigadores interessantes produzem trabalhos aparentemente aborrecidos de ler, porque têm que ter um extremo cuidado com o sentido das expressões que empregam, isto é, com o modo como fazem representar os fenómenos ou processos que querem expôr.

 

Estigma — Eis um significante conceptual que varia de sentido com a aplicação. No campo das Ciências Sociais, o sentido mais conhecido foi-lhe outorgado por E. Goffman no seu livro com esse título. No entanto, "estigma", que do snetido etimológico quer apenas dizer "marca", é aqui aplicável a qualquer fenómeno de produção de diferença, distância ou marginalização inferiorizante dos sujeitos portadores. É necessário observar que o conceito pode ser aplicado a qualquer tipo de fenómeno formalmente idêntico, mas que não produz, necessariamente, os mesmos resultados. Por exemplo, o herdeiro de uma grande fortuna é, necessariamente, portador desse estigma, que pode não ser inferiorizante...

 

Variável — Como conceito operativo, pertençe ao grupo dos mais "traiçoeiros". O seu sentido operacional é de tal modo formal e abstracto que, só em pequena percentagem se encontra à partida definido. Os investigadores confiam geralmente à perspicácia do leitor a construção do sentido a partir do contexto em que é empregue o conceito. É o caso, comum, em que são conjugadas, ou articuladas "ad hoc" variáveis compostas por substâncias de propriedades incompatíveis ou inarticuláveis pela sua morfologia.

 

 

O Paradoxo comunicacional

 

Observámos três conceitos do senso comum social (talvez, hoje "opinião pública"[6]) e três conceitos do senso comum científico.

O que na sua compleição encontramos de idêntico, tanto na sua estática — os conceitos mais fixados — como na sua dinâmica, é algo um tanto ou quanto paradoxal. Um paradoxo que emerge de quase todos os processos comunicacionais e intercambiais. Este pode assim ser definido:

Se a estabilização e fixidez das representações facilita o intercâmbio, acelera a velocidade de comunicação devido ao acordo prévio acerca do sentido dos objectos e, logo, a não necessidade de negociação desse sentido, por outro lado;

a produção deste sensus comunis à custa dessa reificação, petrifica não só os objectos, como a forma de intercâmbio (os protocolos) de objectos que a estrutura. Isto empobrece enormemente no social a experiência quotidiana dos sujeitos que são encorajados a armazenar no seu imaginário as reproduções fiéis do corpo de sentido do senso comum.

O que acontece no espaço científico e académico, é que se observa igualmente um empobrecimento do universo dos possíveis pensáveis. Na maior parte dos casos, não são mesmo pensados porque limitados pelo paradigma dominante. Noutros casos, ainda que pensados, não ousam ser expressos pela determinação de irrelevância a que a razão dominante os pode votar.

 

 

 

 

 

 

 

 


A representação religiosa

 

Esta minha vida de agora é circular e eu sufoco, sem dela poder sair, com o deus que lá existe, com Deus, com Deus... Comboios que não param de ranger e apitar. Comboios que partem. Durante a noite acordo muitas vezes com Deus a apitar. Mas de manhã a minha falta de fé parece ainda maior e compreendo que nunca hei-de sair deste quarto e que os comboios são simples pensamentos...

in Herberto Helder, OS PASSOS EM VOLTA, Os Comboios que vão para Antuérpia, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1996, 1ª ed. 1963.

 

 

 

 

No espaço da religião, por exemplo, o catolicismo observa uma barroquização das representações tanto da imagem divina, como da representação dos santos e práticas religiosas[7]. Esta é uma materialidade, reificação icónica a que tanto o judaísmo como o islamismo não cederam. A sua iconoclastia emerge na defesa do mistério de Deus como do Homem feito à sua imagem, que só poderá existir na sua não-representabilidade, na sua inefabilidade, no sentido em que todo o sagrado é secreto. "O sagrado queda-se pelo não percepcionável, o dissimulado, o protegido"[8].

O paradoxo é que o mandamento adverte acerca do "evocar o nome de Deus em vão". Ora, o inominável não pode ser evocado porque é inapreensível no seu ser.

