5.2         O papel do Estado como racionalizador e estabilizador;

 

A noção de Estado como a conhecemos hoje, é bastante recente; o conceito nasce com a modernidade e acompanha a transformação política da Europa. A noção de Estado tem uma morfologia genealogica próxima da de Património; só que esta ainda agora "saíu do ovo".

 Por isto, uma das características mais importantes do Estado está na sua personalidade jurídica.

Constituido pelos diversos orgãos que se articulam na distribuição de poderes de que são únicos e legítimos administradores, estes diversos órgãos executivos são a máquina racional burocrática (no sentido Weberiano) programada a partir do poder judicial. O Estado é, por isto, um poder criador de direito a tal ponto que, para certos teóricos do Estado de Direito, Estado e Direito são apenas uma entidade. Idealmente, esta "máquina" funciona perfeitamente, com um nível de excelência executiva, uma vez "programada" a partir do seu aparelho legislativo[1]. Todos sabemos que não é bem assim mas, a verdade é que todo o seu facies (corpo manifesto) se comporta como, de facto, assim fosse.

Dos diversos trabalhos do Estado, o que mais o ocupa pode sintetizar-se na "administração da acção dos indivíduos em sociedade". Deste vasto universo, interessa-nos, para já, a administração dos direitos de posse - a propriedade - dos individuos. Depois veremos como, a partir dos direitos individuais dos sujeitos, o Estado se apropria da administração da generalidade dos direitos de propriedade colectiva - o património.

 

A busca de um sentido ontológico para o envolvimento da lei no património, assim como a construção de configurações jurídicas que o regulamentem, acontece no momento em que se percebe o Direito e o trabalho jurídico, no seu intento profiláctico para evitar ou regulamentar o conflito. Este é assumidamente potencial no momento em que existe potencial interesse sobre bens da parte de todos os não proprietários dos mesmos.

 

A vivência do indivíduo é então suposta acontecer no seio de um Estado de Direito em que é garantido o cumprimento executivo da lei achada melhor para a co-existência pacífica e governo da comunidade. É, assim, suposto estar assegurada a estabilidade social, o sistema e o consenso sobre a valoração e atribuição da propriedade dos bens, melhor garantidos na função deste campo jurídico. Emerge uma entidade representativa dos interesses comuns e dos direitos de propriedade, onde antes existiria apenas a autoridade tradicional ou simplesmente  o domínio da força.

 

 

Não entramos imediatamente neste sector do património, uma vez que pretendemos aqui observar apenas o papel constitutivo e estabilizador do Estado que permite e promove a emergência do património.  

Na continuação desta pesquisa genealógica e ainda dentro do processo geral de racionalização, encontramos a emergência da estetização da experiência.

 

ESTADO

 

 

Se algo há a destacar no que concerne à acção política e administrativa, nestes últimos anos, é precisamente o à- vontade com que o processo decisional inflecte quase sempre para a linha achada estratégica e politicamente mais apropriada ao benefício do decisor, em campos já razoavelmente codificados, tanto pragmática como eticamente.

 

Muito haveria ainda a investigar e mostrar acerca das implicações da gestão do Património do Estado (todo poderoso) na gestão do património individual do cidadão; estas são duas perspectivas que se degladiam — a do cidadão e a do Estado administrador — em volta de um conceito de Património. Não é propósito deste trabalho esmiuçá-los[2]. Podemos contudo, ficar com um micro-instrumento pragmático com alguma originalidade, a desenvolver noutra ocasião.

Pode observar-se que, dentro da lógica pragmática do quotidiano administrativo do Estado, é possível destacar dois operadores gerais mais abstractos que nos são da maior utilidade para a abordagem do conjunto dos seus procedimentos:

‑ as inferências mudas;

estas são constituídas por todo o conjunto de  raciocínios e discursos, mais e menos manifestos, consoante o nível de consciência do universo circundante por parte dos agentes; são reacções e respostas instintivas ao corpo da lei e ao universo constitutivo e narrativo das instituições actuantes; são, essencialmente, produto da "observação passiva compulsiva" que recai sobre o cidadão comum e por vezes se manifesta no seu discurso velado. São exemplos de inferências mudas, a generalidade dos comportamentos, pragmáticos e discursivos, em que o cidadão lesado, entre a hipótese de denúncia e reclamação dos seus direitos e a inacção, automaticamente opta pela segunda; um comportamento pragmaticamente inteligente, pois o individuo sabe que, optando pela primeira encontra uma percentagem de probabilidades muito mais alta de esboroar os seus esforços ou, pior ainda, complicar a sua situação no emaranhado da burocracia de Estado. Exemplos concretos deste problema encontram-se diariamente nos media, que só há meia dúzia de anos começaram a explorar este fértil campo da exposição de casos "calados" por inferências mudas. São indivíduos presos "por engano" e que cumprem anos de prisão preventiva, sem qualquer indemnização posterior; individuos preteridos em concursos públicos com selecção pré-determinada; impostos cobrados em demasia ao cidadão inocente; promessas de tratamento personalizado não cumpridas[3], etc,etc. Um rol de casos, nos mais diversos campos de acção social e de que só uma ponta (do iceberg) é levada à figura do promotor de justiça *?

 

As inferências surdas

podem ser encontradas na generalidade dos discursos do poder que não procedeu ao processo consultivo, ou que o negligenciou, e que só se tornam manifestas quando algo corre mal, a posteriori e, então, aparecem arremedos ou desculpas acompanhadas do inevitável "mas pensámos", ou "acreditávamos que", "partimos do princípio"... que não havia qualquer necessidade de consulta por parte de um orgão omnipotente. Estas são as que mais directamente se ligam aos processos de gestão das políticas culturais do Estado e do Património e sobre as quais podemos, para já, apenas observar que há um choque de lógicas discursivas entre instituições administrativas e sujeitos administrados.

 

 

 

 

 

*[JBM - muito bem, então deves retirar a conversa sobre o património de trás. Por outro lado, é preciso melhor material para tratar do Estado. O que estás a dizer é muito vago e pouco prreciso. SE achas que não tens tempo ou força o melhar é deixar cair o assunto. ]

 

 

 

 

 

 

4.1       O empacotamento e distribuição da obra; implicações estéticas

Seja na pintura, na escultura, na música ou na dança, a obra dando-se à captação sensível de quem investe para a receber pode exprimir, revelar ou traduzir os mais diversos dos mundos enformados nas miríades de juízos estéticos ou reflexivos desses momentos. Contudo, esses mundos não emergem isolados, desintegrados ou desligados do mundo em que o esteta e o artista respiram, por onde pode passar o mesmo ar poluído que respira o comerciante. É neste mundo de mundos que o artista investe no acto criador para eventuais momentos de eclosão do indizível; o mesmo em que o espectador, o público e o esteta investem na apreensão, revelação e re-criação da obra, nos momentos de identificação desse re-criar. Afinal a obra enquanto obra, só adquire sentido depois de apreciada, re-criada por quem quer que se digne investir na dignidade da sua recepção.

Há toda uma economia, no seu sentido mais lato, do investimento nos poucos espaços entre as práticas sociais em que se vai permitindo ao receptor o seleccionar de items ou obras. Essa economia que poderá ser essencialmente revelada pelo questionamento das mais profundas motivações do receptor, sempre que exista um mínimo de livre arbítrio tem, nas áreas do consumo artístico e proximidades um perfil que foi ainda muito pouco estudado.

 

De algum modo, este espaço da percepção acaba sempre por passar pela exposição, que o mesmo é dizer, no seu sentido mais ex-tenso, pela narrativa; poderia dizer também, por uma diegética, ou mais que uma, a primeira das quais define o enquadramento e o contexto de percepção quase naturalmente porque o poema mais transcendental ou a pintura mais abstracta, a obra arquitectónica ou a musical, não se expõem ao receptor em qualquer lado ou em qualquer momento. É a sua situação no espaço e no tempo que lhe oferecem os primeiros átomos de sentido. Depois, as diegéticas, as narrativas que envolvem a obra apresentam-se precisamente na ex-positio da obra, na facilitação da sua recepção[4].

