Pressupostos principais dos modelos qualitativos
1. O investigador que
utiliza os modelos qualitativos está primordialmente preocupado com o processo, mais do que com os resultados
ou os produtos;
2. Os investigadores que
utilizam os modelos qualitativos preocupam-se com o sentido — como a vida faz sentido para as pessoas, as suas
experiências, assim como as suas estruturas de referência sobre o mundo;
3. O investigador é o primeiro instrumento
para a colecta e análise de dados. A colecta de dados é mediada por este
instrumento humano, mais do que através de inventários, máquinas ou
questionários.
4. A investigação de carácter
qualitativo envolve necessariamente trabalho
de campo. O investigador envolve-se pessoalmente com "o objecto"
de investigação. A experiência da qual retira a informação é, de preferência,
directa e em primeira mão;
5. A investigação
qualitativa é descritiva, no sentido
em que o investigador está interessado no processo, no sentido e significações
atribuídas, e no entendimento encontrado através de palavras ou imagens;
6. O processo de
investigação qualitativa é indutivo,
no sentido em que o investigador constrói os próprios conceitos, abstracções,
hipóteses e teorias a partir dos detalhes.
Verificação para os procedimentos de um modelo qualitativo
— No trabalho, são mencionadas as características ou
pressupostos dos estudos qualitativos?
— O leitor percebe entre uma abordagem qualitativa e uma
abordagem quantitativa?
— O modelo específico de tipo qualitativo utilizado no
estudo é mencionado?
— As origens desse modelo e suas concepções são mencionadas
de modo a que o leitor seja capaz de localizar os pressupostos de origem do
modelo, a definição do modelo ou quaisquer outras características originais?
(ex: o modelo pode ser originário da antropologia;
da psicologia; da economia, da pedagogia ou da própria sociologia)
— É mencionado o modo como emergiu a escolha desse modelo,
de preferência a outras possíveis?
— É apresentada e defendida a escolha desse modelo na
generalidade das áreas epistemológicas em que pode ser defendida?
— Poderá o leitor entender as experiências do investigador
que deram forma aos valores e perspectivas investidos na pesquisa?
— É feita uma descrição dos passos levados a cabo para
entrar e ser admitida a colecta de dados no local de pesquisa?
— São mencionados e discutidos os procedimentos para a
colecta de dados?
— São mencionadas as razões para a utilização desse modo
específico de colecta de dados?
— Os procedimentos para o registo de informação, durante a
colecta de dados, são mencionados?
— Os passos para a análise de dados para fins de codificação
são mencionados?
— Os passos para a análise de dados utilizando modelos
específicos de análise são mencionados? (Por exemplo: "estudo de
casos"; fenomenologia; análise institucional; abordagem etnográfica;
teoria de campo, etc.)
— Os passos levados a cabo para verificar a informação
(validade e credibilidade) são mencionados?
— Consegue-se perceber o nível de limitação ou amplitude do
modelo qualitativo na sua relação com o objecto específico para efeitos de
generalização e réplica dos resultados?
— É mencionado um objectivo específico de enquadramento para
o estudo? Este objectivo específico é discutido à luz das teorias e literatura
existentes?
As Características do Modelo de investigação devem,
portanto, ser descritas:
— O campo disciplinar de onde o modelo é
originário;
— Uma boa definição do modelo;
— A unidade de análise típica utilizada pelo
modelo;
— Outros tipos de problemas frequentemente estudados utilizando este modelo;
— Os diversos processos de colecta de dados;
— Os diversos processos de análise de dados;
— Formas típicas de redigir os relatórios
finais;
— Quaisquer outras características especiais do
modelo.
O Papel do Investigador: proposta
aos gate-keepers
— Porque foi escolhido aquele local/corpus para
o estudo?
— O que será feito no local durante a pesquisa?
— Poderá haver obstrucções ao andamento normal
das coisas no local?
— Como serão redigidos os resultados do estudo?
— O que é que o gate-keeper tem a ganhar com esse estudo?
Os Procedimentos para a Colecta de Dados
Os procedimentos para a colecta de informação
envolvem:
1. A localização das fronteiras para o estudo;
2. A colecta da informação através de
observação, entrevistas, documentos,
imagens, e,
3. estabelecimento de um protocolo para o
registo da informação.
É preciso identificar os parâmetros para a
colecta de dados. Faz parte da investigação qualitativa a selecção objectiva de
informadores (ou documentos ou outro material que veicule informação) que
melhor possam responder às questões delineadas pelo projecto de modelo de
investigação.
Há quatro parâmetros que devem ser considerados
: o local (onde ocorre a pesquisa); os actores (que serão observados ou
entrevistados); os acontecimentos (o que estarão a fazer os actores observados
ou aquilo sobre o que serão entrevistados); e o processo (a natureza evolutiva
dos acontecimentos que envolvem os actores no local da pesquisa).
Indique-se o tipo ou tipos de dados a serem
coligidos; defina-se uma racionalidade para a colecta de dados. Na maior parte
dos estudos qualitativos são utilizados múltiplos procedimentos para a colecta
de dados. Consideram-se, essencialmente, quatro tipos básicos: observações;
entrevistas; documentos e imagens visuais.