É nesta inapreensibilidade de Deus, no mistério e sua intangibilidade que pode estar a origem da dedicação de alguns religiosos aos mistérios terrenos. Se o reino divino é, por excelência, um reino encantado, misterioso e inapreensível, o reino dos homens, apesar da relação incerta mas espelhada que mantém enquanto extensão terrena do reino de Deus, é um reino mais susceptível de desconstrução e tangibilidade (até científica). No reino dos homens, a entidade transcendente — a ciência — encoraja a nomeação, a revelação, a descoberta, a violação do mistério enfim, o acto de desencantar em nome de outro deus chamado "saber".

O desencantamento do mundo que ocorre na Modernidade, com a descida à Terra do deus "saber", tem nas Ciências Sociais um epicentro vago que se veio a nomear «Sociologia», e que ocupou, entre outros, o lugar dominante entre as Ciências do Desencantamento. Este lugar originou a produção de sujeitos (envolvidos) razoavelmente desencantados[9], muitos deles sem consciência do facto de terem dedicado a vida a práticas que Deus classifica como um dos primeiros pecados, origem da desgraça de Adão, a curiosidade acerca da árvore do conhecimento do bem e do mal.[10] Adão e Eva inventaram o ponto de interrogação e, por isso, foram condenados a uma vida de expiação por esse pecado.

Deste ponto de vista, há então um duplo eixo pecaminoso que que navega o investigdor que ousa descobrir, isto é, que ousa movimentar um aparelho heurístico não aprovado pela instituição, um aparelho não inscrito nos processos reificados. Primeiro peca — em termos evangélicos — porque tenta aceder a um saber, ou pelo menos se convence que sim. Depois peca porque não segue as normas do aparelho institucional que é suposto orientar e reificar a sua produção.

Este é um assunto bastante fértil. Muito mais se pode observar, particularmente olhando tudo o que nos últimos anos se tem congregado de um modo a que poderemos chamar "religiões seculares". Exemplo disto é a generalidade das práticas que os sujeitos mais ortodoxamente envolvidos nos campos da Ciência e Tecnologias levam a efeito, e o modo como o padrão formal dessas práticas — os protocolos que as reificam — é inquietantemente semelhante ao das religiões evangélicas.

 

 

Conclusão

 

Se a orientação principal deste ensaio se não centra exclusivamente sobre o estatuto reificante do objecto representado, poderia chegar à abordagem mais semiológica, da pesquisa sobre as relações de sentido entre os signos. A verdade é que, na sociedade digitalizada, o estatuto de autenticidade figurativa da imagem tem vindo a ser razoavelmente delapidado. Quase toda a imagem pode hoje ser construída. A relação ver-acreditar nunca foi tão posta em causa. Se o truque da similitude entre os significantes e o real é cada vez mais usado, nunca esta relação foi tão arbitrária e suspensa pelo contexto na produção de sentido. Perniola fala no império do "já-sentido"; Foucault fala na determinação do sentido através da armadura sintática e contextual — no espaço entre as palavras.

Se quisermos pensar uma poiética das Ciências Sociais, em tudo aquilo que passa pelo manuseamento conceptual e outras formas de representação, arrisco utilizar a metáfora mecânica/orgânica:

Nas Ciências Sociais, a "caixa de ferramentas" mais bem guarnecida é aquela que é composta por ferramentas construídas pelo investigador, a primeira das quais se prende com o modo como olha e desconstrói o real que se lhe apresenta.

A complexidade fenoménica do real, assim como aa sua transitoriedade não devem bloquear, desencorajar ou deixar cair o investigador no labirinto das reduções. Antes pelo contrário, devem constituir um desafio à sua perspicácia heurística e desencadear a construção do melhor aparelho conceptual possível para a abordagem e constituição do objecto dentro das contingências presentes.

Por outro lado, a identidade de padrões nos processos de reificação, que observamos tanto no senso comum social como no científico, não deve ser alvo de qualquer abordagem axiológica. As formas de valoração do sentido e a emergência condicionada das representações é bastante diferente nos dois universos; a sua economia é que apresenta uma intrigante identidade...