Há a excepção do "conaisseur", mas aqui estamos precisamente perante o receptor que não precisa que lhe ofereçam discurso envolvendo a obra, porque ele próprio o é capaz de produzir com precisão e profusão. É aliás aqui, neste lugar do "entendido" no que à arte diz respeito, ou no lugar do "expert" no espaço da técnica[5], que encontramos, para lá do sujeito legitimador da dignidade da recepção da obra, o único e legítimo (muito acima do criador/autor) produtor de discurso de envolvimento da obra; de algum modo o único alguém que pode falar de...  Pergunto-me até que ponto esta legitimação do juízo superior do "entendido", juízo superior ao do próprio criador, não encontra ainda a sua própria génese na proximidade dos tempos em que o artista, homem criador, mais não era que um veículo de manifestação da arte divina da criação; tempos em que só os homens com acesso directo a Deus, que não os artistas, estavam habilitados a reconhecer a sua obra levada a efeito através das mãos carnais dos homens. Até que ponto este estado-de-coisas se não mantém hoje intacto, tendo mudado apenas o nome da entidade transcendental e, eventualmente, algumas das capacidades e competências dos sujeitos legítimos legitimadores dos actos de criação.

 

 

 

Por outro lado, ao aproximarmo-nos do objecto de estudo na tentativa de compreendermos o seu sentido ontológico[6], é com o sujeito que deparamos.

Este é o ponto de partida e de chegada do acto de criação, do produto criado e do próprio legado, da justificação do respeito pela herança patrimonial. É enquanto medium que o objecto se corporifica ontologicamente;

 

 

Imaginário como campo de valorização. 

A observar aqui, em termos de uma axiologia discursiva, é o modo como é ainda retirada uma mais valia a partir do emprego agregado da expressão "património" em qualquer ocorrência. Em particular quando esta ocorrência é reflectida e minimamente precisa, isto é, envolve um objectivo que transborda a simples precisão discursiva.

 

 

 

 

 

 

 

 

2.5            Perspectivas e campos de enunciação; o recorte dos dispositivos de enunciação em campos específicos.

No sentido de uma sistematização  e descomplexificando temporariamente este objecto, é possível observar, por lentes diversas, algumas das suas facetas. É possível com isto, ter também um vislumbre do modo como a generalidade das práticas quotidianas mais sectoralizadas operam no entendimento e tratamento deste objecto.

 

1‑ A primeira faceta a observar é a legal

" O património cultural português é constituido por todos os bens materiais e imateriais que, pelo seu reconhecido valor próprio, devam ser considerados como de interesse relevante para a permanência e identidade da cultura portuguesa através do tempo".

artº. 1º da Lei do Património 13/85 de 6 de Julho

 

‑ a definição e, logo, a perspectiva e "construção" do objecto deste ponto de vista está formada, isto é, do ponto de vista do legislador, o assunto está resolvido pois a lei é suposto abarcar a generalidade dos fenómenos que quer circunscrever e dominar. O problema principal é precisamente a manifesta abrangência da lei que a torna praticamente inoperante, pois tudo e nada podem ser considerados "património". A lei remete de facto para um imaginário que é impossível definir rigorosamente em qualquer circunstância, muito menos através da sua interpretação precisa.

Depois, há ainda que reflectir sobre as circunstâncias e consequências de aplicação da lei, o que são de facto os reflexos e implicaçöes das práticas deontológicas nesta área; como em qualquer outra área legal, há aqui que tentar observar os modos de fazer interagir forma (a lei) e substância (o caso); (tudo isto é mais desenvolvido à frente em  *

 

2‑ Uma segunda faceta é a económica;

Os objectos patrimoniais investidos por um sujeito são geralmente valorizados em vários sentidos e, também, economicamente; é preciso observar o modo como a vertente  de capital pecuniário em que é susceptível de se consubstanciar qualquer bem, afecta a sua existência enquanto bem de património cultural, bem como todas as outras possíveis vertentes que o mesmo bem possa abarcar;

 

3‑ Uma terceira faceta envolve a generalidade dos modos de valorização (à priori) não pecuniária a que são sujeitos todos os bens patrimoniais investidos de uma função social. Entre estas (valorizaçöes), encontram-se a histórica, a estética e a social, com as quais nos ocuparemos mais demoradamente.[7]

 

Por fim, uma proposta de definição e construção mais sintética; a do sociólogo:

‑ o entendimento e, eventualmente, o conhecimento[8] do modo como os bens patrimoniais de cariz cultural afectam[9] e co-existem[10] com os individuos em sociedade[11].

Esta definição de síntese não pretende provar nada mas apenas descrever compacta e mais precisamente o campo geral que se pretende abordar a partir, aqui, de conceitos minimamente estabilizados.

Contrastando com esta definição, as noções que podemos recortar no seu emprego quotidiano, no discurso do senso comum, são bastante mais "elásticas" de uma flexibilidade uqe lhe é emprestada pelo próprio não balizamento do campo quotidiano do senso comum.

Uma definição mais humanista, buscando a própria relação do homem com as coisas * ver também em Direito * eventuamente a observação do antropólogo, convidaria a perceber o património como uma categoria do actual que ultrapassa a utilização do presente. No seio desta categoria, aparece a noção antropológica de sacrifício, neste caso, com duplo peso. A manutenção e preservação de qualquer bem, implica um esforço, nos termos de uma economia geral da vida, uma perda mais ou menos sensível mas entendida como necessária. Neste processo podem igualmente estar implicadas renúncias a outras despesas do presente, renúncias a uma "boa vida" no modo como a constelação de valores hoje vigente a configura[12]. Existe de facto, na esfera privada e na família, um fenómeno propiciatório, por vezes até uma mutilação destinada a alimentar o acto de preservação do bem/objecto moral ou materialmente essencial à existência do indivíduo, ou grupo de indivíduos. É este o outro lado desta questão esférica; a ruína e a destruição, raramente são acidentais[13]. O património mais estável e duradouro como o são alguns objectos menos frágeis e alguns edifícios, por exemplo, sofrem precisamente dessa pecha de serem aparentemente menos frágeis que o corpo humano, e poderem por vezes aguentar mais que uma geração. É essa aparência de solidez exterior que por vezes os arruína. Quando se observam e tratam objectos das mais diversas categorias, raramente se consegue fujir à sua objectividade, solidez de presença objectiva, que nos impede de pensar o mundo dos objectos como igualmente dinâmico. O homem habituou-se à auto-renovação e perpetuação da Terra, e quando manipula os objectos por si criados, esquece-se que a dinâmica de auto-renovação da Terra se reflecte no objecto criado pelo homem como uma dinâmica de delapidação.  Como é que este fenómeno se translada para a esfera pública e para os domínios do Estado, é algo que observaremos mais à frente. * ver *

 

 

 

 

(Colocar na Conversão/mediação)

 

4.2       A música, por exemplo;

Quando nos é dito, por exemplo, que a beleza ou o significado de uma obra musical acontece em relações e referências que o normal dos mortais não pode ouvir, tal como acontece com o vinho que o consumidor comum quando muito bebe e, gosta ou não, mas só o provador/escanção tem o privilégio de identificar; o mesmo se passando com o filme em que só o "cinéfilo profissional" vulgo "crítico de cinema" pode identificar as referências estéticas da realização e da produção. Isto implica o pôr em dúvida a tese de uma validade estética da nossa própria experiência individual da música.

O modo como a música é descrita pelos profissionais acaba por criar no ouvinte não formado um sentido de inadequação, um sentimento de que apesar de poder fruir e gostar da música, dificilmente poderá vir a reivindicar o seu "entendimento"[14]

Escrever música, entender as suas técnicas ou mesmo tocar um instrumento, tudo isto implica investimentos de tempo, aplicação, devoção e conhecimento especializado. Mas ao ouvir música, os resultados de tudo isto são, de algum modo sintetizados numa experiência grata e imediata que não implica, à partida, da parte do ouvinte, qualquer tipo de conhecimento entendido daquilo que ouve. Por outro lado, não se pode negar que a formação musical não abra novas dimensões à experiência da música. Afinal sempre é possível perceber uma recepção como potencialmente mais apurada sempre que exista um conhecimento mais aprofundado de qualquer arte ou ofício. O "conaisseur" de cerâmica chinesa encontra nesses objectos muito mais informação que o receptor comum porque detém, à partida, matrizes ou narrativas de enquadramento da generalidade desses objectos. De facto, a área da música é privilegiada no sentido em que o receptor comum, se é possível defini-lo, desprovido de matrizes ou pré-discursos de enquadramento e análise, tem sempre ao seu dispôr uma dimensão ou "via intuitiva" que faz esbater, nesta arte em particular, essa escarpa entre o "entendido" e o "leigo". Mas, por exemplo, quando se observa o modo como os músicos abordam, teorizam e criticam o seu trabalho, isto é, o dos outros músicos, não adoptam uma via factual para a abordagem do fenómeno musical; é preciso perceber que operam no seio do que se poderá designar por uma "cultura musical", o mesmo é dizer que funcionam entre pressuposições e pré-juizos que se constituem numa cultura; fazem-no enquanto músicos, por estarem,  de algum modo, envolvidos na produção da música e suas narrativas envolventes ou teorizações funcionando como parte integral desse processo de produção.