A colecta
de dados em investigação qualitativa
— Juntar notas sobre a
observação, levando a cabo uma observação participante;
— Juntar notas sobre a
observação levando a cabo uma observação (mais) objectiva;
— Conduzir uma
entrevista aberta, não estruturada, e tomar notas;
— Conduzir uma
entrevista aberta, não estruturada, gravá-la com um gravador de som e
transcrevê-la;
— Manter um diário de
pesquisa;
— Pedir a um informador
que faça igualmente um diário durante a pesquisa;
— Pedir cartas pessoais
aos informadores;
— Analisar os documentos
públicos (relatórios oficiais, minutas, material de arquivo, notas de serviço,
etc.);
— Examinar
autobiografias e biografias;
— Examinar todos os
sinais/signos que possam constituir informação útil á pesquisa, em particular
os não-verbais (ex: modos de estar, costumes; sons; imagens; cores preferidas;
afecções; atenções, etc)
— Gravar em video o que
for possível e útil á pesquisa;
— Examinar imagens,
fotos, e videos;
— Pedir aos informadores
que registem em audio ou video o que for possível;
Tipos de colecta de dados em termos
qualitativos: opções, vantagens e limitações
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Tipos de colecta de dados |
Opções dentro dos tipos |
Vantagens deste tipo específico |
Limitações do tipo específico |
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Observações Entrevistas Documentos Materiais Audiovisuais |
Participante completo — o investigador esconde o seu papel; Observador participante — o papel do investiga- dor é conhecido; Participante como observador — o papel da observação é secundá- rio relativamente ao da participação; Observador completo — O investigador observa sem participar Face-a-face — um para um entrevista pessoal; Telefone — investigador entrevista por telefone; Grupo — o investigador entrevista os informadores em conjunto; Documentos públicos, tais como actas de reuniões, jornais, notas de serviço, etc; Documentos privados, tais como diários pessoais, cartas, etc ; Fotografias; Filmes; Videogramas; Objectos artísticos; Software de computador; |
O investigador
tem uma experiência
directa com o informador. O investigador
pode regis- tar a informação
à medida que esta aparece; Aspectos pouco
usuais po- dem ser notados
durante a observação; Útil na
exploração de tópicos que podem ser
descon-fortáveis para a discussão com os
informadores; Útil quando os
informadores não podem ser
observados directamente; Os informadores
podem ofe- recer informação
histórica; Permite ao
investigador controlar a linha
de questio- namento; Permite ao
investigador adquirie a
linguagem e modos dos informadores.
Podem ser encontrados
numa altura mais
acessível ao investigador —
uma for- ma de evitar a
obstrucção; Representa dados
importan- tes para a
compilação dos informadores; Como evidência
escrita, pou- pa ao
investigador tempo e trabalho de transcrição. Pode ser um
método não obstructivo de colecta de dados; Oferece uma
oportunidade ao informador
para partilhar directamente a sua realidade; Criativo no
sentido em que cata visualmente
a atenção. |
O investigador
pode ser visto como um intruso Pode ser
observada informa- ção
"privada" a que o inves- tigador não se
pode referir. O investigador
pode não ter boas capacidades
de relação ou de observação; Certos
informadores (p. ex: crianças) podem apresentar problemas especiais de
relação; Oferece
informação indi- recta filtrada
através da pers-pectiva dos entrevistados; Oferece
informação num lugar designado,
mais que no campo de pesquisa; A presença do
investigador pode distorcer as
respostas; Nem todas as
pessoas são peritas na
percepção e no discurso; Pode ser
informação prote- gida e não
disponível ao público ou mesmo
ao acesso privado; Requer da parte
do investi- gador uma
pesquisa em lugares de acesso difícil; Implica
trancrição ou rastreamento óptico por scanner; Os materiais
podem estar incompletos; Os documentos
podem não ser autênticos ou
precisos; Pode ser difícil
de interpretar Pode não estar
acessível, tanto públicamente como em privado; A presença de um
observador (p.ex: fotógrafo) pode ser intrusiva e afectar as respostas. |
A
Abordagem ao modo de registo de dados
— O que é que tem de ser
registado?
— Como será isso
Registado?
Por exemplo:
É útil o estabelecimento
de um modo padronizado para a condução de entrevistas; isso pode incluir os
seguintes componentes:
— Um título;
— Instruções que se dão
ao entrevistador; (frases de abertura)
— As perguntas-chave;
— Questões de prova;
— Mensagens de
transição;
— Espaço para o registo
dos comentários do entrevistador;
O Processo
da análise dos dados
Este
é um processo ecléctico; não existe
uma maneira certa de o fazer.
O
problema do volume da informação;
O
à vontade no desenvolvimento de categorias de análise e matrizes de
distribuição de dados; a produção de verificações e comparações.
Atenção
às formas de segmentação do material colectado para dentro de uma matriz
estruturada.
Estruturação de material
"avulso":
1.
É necessário ter um sentido do todo, da totalidade da pesquisa e do material
clectado. Ler tudo; anotar as ideias durante a leitura e as possibilidades de
estruturação;
2.
Depois de percorrer a generalidade do trabalho, fazer uma lista da generlidade
dos tópicos; juntar os mais similares; colocá-los em colunas que possam ser
dominantes; colunas com tópicos únicos; e outros...
3.
Com esta lista, passe-se a abreviar os tópicos até à codificação, que
dever´ficar junto do texto/informação coligida;
4.
Os tópicos devem ser o mais descritivos possível e depois devem formar
categorias. A redução das categorias deve ser feita através do agrupamento de
tópicos que se relacionam uns com os outros. Tudo pode ser espacializado,
incluindo a relação entre tópicos e categorias através de linhas e outros
elementos gráficos;
5.
Tome-se uma decisão final quanto às abreviações para cada categoria e
alfabetizem-se os códigos;
6.
Junte-se a informação correspondente a uma categoria e leve-se a cabo uma
primeira análise;
7.
Se necessário (caso o estabelecimento de relações se revele incoerente),
re-codifique-se o material existente.