Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

"Contudo, essa continuidade da utilização erudita da herança material, de Mabillon até aos românticos, é apenas aparente: uma vez que o que  se desenvolvia exclusivamente por sobre o conhecimento de um passado de cultura, nos antiquários, envolve aqui uma consciência da identidade (...) Resumindo, entre o antigo regime antiquário e o sentido do património moderno, as lógicas de envolvimento transformaram-se. A herança, a sua manutenção e o seu estudo são objecto de uma exigência identitária dado que garantem a representação da Nação."  p.13

 

 

"Mas pensar um património, é enfrentar o encontro de duas perspectivas: a do primado da herança e sua apropriação, e a de uma recordação a deixar à posteridade, obcessão comum que evoca, entre outras, ultrapassando a referência cristã à imortalidade, Diderot nas suas cartas a Falconet.(...) Esta solução ilustra, para lá de um imaginário arqueológico da transmissão entre gerações, a preocupação em conservar para a posteridade este tesouro de realizações de que o "fin de siécle" se sente depositário. Condorcet participa nisso através de uma representação bastante banal do progresso enquanto «caixa geral de poupanças» da humanidade."  p.14

 

"É que a noção utilitária e democrática de património colectivo define um espaço de intervenção inédito do Estado iluminado. Neste quadro, a conduta do cidadão relativamente aos símbolos do passado deve satisfazer as exigências da nova comunidade política sob pena de se tornar «vândalo», isto é, ao mesmo tempo absurdo e criminoso." p.16

Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

 

"A representação da herança prende-se a duas imagens contraditórias do legado, a de um passado inimigo ou, pelo menos, insignificante, que é preciso prescrever para melhor afirmar a importância incomensurável dos acontecimentos presentes, e a de um passado exemplar, de primeira mão uma Antiguidade mais pura e bela, cuja pena alimenta a esperança de regeneração. A definição do património responde a um propósito pedagógico, o de dar enfim a ver a verdade inteligível do passado. Mas esta implica, ao mesmo tempo, uma dimensão quasi escatológica, porque o património assim construido se mostra como monumento: apela ao futuro que encontre confirmação do seu triunfo." p.16-17.

"A triagem das heranças pretende garantir a conservação das obras anteriores à regeneração nacional, desde que estas manifestem quão superior às circunstâncias foi a liberdade do génio que as criou."p.18

Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

"Essa construção de um depósito de valores, significativa a longo prazo da emergência dos poderes espirituais laicos, é grandemente dominada pela imagem do museu. Esta oferece, de facto, uma representação convincente e expressiva da apropriação das riquezas pela nação e da sua vocação utilitária. Esta permite conferir uma publicidade de princípio aos depósitos cuja significação se manteria até aí incerta, e que se tornam igualmente mercadorias pedagógicas. No vazio institucional aberto pela supressão das academias, das sociedaades eruditas e das escolas de desenho, o museu satisfaz o ideal de uma transmissão livre e imediata do saber, pela simples visibilidade dos modelos. (...) A visita de museu elabora então as suas regras, de uma consução livre, emblemática da fruição democrática e da cultura individual. Esta responde plenamente ao ideal de uma pedagogia sem intermediário, por isso sem risco de confiscação." p.18

Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

"De um modo geral, a história republicana vê no museu uma ruptura decisiva com o «segredo» das colecções do Antigo Regime: ao museu é-lhe conferido um carácter eminentemente simbólico da abertura ao povo e pomessa de benesses. Corolário obrigado da Revolução democrática, o museu evoca uma repentina e espectacular  «conquista» colectiva, sobre o modo da reivindicação satisfeita." p.26

Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

" A ideia do Museu universal, «último domicílio das obras-primas", está sempre na rectaguarda dessa representação. Ele salva do desaparecimento e do esquecimento o que antes era negligenciado, escondido ou encafuado nas residências do Príncipe ..." p.27Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

 

"Recentemente, uma crítica ainda mais severa, vei juntar-se a este cinismo: o historiador americano Stanley J. Idzerda acha que «os revolucionários, por um lado encorajaram a iconoclastia denunciando-a ao mesmo tempo como vandalismo inimigo; por outro lado criaram uma instituição chamada "museu", para transformar em simples obras de arte os símbolos religiosos: o iconoclasmo cumpria-se sem destruição». É o encontro da temática do «complot do vandalismo», desta vez invertido: não o da contra-revolução e da ignorância, mas o das representações iluminadas, que asseguram o monopólio da cultura." p.34-35

Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

 

"Escrever esta história (do património), implica manter juntas várias histórias para melhor compreender a construção do sentido da identidade: a dos recursos que pode mobilizar a memória social, a das estratégias que governam as políticas de conservação, a dos imaginários da autenticidade que as inspiram "   p.36 Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

 

Reprodução - 42

responsabilidade colectiva da conservação  - 43

enciclopédia e património-46

 

"Os futuros do passado

O gosto das ruínas, comum às elites do século, mais do que apenas a uma nostalgia do tempo passado, reenvia ao contraste «sublime» entre a insignificância actual e uma energia primitiva, estética e moral, que o messianismo revolucionário prometeria retomar." p.55Musée, Nation, Patrimoine — 1789 - 1815, Poulot, D., ed. Gallimard,  Paris, 1997

 

 

valores colectivos-59

cidade dos monumentos - 60

cemitérios - 61,62