 

O espaço da música é utilizado aqui enquanto imagem e contraponto à generalidade dos espaços de produção e consumo culturais devido às particularidades que acima ficaram bem expressas.

Enquanto espaço razoavelmente autónomo, a música não deixa de se constituir, particularmente no nosso país, como um lugar de produção artesanato, mais ou menos intervencionado pelos dispositivos de exploração comercial[15]. É este, de qualquer modo, um belo ponto de ancoragem para o entendimento da generalidade dos processos de produção, distribuição, acesso, consumo, etc, que, no caso da música, encontram precisamente melhor contorno e definição devido a esse estatuto de "autonomia existencial" de que ainda vai gozando.

Neste caso da música, um dos mais interessantes problemas reside no espaço da sua representação, especialmente no modo, diferente, como produtores e receptores imaginam o fenómeno, na especificidade mnemónica em que se constitui a experiência da música. Afinal, uma cultura musical é, na sua essência, o conjunto de modos de representar e imaginar a música. É, de algum modo, o padrão específico de divergências entre a experiência da música, por um lado, e as imagens pelas quais é representada, por outro, que oferecem à cultura musical a sua identidade.

É assim que a narrativa se oferece como a obra criada que se apresenta à sua completude no re-criar do receptor/leitor. Ao deixar-se interpelar pela narrativa, o receptor/leitor integra a compreensão do outro no seu próprio corpo, aumentando assim o seu próprio entendimento de si e enriquecendo a comunidade cultural em que se insere. (Este postulado, bastante rico, tem sido pouco ou mal explorado pelas políticas centrais de divulgação cultural). Deste modo, a estética que nos interessa, é esse resíduo que fica da mediação interminável feita pelo receptor nos seus momentos de percepção e re-criação das obras no contexto da sua subjectividade.

Assim, e seguindo o exemplo, melhor seria a metáfora da estética da música, tomando a estrutura e o todo do trabalho musical enquanto construção metafórica em vez de algo real no sentido da percepção, é então melhor entender o sentido da música procurando-o nas nossas percepções quando a ouvimos. Isto implica o assumir de uma posição hermeneuta e não necessariamente qualquer tipo de verdade; eventualmente uma posição heurística. Por exemplo, a organização da generalidade da música africana é investida de uma dinâmica de rigor no movimento até à mais pequena oscilação, enquanto que na música ocidental, os movimentos do músico que toca o seu instrumento têm sentido apenas em termos do resultado sonoro. Já a contemporaneidade ocidental dá bastante mais importância às construções de sentido, às racionalizações, até certo ponto marginais ao fenómeno nuclear da recepção musical; o criador tal como o intérprete são instados a discursivisar a sua obra, antes e depois da sua interpretação. Não é estranho encontrar compositores que quase se recusam a falar e remetem toda a "explicação" para a audição da sua obra. Também os há que, na sua prolixidade conseguem construir sentidos e tramas de percepção adjacentes que alteram completamente o sentido da audição estritamente musical. "Music is ultimately inexplicable, yet its creating is a mystery to most people. Composers today are always being asked to talk about their works and the creative process: many of them are rather good at it. Some of the most eloquent, indeed, are able to make their music appear more interesting than it turns out to be. On the other hand, I cannot imagine that Mozart would have much to say in a pre-concert talk. Just occasionally one longs to return to a time when music was expected to provide its own explanation."[16]    Na música africana, os padrões de movimentação, uma espécie de coreografia musical, são parte da fonte de prazer que constitui a totalidade da música, independentemente de emergirem para a exposição em forma de som na sua totalidade ou não. Há aqui uma ratio mais holística da expressão, ou do fenómeno expressivo, que nos pode ser extremamente útil para entendermos a generalidade dos fenómenos culturais que o Ocidente percepciona de uma forma mais atomizada, dentro de uma racionalidade, uma matriz de fundo gretada, pré-talhada em sectores e elementos mais ou menos dispersos, indispensáveis à narratio que explica a sua génese, desenvolvimento e existência.

Fazer uma abordagem estética à musica neste momento implica exprimir e contar uma boa parte dos valores da cultura Ocidental, a sua interpretação em termos de uma experiência perceptiva de interesse específico pelo som.

Assim, qualquer abordagem deverá passar pela observação e análise das instituições de produção musical, distribuição e consumo, porque é neste grande contexto da produção-distribuição-consumo que a música é tratada como produto aferível por um valor extraído na gratificação do ouvinte. Por isto, mesmo quando a composição musical não se perde na percepção, é sempre necessário como pré-requisito a qualquer abordagem, um nível mínimo de envolvimento nessa percepção mais ou menos gratificante.

Sabe-se que para a gestão e tratamento minimamente consciente do fluxo de mensagens que produzimos ou recebemos por via de todos os sentidos-canais, são necessários tanto mínimos de definição (clareza e contraste) como de tempo no fluxo dessa informação. Sabe-se que a tecnologia ao serviço dos Media Audiovisuais, por exemplo, se tem vindo a especializar na capacidade de envolvimento e imersão total do receptor.

Ocorreu-me perguntar

‑ no caso de uma recepção literalmente incapacitada de gerir ou tratar o fluxo de mensagens/massagens ao nível do consciente, como acontece com a música africana, por exemplo, qual o lugar destinado à hermenêutica, ao espaço para a construção de um sentido?

Eu, honorável receptor do concerto em fá, de um tal G. Gershwin pela London Philarmonic Orchestra fico perplexo é que o meu amigo J. Gabriel ouve o mesmo concerto, na mesma aparelhagem (por via da mesma tecnologia) mas com um controlo de definição audio diferente; carregando no botão, sai pelas colunas o som de uma orquestra em auditório ‑ e ele assim ouve e sabe entender. Carregando de novo no botão sai-me o som hiper-definido de cada um dos 87 instrumentos, dá-me um enorme prazer, mas sou incapaz de o avaliar. Tal como a perplexidade do narrador n"A Invenção de Morel", de Adolfo Bioy Casares, que na ilha povoada imagens dinâmicas tridimensionais e holográficas se limita a observar as pessoas à sua volta sem se questionar, até que as imagens/personagens se comecem a repetir, a repetir os mesmos discursos e as mesmas atitudes, porque não passavam de imagens holográficas, a simulação do real. Temo que esta perplexidade, na origem de qualquer atitude hermenêutica, possa nunca vir a ocorrer. Neste campo de imersão no que alguns chamam o hiper-real, mas que prefiro chamar a hiper-presença, torna-se impossível procurar sentidos, tão só e apenas porque tudo faz sentido como no momento do sonho. Pois se na audição do concerto eu sou capaz de distinguir os 87 instrumentos melhor do que se estivesse no meio da orquestra, porque no momento do registo existiram 87 ouvidos amplificados (os microfones) para captarem o som de cada um e m'o trazerem à cabeça; pois se me vejo imerso numa cena de 120 ou 150 minutos que não domino, porque não posso e para tal sou predisposto; pois se o sentido é "automático" e a presença é total[17], será que posso apenas encontrar um eixo de abordagem, de análise a essa relação comunicante nas pequenas oscilações de espaço e distância? Na posição pre-meditada em que me coloco, de maior ou menor envolvimento, ou nas oscilações de perspectiva de camara no cinema ou sensibilidade e relação de número de instrumentos por microfone no registo audio?

 

Uma boa parte das práticas de acesso à música é, assim, exemplar, ou funciona como indicador expressivo de acesso à generalidade dos produtos culturais e patrimoniais.