 

 



[1]Traduzido de Les Répresentations Sociales, Pierre Mannoni, ed. PUF, Paris, 1998, p. 60

 

[2]Com isto jogam os poetas e os humoristas, tal é a fixidez e processo reificante da linguagem que uma ligeira alteração de "protocolos" produz trabalho criativo, e faz explodir o sentido anteriormente configurado.

 

 

[3]Ver A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas S. Khun, ed. Un. S. Paulo, Petrópolis, 1979.

 

 

[4]Embora se possa sempre observar o científico enquanto social, não é demais acrescentar que se trata de um social tão ou mais codificado, protocolizado que o social público. Sobre isto, consultar os trabalhos de Bruno Latour sobre as práticas da produção científica.

 

[5]Traduzido de Les Répresentations Sociales, Pierre Mannoni, ed. PUF, Paris, 1998, p. 119

 

[6]Sobre Opinião Pública, ver o livro  de Patrick Champagne, Formar a Opinião, O Novo Jogo Político, ed. Vozes, Petrópolis, 1996, or. Les Editions de Minuit, Paris, 1990

 

[7]

Apetecia-me ser de seda e chagas, como os santos,

Que me brocassem de oiro a dobra do vestido,

E  me coroassem de mitras e me espetassem de flechas

Que me dessem, as mulheres os seus cordões, por promesse,

E mos roubassem os ladrões, por profanação,

E me retocassem, por ano, o roxo das feridas apetecíveis,

Que o santeiro endoidecesse e me doirasse os cabelos e o sexo,

E que os povos, depois, proclamassem o milagre.

 

Andar em cima do andor a exibir as pústulas e o luxo

Até que um ricaço mandasse pôr em rubis

o meu sangue de esmalte luzidio...

Estar, assim, no pensamento das velhas,

Na cama, com as viúvas,

E nos olhos de todaas as mulheres, como um deslumbramento...

 

Como eu queria ter um padre de estola para me fazer o sermão da festa!

E, findo o incêndio da igreja, depois da propaganda subversiva,

Ficar numa cova de esterco a reluzir os olhos de porcelana

Aliviado do oiro e liberto das feridas

Por causa dos rubis para vender em leilão!

 

                MISTICISMO,  Antologia Poética, António Pedro, ed. Angelus Novus, Braga, 1998, p.67

 

[8]Tradizido de L'Interdit de la Représentation, E. Jabés, Paris, Seuil, 1984, p.15

 

 

[9].....e, por isso, eventualmente deprimidos...

 

[10]"No conceito clássico do pensamento teológico judaico e cristão, o pecado é basicamente idêntico à desobediência à vontade de Deus. Isto é bastante notório no exemplo comummente apresentado do pecado original, da desobediência de Adão. (...) Todavia, o elemento comum é a noção de que desobedecer às ordens de Deus é pecado, sejam essas ordens quais forem.(...) É ainda menos surpreendente se tivermos em linha de conta que a Igreja, quase desde o início se adaptou a uma ordem social que, tanto no feudalismo de então como no capitalismo de hoje, exigia, para o seu funcionamento, a estrita obediência do individuo às leis, tanto as que serviam realmente os seus interesses como as que nãao serviam. (...) o cidadão deve interiorizar este medo e transformar a obediência numa categoria moral e religiosa: o pecado.

As pessoas respeitam as leis não apenas por medo mas também porque se sentem culpadas pela sua desobediência. Este sentimento de culpa pode ser ultrapassado pelo perdão que só a autoridade pode conceder. As condições para esse perdão são: o pecador arrepender-se, ser punido e,  ao aceitar essa punição, submeter-se mais uma vez. A sequência pecado (desobediência), sentimento de culpa, nova submissão (castigo), perdão, constitui um ciclo vicioso, uma vez que cada acto de dependência acaba por levar a um aumento de obediência."

Ter ou Ser?, E. Fromm, ed. Presença, Lisboa, 1999, p.118-119, or. To Have or to Be? 1976