A música africana, no sentido do seu consumo local, implicando essa totalidade do envolvimento, encontra paralelos no Ocidente quando emergem as formalidades implicadas na assistência a qualquer performance mais "séria", seja ela constituída pela grande ópera, o grande concerto de música clássica contemporânea ou erudita. O acesso implica aqui um "estar" regrado na percepção, um pré-querer apreciar e gostar, uma disciplina de audição e, de preferência ou subjacente, uma cultura musical, isto é, quantidade de referências suficientes para o trabalho de entendimento da obra em exposição ou execução. O requisito da atenção é total, e todo o environment, particularmente o mental, está aqui investido. É requisitada a participação total do auditório, quanto mais não seja na atenção exclusiva ao som produzido. É aqui que duas grandes correntes estéticas, ou de apreciação do belo na música, se debatem. Se bem que ambas impliquem e requisitem essa atenção total, uma delas encontra suficiência nisso e na natural fruição e apreciação humanas, enquanto a outra exige esse mínimo de erudição musical cujo nível acaba por determinar o potencial de apreciação/percepção da obra.

Se a música africana exige uma erudição musical que passa pelo físico, pelo corpo enquanto agente de interpretação e execução carnal e imagética do som, tanto na produção como na recepção, já a ortodoxia da música ocidental se fica pelo espírito ou pelo mental no acto da recepção. No entanto, ambas exigem esse envolvimento isolado de interferências exteriores ao acto específico de recepção da obra.

Nos anos 50, John Cage compôs uma peça intitulada 4'33", normalmente executada por um pianista;  este aparece em palco, senta-se frente a um piano fechado, abre a tampa que protege o teclado para iniciar a execução da peça. Sensivelmente cerca de quatro minutos e meio depois de permanecer sentado frente ao piano sem tocar no teclado ou emitir qualquer som, executando uma peça silenciosa, o pianista volta a fechar a tampa do teclado, levanta-se e agradece a eventual ovação. É claro que se cria uma expectativa de efeito nesta execução que só faz sentido ao vivo; não faço ideia se alguma vez foi editado algum disco com esta peça. Essa expectativa (da emergência de som musical a qualquer momento) é um pressuposto geral no auditório, o gerar de uma hipersensibilidade não só a qualquer tipo de som, como a tudo o que possa acontecer durante aqueles quatro minutos e meio; é um verdadeiro happening que transforma em acontecimento tudo o que de não silencioso (silêncio sonoro ou imagético) possa ocorrer durante aqueles momentos.

Há duas lições a tirar desta estória

1- A composição/execução ‑ produção de som, tem implicadas na sua concepção o cuidado com o contexto do acesso, o cuidado com o espaço da recepção no seu todo, o cuidado na concepção do envolvimento do receptor;

2- Numa outra área, (será mesmo outra?) a dos media, seria interessante imaginar/simular um fenómeno idêntico durante um determinado período de tempo, por exemplo, quatro dias e meio em que nada acontecia no mundo que coubesse dentro da actual grelha axiológica da informação nos media. A questão que surge só pode ser uma dentro do universo de acontecimentos irrelevantes e super-irrelevantes; que nova estrutura axiológica emergiria nesse espaço de tempo?[18]

Ainda assim, aparentemente irreal toda esta ambiência de contraste, é bom lembrar que não existe hoje poder político que não recorra permanentemente aos seus "engenheiros do contraste e da compensação" para a sua sobrevivência na praça pública. O trabalho destes "engenheiros" consiste essencialmente em criar acontecimentos, nos mais diversos espaços de actuação do poder a que estão adstritos, de modo a "ofuscar" o silêncio ou a escuridão das clareiras diárias, mas essencialmente de modo a fazer passar despercebidas toda a série de acções e procedimentos cuja exposição pública não interessa a esse poder. É óbvio que toda a esfera da cultura é permanentemente requisitada e "explorada" nesta perspectiva, e com o decorrer do tempo, cada vez mais. É toda a série de rendimentos promocionais que o investimento político faz nas áreas culturais, aparentemente mais calmas e de rendimento mais seguro. Com a agitação destas áreas pela subida de entradas de capital e movimentação de actores, é natural que o seu tecido habitual se torne na generalidade mais agitado e, por vezes com o andar do tempo nesse sentido, mais controverso para qualquer tipo de poder (em termos de investimento de capital-promoção).

Observa-se então ao nível da axiologia estética uma área, em parte, ainda reservada da ingerência directa dos poderes administrantes, mas ao mesmo tempo muito apetecível a qualquer um desses poderes. "(...)a cultura tornou-se comunicação que tende a absorver toda a realidade. O poder descobriu, graças aos media e à política-espectáculo, como explorar políticamente o capital de prestígio dos intelectuais. A promiscuidade entre aartistas, escritores e o mundo político tornou-se inevitável. Por um lado, o poder chamou a si nomes célebres da cultura, cobrindo-se com a sua "inocência" e a sua autoridade. Por outro lado, os intelectuais - apesar das ilusões de um século de "engagement", nomeadamente à esquerda - não desistem de realizar as suas utopias, julgando intervir no curso da história ligando-se ao poder; velha tentação que vai de Platão a Heidegger".[19]  São afinal estas tentações que se atraem; o poder "transcendental" dos criadores, e o poder administrante dos políticos[20]. Será interessante observar este "namoro" numa abordagem soft, ou esta "promiscuidade", numa abordagem mais dura, como a de José Gil, mas em especial, observar o seu desenvolvimento e os efeitos da sua performance ao nível das diversas estéticas estabelecidas. Tentaremos fazê-lo, não ao nível de estéticas específicas, mas a um nível mais geral e fenoménico, partindo de alguns dados concretos dessa performance para a reflexão sobre os eventuais efeitos a outros níveis e campos tocados por esses efeitos.* (ver à frente "o modelo administrante").

 

 

 

 

 

 

 

Todo o objecto, bem, pessoa, entidade, é hoje passível de ser patrimonializável. A História continua a escrever-se e reescrever-se no presente e este, como bem o previu H.G. Welles, tem vindo a revelar-se demasiado pequeno para a generalidade dos poderes e pessoas que o habitam. Desenterre-se o tempo, e achar-se-à a Arqueologia; desenterrem-se os poderes,  encontrar-se-à a História - "Les différents pouvoirs historiques sont tentés en permanence d'imposer une philosophie qui les conforte et les justifie. Ils nient a priori que la tâche de la pensée soit de permettre l'action, plutôt que de recouvrir la vérité sous le linceul de l'érudition.";[21] desenterre-se o presente, e encontrar-se-äo, essencialmente, instrumentos mediadores ‑ os media mais conhecidos e assumidos ‑ aos quais se têm vindo a juntar, nesta vertente, os patrimónios mais evocados e "explorados" enquanto bens culturais de consumo, propiciadores de identidade e coesäo cultural.

"Que rappellent alors les édifices anciens? La valeur sacrée des travaux que des hommes de bien, disparus et inconnus, accomplirent pour honorer leur Dieu, aménager leurs foyers, manifester leurs différences. En nous faisant voir et toucher ce que virent et touchèrent les générations disparues, la plus humble demeure possède, au même titre que l'édifice le plus glorieux, le pouvoir de nous mettre en communication, presque en contact, avec elles."(...)   in L'Allégorie du Patrimoine, Choay, F., ed. SEUIL, Paris 1992, p. 108

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O envolvimento e as solicitações patrimoniais

 

Desde a caracterização do estatuto simbólico do objecto até à sua preparação para "consumo", observou-se neste capítulo que se exercem inúmeras formas de envolvimento dos sujeitos para a sua ligação à rede de fornecimento de imagens devidamente tratadas. Se o exercício destas formas de envolvimento passa por estratégias definidas à priori, em tudo idênticas às estratégias mercadológicas aplicadas a qualquer outro produto de grande consumo, isto é o que iremos ver mais adiante *.(consumo-mercado)

Já referimos o dilema de quem tem de decidir acerca dos modos de acesso aos objectos, aos modos da sua recepção. Resta-nos apontar outra reflexão, do outro lado, e que se questiona acerca da necessidade de envolvimento atrás referida; porque é que será preciso agarrar públicos? Porquê adoptar símbolos e não criá-los de raiz? Porquê estratégias homogéneas de mercantilização dos objectos e até das ideias?

A resposta mais óbvia expõe de imediato a dimensão e variedade do mercado, com todas as solicitações a que o sujeito se expõe; a lógica do mercado torna-se hegemónica e agressiva e acaba por contaminar campos até aqui relativamente defendidos desses modos de acesso. Mas não será também a própria racionalidade objectivante e pasteurizada da tecnologia a ajudar na produção de um sujeito indiferente, um sujeito aleatóreo e comandável? Um sujeito que tem de ser agressivamente solicitado para "se ligar" e que, graças a essa mesma tecnologia goza, à partida, pelo menos da virtualidade e potencialidade de acesso a praticamente tudo o que quizer?

Aprofundaremos esta questão logo a seguir mas, antes, temos de observar o modo como tudo isto chegou a este estado; não de um modo cronológico em termos de narrativa historiográfica, mas observando os diversos dispositivos de modelação social que incentivaram a emergência desta ideologia ou "cultura patrimonial", no capítulo que se segue, sobre as condições de emergência da experiência patrimonial.

 

 

 

 

 

 

*-para a Mediação

1.2           A força simbólica do "não-domínio"; A morte,  a transmissão e a mediação dos objectos;

 

A morte enquanto fenómeno de cessação da vida, tem sido tema de inúmeras abordagens, mais e menos recentes.[22] O facto é que os homens morrem e, entre as inúmeras formas por que se começaram a diferenciar dos animais, encontra-se esta que se caracteriza pela capacidade e, depois, necessidade de transmitir/passar aos que ficam vivos o património amealhado durante a sua vivência. Manifesta na sua relação com a morte e as práticas funerárias é a vontade de perpetuar tudo o que possa fornecer um enquadramento à vida dos sucessores, dos presentes que estão por vir necessitando de uma referência num presente que há-de ser passado. Tem aqui um papel essencial a noção de que o objecto preservado no tempo, se enriquece da magia e carisma próprios dos fenómenos de origem - a arche -  propiciadores da estabilidade e segurança de espírito necessários ao estar-no-mundo. "...os objectos dotados de maior poder simbólico são aqueles que exibem a qualidade inata do seu possuidor, demonstrando claramente a qualidade necessária à sua apropriação"[23]. Este capital simbólico, que excede o capital patrimonial material/objectivo, é engendrado no processo de vivência com os objectos do individuo que o cria, e é na morte deste que se transfere a memória dessa vivência para o objecto tornado herança e transmissão.[24] De algum modo, a génese da força simbólica investida nos objectos, é também proporcionada por uma estrutura de relações de campo que a suporta.

 Sempre que se atravessam as fronteiras do presente,  o que se procura é uma solidariedade securizante entre gerações. Perceber esta facilitação da existência no presente, é perceber o objecto enquanto medium indispensável à relação do sujeito com os outros de antes, um estar-no-mundo-ligado-no-tempo.

Neste sentido mais definido pelo Direito e pela História, o património caracteriza-se, basicamente, como o conjunto de bens - objectos, saberes, crenças, etc - que são aqui objecto da nossa atenção e se tornam ponto de destaque, essencialmente porque, no enquadramento moderno, a morte gera uma distância que é preciso gerir e cuidar. Esta caracteriza-se não só pela distância física e anímica que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, como por todas as outras distâncias que se constituem a partir das questões sem resposta que se colocam neste domínio. Estas distâncias são então mediada por tudo o que se caracteriza como património e em que é investido, das mais diversas formas, esse estatuto de mediação. Repare-se que estes conceitos são complementares; para existir mediação é necessário que exista distância. É difícil falar em mediação na sociedade tradicional em que todos os actos se integram numa logicidade perfeitamente funcional e orgânica. A distância na sociedade moderna e a multiplicação dos espaços e objectos de mediação estão directamente implicados no modo viver/ver a morte e a sua secularização mais recentes. Com esta secularização emergem igualmente todas as instâncias gestoras destas mediações, com todo o aparelho categorial e simbólico que isso envolve no enquadramento que hoje lhes é permitido.

 

 

 

3.7       O sentimento sentido e a morte

 

The social problem of death is especially difficult to solve because the living find it hard to identify with the dying.

Death is a problem of the living. Dead people have no problems.

           

            in The Loneliness of the Dying, Norbert Elias, ed.             Basil Blackwell, Oxford 1992, or. Uber die Einsamkeit             der Sterbenden ed. Suhrkamp Verlag 1982

 

 

Não nos vamos alongar acerca da fenomenologia da morte[25], a não ser na perspectiva dela se constituir como um exemplo duro sobre as formas de gestão da afectividade na experiência moderna e contemporânea. Esta aparece-nos pela caneta de Norbert Elias em The Loneliness of the Dying. Na perspectiva do sociólogo alemão, apesar das vantagens trazidas pelo desenvolvimento científico-tecnológico da medicina, aumentando o espectro de vida da população, em termos relativos e de vivência social, ao contrário, o tempo de plenitude social do cidadão e do trabalhador têm vindo a diminuir neste século. O grande problema é o facto de, sem intenção especial, o isolamento a que é sujeito o indivíduo ao longo e, especialmente, no fim da sua vida, ocorrer com maior frequência nas sociedades mais avançadas, constituindo assim um dos seus pontos fracos. É muito difícil admitir a proximidade do fim e, como diz Elias, não é a morte mas o conhecimento da morte que constitui problema para os humanos. O não domínio, sinónimo da inevitabilidade da passagem e da sua proximidade, é causa suficiente para a colocação à margem. Comum às margens/marginalidades sociais é a vontade de ocultação por parte dos poderes vigentes; se considerarmos que na sociedade actual uma das condições de existência passa pela visibilidade através do espaço público que são os media, é fácil perceber a facilidade com que se relegam à opacidade sectores cada vez mais vastos da população. Afecto a esta constelação de elementos que contribuem para o isolamento dos indivíduos, assume relevo especial o presente síndroma da dificuldade na expressão de sentimentos[26]. As antigas fórmulas socialmente codificadas de prestação de sentimentos e acesso ao outro, caíram em desuso; não apareceram novas práticas para ocupar o seu lugar. Isto dá origem a um vazio que, a par dos valores vigentes, produtores de margens e marginalizações mais vastas, não facilita em nada os momentos de contacto. Para lá da distância de gerações e diferença no capital de experiência acumulada, há inúmeras fronteiras a barrar o acesso entre os indivíduos. A incapacidade de expressar emoções fortes, seja em público seja em privado, a dificuldade em pular a barreira que bloqueia as acções resultantes de sentimentos fortes e em particular as formas da sua verbalização. 

Quando as actuais circusntâncias empurram a fragmentação da experiência para o lado do sentido (nas suas duas acepções bem diferentes, 1-emotivo/afectivo e 2-semiológico-semântico) surge outra categoria social investida nos modos de significação encontrados no actual Homo Clausus. Nunca a força de mediação da linguagem foi tão importante para se perceber o paradoxo em que se constitui a defesa de alguns solipsismos actuais. Todo o sentido, de génese social, vem agarrado à forma, à materialidade da linguagem que atravessa o corpo que a sente e lhe autorga sentido. Acontece que não existe objecto mais social e comunal que a linguagem: "But the concept of meaning cannot be understood by reference to an isolated human being or to a universal derived from it. What we call "meaning" is constituted by people in groups who are dependent on each other in this or that way and can communicate with each other. "Meaning" is a social category.(...)The attempt to discover in a person's life a meaning that is independent of what this life means for other people is quite futile."[27] 

É neste espaço categórico, inevitavelmente codificado, que o individuo encontra o seu estado de espírito. Aqui se encontra alguma ontologia para a génese do património e sua valorização; durante o período, mais longo ou mais curto, em que o indivíduo se prepara para deixar o mundo, é natural a frequência com que se questiona acerca do significado da sua pessoa e legado para os outros. A emergência do sentido que irrompe na relação dual do amor, quando a paixão leva à demanda - o que é que eu significo para ti? - transfigura-se aqui numa demanda geral do sentido na sua relação com a passagem por este mundo - o que é que eu significo para esta gente?. Estas questões, que sempre se formulam com ou sem consciência disso, constituem -  pela relação com as respostas que encontram - a essência da identidade do indivíduo. Quando este não encontra respostas, ou de algum modo estas não o satisfazem, quando encontra indiferença, o individuo está só."... as they grow older they grow potentially or actually less powerful in relation to younger people. They become visibly more dependent on others.(...)the experience of ageing people cannot be understood unless we realize that the process of ageing often brings about a fundamental change in a person's position in society, and so in his or her whole relationships to other people."[28] 

 

3.7       O modelo da dependência

O suporte necessário à estabilidade afectiva de qualquer pessoa deve surgir da ressonância que um sentimento pode encontrar nos outros, os quais, pela simples presença fazem emergir esse afecto de pertença. A saúde afectiva, composta pelas suas diversas relações, passa por esta ressonância e tem um papel central, ainda não totalmente investigado, nos modos como afecta o corpo e a saúde fisiológica. Esta saúde passa igualmente pela relação do indivíduo com os objectos que o envolvem, e o modo como este os investe de sentido, os faz representar algo significativamente gratificante para si[29]. É o caso do objecto patrimonial investido das funções que agora tentamos observar.

Quando ocorre no indivíduo uma fragilidade com origem na sua condição dependente, esta faz subir o quantum das necessidades de afecto; necessidades elevadas a uma alta potência sempre que se conjugam certos factores razoavelmente perversos e tão comuns hoje em dia como, por exemplo:

- um passado e uma memória sempre recentes, cumulados de experiências afectivas gratificantes que, de um momento para o outro, pelas mais diversas circunstâncias, deixaram de ocorrer;

- um passado e uma memória sempre recentes, com um mínimo de relações afectivas - quantum de sobrevivência - devido ao perfil de personalidade do indivíduo, mínimo este que também desaparece, e com ele as condições de sobrevivência.

Estes dois casos modelo, apesar de extremos, são frequentes; têm em conta, numa economia da afectividade, um quantum de alimentação afectiva que varia de individuo para indivíduo, do mais carente ao relativamente saceado. É igualmente frequente o seu retrato na literatura e no cinema, com personagens não necessariamente marginais ou extremas. O problema é que os outros grupos "marginais" apresentam dependências de tipo diferente e raramente contaminadas por esta impotência no acesso à emoção partilhada, à permuta e conquista do afecto merecido.[30]

A grelha de valores que governa esta sociedade de consumo e reposição ou reciclagem aceleradas não encontra espaço para o produto usado; o seu lugar é o lixo ou, caso raro, o museu. Este logos é convertível em produto humano; e só não se concretiza a um nível percentual mais elevado porque existem ainda resquícios de um outro logos mais transcendente e metafísico, que acaba por fundamentar toda a ética mais branda. Os acessos vão-se fechando e quase nada resta em alternativa. A própria experiência acumulada de pouco serve enclausurada num corpo frágil e dependente.

 

 

 

 A constituição do objecto

 

Na observação dos processos comunicacionais e de relação é necessário perceber o modo como o objecto se constitui tal como ele é e os sujeitos o representam. O modo como este se constrói do exterior no momento da comunicação e do trabalho de investimento simbólico. Só se pode entender a singularidade do objecto, na sua relação com os discursos e valores que lhe são investidos do exterior que os contextualiza. Neste caso, são as práticas patrimonializantes que estabelecem com o objecto, imerso nos condicionamentos culturais que o envolvem, uma relação de cuja natureza poderemos decantar algum sentido.  É a partir  dessa relação que poderemos iniciar o trabalho de desconstrução dos investimentos. Isto é, por exemplo, algo de muito improvável numa cultura Zen em que o objecto se representa a si próprio na sua objectividade e sem qualquer relação com um criador humano. Mesmo quando a referência é divina (Buda), a sua relação de representação é autónoma, e não passa por um investimento cumulativo dos homens. Só o contemplador tem ou não poderes, enquanto praticante da contemplação, para metamorfosear[31] o objecto numa representação divina. A materialidade do objecto nunca é alterada, e o seu valor existe apenas enquanto medium funcional que pode a qualquer momento ser substituido por outro. Nesta outra cultura só a contemplação da transcendência  é verdadeira contemplação e é, por isso, descabido qualquer investimento cumulativo de valor em objectos que, eventualmente, só o adquirem em  determinados momentos, e por acção da vontade e sabedoria do homem na sua relação com o deus-buda, que é o essencial, tudo o resto acessório. Isto prova-se pelo modo como se operam as práticas de restauro em termos extremos. Ou há um restauro permanente e imperceptível de todos os objectos do templo ao longo de séculos, sem deixar traço dessa evolução - o caso mais frequente no oriente; ou tudo é deixado na ruína - o mais raro. É que já não é só o investimento de valor cumulativo que não existe; é a própria História que não faz sentido no oriente (no Nepal, por exemplo), porque esta é estática ou, na melhor das hipóteses, cíclica.

Só quando o homem encontra processos institucionais para admirar a sua obra e destacar alguns dos seus objectos, quando se revê, representa e identifica nesses objectos, só então nasce a moderna noção de património. Este objecto que estudamos emerge e constitui-se em várias frentes, como teremos oportunidade de observar, e é "trabalhado" nas suas múltiplas funcionalidades, particularmente por todas as instâncias que a ele tenham acesso operacional. Para já, interessa-nos perceber que quando o Estado investe no património, investe igualmente na estabilização de uma rede de valores securizante; investe em dispositivos identitários e estabilizadores das dinâmicas sociais; investe materialmente em objectos pretéritos ou presentes para estabilizar o curso das narrativas futuras. A disseminação destes modos de investimento ao longo do tempo, congregam-se numa constelação axiológica vasta que determina a valoração da generalidade dos objectos que assumem este perfil. A constituição desta axiologia, funcionando como rede referenciadora para a cartografia valorativa dos objectos, acaba por se tornar elemento preponderante nos processos de relação e comunicação que se estendem ao tecido social mais alargado. Esta axiologia é o suporte-catálogo que os agentes envolvidos inevitavelmente "consultam" sempre que necessitam de trocar mensagens. Neste processo, encontra-se igualmente a generalidade de unidades isoladas de significação - os objectos que se constituem em obras pelo investimento valorativo já canalizado e condicionado pela noção geral de património.

Ao buscarmos o estatuto do objecto, e o que o transforma em obra, teremos que descobrir o momento em que este é partilhado, em que os seus elementos constituintes de mensagem são comuns a todos e trabalha enquanto objecto de uma prática significante que também o constrói e estrutura. De um ponto de vista genealógico, como já foi referido, a produção da obra começa pela linguagem que "est le premier "monde comun" dans lequel entre l'individu, et que l'intuition d'une réalité objective n'est accessible que par sa médiation;"[32]         

 

 

 

 

 

3.3    A recepção e o Receptor

Esta expressão (receptor) encontra-se um pouco delapidada pelo senso comum e pelo consumo a que foi sujeita, particularmente na estrutura dialógica subjacente à generalidade das teorias da comunicação. Ainda assim, receptor é, aqui, a melhor expressão que encontro para designar essencialmente a encarnação do momento da recepção, da percepção e re-criação da obra no contexto ou no mundo do sujeito receptor. Como tal, também "leitura" é expressão que vai aparecer amiúde para designar esse conjunto de momentos de recepção, de integração da obra no contexto do sujeito receptor. O espaço da criação na recepção é, aliás, a grande "descoberta" da década de 80. A generalidade das pesquisas e sondagens na área das teorias da Comunicação têm vindo a deparar com a necessidade da capacidade criativa no receptor, por contraposição à observação tradicional da recepção enquanto passiva. Percebê-la como actividade veio abrir potencialidades à produção e oferecer mais um eixo axiológico para a classificação de boa parte dos produtos veiculados pelos media.

 

Nas áreas do grande público, esse investimento, o investimento e a vontade da parte do receptor tem-se vindo a tornar cada vez maior devido à sectorialização, especialização e complexidade que certas áreas da produção, particularmente nas diversas artes, têm vindo a assumir. Se conseguirmos estabelecer uma fronteira, ainda que heurística, no espaço que podemos designar como de "grande consumo", tudo o que lhe escapa, ou tudo o que por este buraco negro não é absorvido, é decerto matéria-objecto que envolve um nível de investimento superior à passividade preguiçosa do grande consumo.

Quando, por circunstâncias bem explícitas ou por mero acidente alguma matéria-objecto de criação/consumo mais dispendiosa (envolvendo maior investimento afectivo e formativo) cai para dentro desse grande consumo, é difícil, senão impossível, que venha a ser consumida pelo "grande consumidor" dentro dos "trâmites", suporte e forma em que foi produzida; o grande "romance" passa a filme; o "grande quadro" passa a gravura; a grande teoria passa a "abstract /digest de divulgação"; a "grande performance" passa a CD. (Esta não é exactamente a observação McLuhaniana, mas anda, de facto, muito próxima dessa perspectiva da imagem dos media no tempo, como bonecas russas encaixadas umas nas outras).

 

 

 

Lei do Pat.

De qualquer modo, na lei portuguesa, e relativamente aos diplomas anteriores, destacam-se algumas inovações:

A consideração da defesa e valorizaçao do património cultural português como direito e dever de todos os cidadãos (art. 2°), de que resulta, por exemplo, o direito de acção popular de defesa daqueles bens (art. 59°):

 

‑ a melhor definição dos mecanismos preventivos susceptíveis de serem desencadeados durante a fase de classificação de qualquer bem, independentemente do resultado final do processo (art.14º);

 

- a dignificação legal do organismo de que o Estado deverá dispôr para esses efeitos (entre 1980 e 1992, o IPPC) (art. 5º);

 

‑ a consideração de regimes fiscais apropriados à mais adequada salvaguarda e ao estímulo à defesa do património, favorecendo isenções fiscais e abrindo caminho a práticas de mecenato.

 

- a adopção de uma nova tipologia de classificação dos bens patrimoniais (valor local, valor regional, valor nacional ou valor internacional) (art.7º e 8º);

 

‑ a consideração e promoção do papel interventor das associações de defesa do património (art.6º);

 

 

 

 

 

 

ontologia

Não se reconhecem assim tantos pensadores a tratar a esfera do ser ou "onthos" da coisa, mas a verdade é que os poucos que se aventuraram mais sistematicamente por estes terrenos mais transcendentais, lograram produzir uma fértil panóplia de conceitos. Estes, enquanto operadores sémicos, se na sua potencialidade sémica ‑ na riqueza do que podem representar ‑ se mostram extremamente solventes na sua aplicação ao mais diverso tipo de objectos a tratar, já devido à polisemia a que se sujeitam no seio da dinâmica da linguagem natural, criam todo o tipo de resistências ao uso. Atravessar esta "floresta" de densidade rarefeita numa época em que a palavra de ordem passa por objecto‑objectivo‑objectividade, mesmo que por isto se entenda normalmente pouco mais que a relação de contacto com o objecto limitada à experiência primária/primeira dos sentidos;

 

 

 

 

 



[1]O processo genealógico desta disciplinarização é originalmente agarrado por Bryan Turner quando junta Weber e Foucault no seu artigo "rational bodies": "A number of commentators have drawn attention to a relationship between Weber's view on rationalization and bureaucracy, and Foucault's emphasis on disciplines and panopticism. Both Foucault and Weber see modern rational practices emerging from the monastery and the army and spreading outwards towards the factory, the hospital and the home. At least superficially, Weber and Foucalt appear to share a common interest in the impact of religious practices on long-term secular arrangements. "

"Rational Bodies, The Convergence Between Weber and Foucault", Max Weber, from History to Modernity, Bryan S. Turner, ed. Routledge, London, p. 127

 

[2]Isto será trabalho para uma Filosofia e Sociologia do Direito, algum dele já empreendido:

ver "O Estado e os modos de produção de poder social", Pela Mão de Alice, Boaventura Sousa Santos, ed. Afrontamento, Porto, 1994, pps 103-119.

 

[3]Basta ir a qualquer centro de emprego em Lisboa onde, a decoração foi mudada, as cadeiras almofadadas, mas os funcionários/as e a sua formação são idênticas; tratam o "desempregado", que é suposto ser sempre alguém frágil, quando não estigmatizado, como se fosse gado para abate. Também se pode ir à repartição de finanças observar o "Estado-das-coisas", a começar nas filas de espera e a acabar na indisposição dos funcionários.

 

[4]O processo de contextualização da obra foi já devidamente assinalado em vários estudos, particularmente no que se refere à constelação de objectos adjacentes e discursos referenciadores - o mesmo é dizer novos sentidos - que a obra acaba por gerar sem domínio sobre eles. Relativamente ao Cinema, essas referências já foram por mim em parte empreendidas O Arquivo de Imagens em Movimento, particularmente em "A memória dos Novos Media", e Análise de Documentos, pps 96-104.

 

[5]Ver sistemas periciais em Giddens 1994

 

[6] ver a diferença entre o compreender epistemologicamente e o compreender ontologicamente, este que consiste no modo de actuar e ser do sujeito que, nesta altura, deve ser já parte do objecto da sua investigação, o que torna sensíveis todas as tentativas de distanciação crítica relativamente ao objecto. Ver Do Texto à Acção, Paul Ricoeur, ed. Rés, Porto 1990, or. Du Texte à L'action; essais d'hermeneutique II, ed. du SEUIL, Paris, 1985

 

[7] Esta destrinça de cariz heurístico, destina-se apenas a fazer perceber alguma da sistematização que tento investir neste trabalho, já que desde o início venho insistindo na abordagem global, envolvendo boa parte das facetas encontráveis no seu processo  mesclado e "promíscuo" de protagonismo quotidiano.

 

[8]Entendendo-se por isto o entendimento mais a previsïo, as capacidades teleológica e nomotética associadas.

 

[9]Pelo modo como se constituem factor de influência, inflexïo ou mudança na vida quotidiana do individuo, tal como a diferença que se observaria caso nïo existissem.

 

[10]Aqui, especialmente em dois sentidos que se plasmam; o de uma perspectiva ontica do objecto, que na sua essencialidade ganha contornos nos modos comuns de ser observado pela comunidade; o de uma perspectiva pragmática do objecto que enquanto investido pela agência dos sujeitos é igualmente, pelas leis de reciprocidade pragmática, agente passivo no ambiente em que se encontra.

 

[11]Particularmente sob a administraçïo das instituiç¢es tutelares e a acçïo directa, indirecta ou nïo-acçïo (por indiferença ou impotência) do cidadïo.

 

[12]"Le patrimoine est ce dont la préservation demande des sacrifices, ce dont la perte signifie un sacrifice. La jurisprudence devrait travailler sur cet aspect du phénomène autant que sur les caractères légaux de la propriété. Car il s'agit ici d'un bien-que-nous-possède autant et plus que nous ne le possédons."

Le Patrimoine, André Chastel, Enc.Universalis, vol 17, p.112

 

[13] Ver a profusão de exemplos retirados da História, da Roma antiga à França renascentista e moderna, em André Chastel, ibidem.

 

[14]Com o surgimento de uma cultura apelidada "de massa", mas no seguimento de uma dinâmica acelarada que "a cultura", a própria expressïo "cultura", tem vindo a adquirir durante todo este século, tem-se observado periodicamente um extremar de posiç¢es quanto aos sentidos que ela evoca. Independentemente dessa cavalgada do sentido quotidiano que a palavra "cultura" tem vindo a assumir conforme os contextos (mais temporais que espaciais) por que tem passado, é aqui de referir os cantos a que se recolhem os protectorados culturais, o snobismo que investem e exalam por oposiçïo a toda a outra ambiência da sociedade e cultura de massa a que sïo sensíveis. Os tipos de promoçïo que o espaço cultural investe provocam quase automaticamente efeitos de nïo-humildade que frequentemente produzem concatenaç¢es infelizes, funcionando afinal apenas como reacçïo.

"Il n'est besoin que de rappeler dans quelle mesure tout le mouvement de l'art moderne commença par une rébellion véhémente de l'artiste contre la société en tant que telle (et non contre une societé de masse encore inconnue) pour comprendre à quel point ce rapport antérieur a dû laisser à désirer, et devenir méfiants à l'égard de la facile nostalgie qu'ont tant de critiques de la culture de masse pour un Age d'Or de la bonne societé policée. Cette aspiration est beaucoup plus répandue aujourd'hui en Amérique qu'en Europe, pour la simple raison que l'Amérique, quoiqu'elle ne conaisse que trop bien le philistinisme barbare des nouveaux riches, n'a qu'une connaissance incertaine du philistinisme culturel et cultivé, nom moins ennuiyeux, de la société européene, où la culture a acquis une valeur de snobisme et où c'est devenu une affaire de position sociale que d'être assez éduqué pour apprécier la culture; (...)

in La crise de la Culture, Hannah Arendt, Gallimard, Paris 1972/92, . 254

 

[15]ver, à frente, capítulo s/ artes e ofícios tradicionais em Portugal.

 

[16]David Mathews, This what you call music?, TLS, May 27, p.17

 

[17]Esta é uma das razões por que os contornos da música são especiais. A sua presença advem-lhe essencialmente do orgão do sentido que a recebe, o ouvido; pode dizer-se que este é um órgão que, associado aos restantes nervos sensores do aparelho auditivo e do cérebro, não tem grande capacidade proxémica. Podem-se tapar os ouvidos, mas continua-se a ouvir. Se se fecharem os olhos, deixa-se de se ver. O ouvido é um orgão muito mais integrado no corpo que o olho, por exemplo; só o cérebro vê enquanto é todo o corpo que ouve. É hoje possível aos deficientes totalmente surdos, a utilização de um amplificador que transmite as frequências sonoras (vibrações) a outras partes do corpo (o peito) que as conseguem identificar.

 

[18]Isto costuma, aliás, notar-se a um nível micrológico, ao fim de semana, quando o mundo vai passear ou então os jornalistas vão de férias;

 

[19]José Gil, Os intelectuais e o Poder,  Público, 20 Junho 1994, p.19

 

[20]"Na minha juventude tudo começava, antes de mais, pela ideia de conquista do poder. Toda a traansformação do mundo, toda a ideia de mudança, passava pela ideia de conquista de poder. Qualquer pessoa que quisesse realizar-se de uma forma consciente no mundo, tinha de saber como conquistar o poder. Realmente o poder está desacreditado hoje em dia. E está tão desacreditado quanto a própria política passou a ser um elemento redutor da vida.(...)Hoje a classe política é uma classe completamente fechada, reduzida. O nível de aspirações da classe política é extremamente pobre. Vê-se isso todos os dias."

António Alçada Baptista, Ler, ed. Círculo de Leitores, Nº26, 1994, p.57

 

[21] Introduction a Seconde Considération Intempestive de F. Nietzsche, por Pierre-Yves Bourdil, ed.Flammarion, Paris 1988, p.38

 

[22] Livros s/ morte *

 

[23]Como as Sociedades Recordam, Paul Connerton, ed.Celta, Oeiras,1993, p.105

 

[24]"Os objectos que atestam a nobreza, devem ser objectos que não podem ser obtidos nem por procuração, nem de forma rápida. Possuir um castelo ou uma casa senhorial, não serve primordialmente para mostrar disponibilidade de dinheiro. É necessária também a apripriação da arte de engarrafar e provar bons vinhos, dos segredos da pesca, das habilidades da jardinagem, do conhecimento da caça. Todas essas competências são antigas, só podem ser apreendidas devagar, só podem ser apreciadas por aqueles que têm vagar e manifestam preocupação pelas coisas que duram. Estas exigem que uma pessoa ocupe o seu tempo de uma forma não económica mas cerimonial. As diversões cerimoniais, de maneira menos formal, mas não menos evidente que os privilégios cerimoniais, afirmam o princípio da transmissão hereditária" ibidem, Paul Connerton, p.105

Nesta exposição de uma forma privilegiada de herança, que é a herança nobre ou marcada pela distinção da transmissão patrimonial, é possível entrever as disputas e os conflitos emergentes numa sociedade em que os valores se con-fundem, em que os eixos de validação e legitimação da propriedade se cruzam. Isto é observável no real quotidiano em que o "novo-rico" adquire propriedade "marcada" para se banhar na sua simbolicidade, capital e património simbólico a que nunca teve acesso na sua vida de aforramento e distância dos valores distintivos. O mundo das narrativas consumidas nos media - cinema, telefilmes, novelas, é razoavelmente abundante dessas estórias investidas de "moral" acerca da transmissão indevida do património para "mãos menos dignas".

 

[25]Até porque já tivemos oportunidade de o fazer em trabalho anterior, ver "Morte ad hominem" em O Arquivo de Imagens em Movimento, E.J.Esperança, ed. polic., Univ. Nova de Lisboa, 1988.

Ver, também, La Mort, Vladimir Jankélévitch, ed. Flammarion, Paris, 1977, em particular o 1º capítulo - "La mort durant la vie", p. 39-91. Ver ainda Mort et Pouvoir, Louis-Vincent Thomas, ed. Pb Payot, Paris, 1978.

 

[26]Do Sentir, de Mario Perniolla, recentemente traduzido para português pela ed. Presença, aborda precisamente esta clareira do quotidiano actual que se pode definir como a geral incapacidade de gestão e domínio dos sentimentos a todos os níveis. Seja no momento concreto da sua emergência pelo modo inábil como sentimos e nos habituamos a bloquear o espírito e o corpo à passagem da emoção, seja no modo - principal crítica de Perniolla - como nos deixamos guiar no modo e formas de sentir por fórmulas de pronto a sentir ditadas em particular pelos sentidores profissionais contratados pelos media. São eles afinal que nos impõem modos de leitura e investimento da percepção, abertura ou fechamento à emoção, direccionamento da sensibilidade  para este ou aquele autor, esta ou aquela parte de determinada obra, etc.

 

[27]ibidem Elias, p.54,55.

 

[28]ibidem p. 71,72.

 

[29]Sobre esta questão, para mais detalhes, ver Object love and reality, Arnold H. Modell, ed. IUP, N. York, 1968.

 

[30]A frieza desta abordagem só adquire esta temperatura negativa precisamente por tratar um tema/objecto quente como o é a relação afectiva. Com muito agrado aqui, o sociólogo, com base no seu arquivo, polvilharia este texto de episódios tão interessantes como o tema. Acontece que a sua condição, adentro de uma sectorialização epistemológica da ciência, não o aconselha. Essa tarefa de ilustração e comentário caberá mais ao seu vizinho psicólogo. Resta ao primeiro o agrado de ter a certeza de que melhores ilustrações e episódios, a complementar esta racionalidade, não existirão que as do próprio leitor.

 

[31]A "metamorfose" em trabalho conjunto com a "reprodução" é uma das noções chave empregues por Malraux como operador pivot para se perceber o processo de patrimonialização. Essa metamorfose acontece a dois níveis: primeiro no modo como os objectos do passado tornados  relíquias, chegam ao presente de hoje, física e morfologicamente diferentes do que o eram no presente passado. Os presentes códigos da autenticidade e do imaginário presente, deixam-no ficar como surgiu, pois o valor cresce com as marcas da passagem do tempo. "Se uma cabeça grega pintada e encerada nos dá, primeiro que tudo, a impressão, não de uma obra ressuscitada, mas de um monstro, isto não é só porque fomos induzidos em erro por uma convenção: é, também, porque o seu estilo ressuscitado surgiu no meio de estilos que o não são. Quase todas as estátuas do oriente eram pintadas, assim como as da Ásia central, da Índia, da China e do Japão; a arte de Roma era, muitas vezes, de todas as cores do mármore. Pintadas eram as estátuas românicas, pintadas na sua maioria as estátuas góticas. Pintados eram, segundo parece, os ídolos pré-colombianos, e os baixos-relevos maias. O passado, porém, na quase totalidade, chegou até nós sem cor."  As Vozes do Silêncio; o Museu Imaginário, André Malraux, ed. Livros do Brasil, Lisboa, p.40

O segundo nível, concomitante, passa pela reprodução e pelo seu estatuto mediático; as imagens dos objectos reunidas em álbum, o processo de catalogação, todas as operações de homogeneização e regulamentação do tratamento dos objectos operam, por si só, esse segundo nível metamórfico que permite a reunião de objectos singulares, com vidas e sujeitos a relações singulares,  debaixo da noção homogeneizante do património.

 

[32]L'objet de la science de la culture, Ernest Cassirer,"Logique des Sciences de la Culture", ed. du CERF, Paris, 1991,p.91