DISCURSO
filosofia - génese
Na Filosofia clássica : "operaçäo intelectual que se
efectua por uma sequência de operaçöes elementares e sucessivas". Um conhecimento discursivo opöe-se a um
conhecimento intuitivo ou imediato. Pode-se assim assemelhar discursivo a
racional, e discurso a razäo.
O discurso é a traduçäo normalmente aceite do termo grego -
logos. A lógica é uma ciência reflexiva do discurso. O discurso é entäo uma
sequência ordenada de enunciados de onde cada um extrai o seu valor a partir
dos que o precedem, e dos quais é conclusäo. Um discurso verdadeiro encontra a
sua verdade na sua coerência, mas também na evidência do seu ponto de partida.
O discurso científico näo tenta fundar-se a si mesmo e encontra o seu ponto de
arranque a partir de um domínio do real reconhecido como interessante em si,
com tendência posterior a alargar-se. Do mesmo modo, o discurso matemático
parte de axiomas ou decisöes sem se mostrar interessado ou capaz de os/as
revelar.
Para a filosofia tradicional, a pluralidade dos discursos
coerentes (aqueles nos quais näo é possível encontrar erros lógicos) constitui
um escandalo.No entanto , a filosofia ambiciona constituir o seu discurso em
sistema, eliminando todo o recurso a um conhecimento intuitivo, täo evidente a
certos espíritos como duvidoso para outros. O discurso hegeliano constitui-se
assim em discurso absolutamente
coerente no qual o racional é efectivamente real (wirklich) e o efectivamente
real - racional.
O ser possível uma revolta contra o discurso uni-total
hegeliano mostra que o discurso näo pode deduzir a estrutura una do mundo.
Deixando de lado como inessencial o que Kierkegaard (o individuo), Marx (a
práxis real) ou Heidegger (o Da-sein) retêm como fundamental, o discurso
uni-total (absolutamente coerente) mostra que ele ainda vai escolher entre um
inessencial e um essencial em funçäo de um critério näo pensado.
O real é entäo o que se diz no discurso, o conjunto dos
discursos, racionais ou näo, que os homens construiram sobre o real no curso da
história. A filosofia poder-se-à fazer Arqueologia segundo Michel Foucault,
tentando descrever as formaçöes discursivas, resultados de estratégias e de
práticas, livrando a história do pensamento da sua "sujeiçäo transcendental";
uma vez que o real e o discurso säo um,
é possível conseguir sobre os discursos humanos historicamente havidos o que a
lógica formal conseguia por sobre o discurso racional e a lógica transcendental
por sobre o conhecimento de um real pensado como exterior ao sujeito. Os
discursos podem ser levados até aos conceitos primeiros näo dedutíveis aos quis
se dará o nome tradicional de categorias; a exposiçäo do fechamento das
categorias mostrará entäo a unidade e a totalidade do discurso que se
compreenderá a si mesmo depois de ter compreendido o outro. (J. Wilfert.)
DISCURSO (linguística)
Este termo - que näo tem equivalente na maior parte das
línguas näo românicas, como o inglês ou o holandês, ou que tem um sentido
diferente ou desviado do francês ( por exemplo, como no alemäo, em que o mesmo
termo significa apenas um encadeamento racional ou intelectual) - é de uma
grande ambiguidade conceptual. O Discurso coloca-se fora das dicotomias
tradicionais em teoria linguistica, como a da língua e "parole"
(fala-expressäo), sistema e processo, competência e performance. Os grandes
linguistas estruturalistas, como Saussure e Hjelmslev näo operacionalizaram uma
noçäo de discurso. Tal como a sintaxe, o discurso está livre da doutrina
oficial de Saussure que, de qualquer modo, sente incomodado a sua atitude
epistemológica, que é essencialmente dicotómica e reducionista: segundo as
fontes manuscritas do "Curso de Linguística Geral" (R. Godel .
Paris-Genéve 1957) ao discutir o estatuto do sintagma, Saussure escreve: "
É com efeito aqui que existe algo de delicado na fronteira dos domínios da
língua e da fala. A fronteira da língua e da fala é um certo grau de
combinaçäo" (frgt D266). O discurso é assim entendido como um terceiro
termo, entre a língua e a fala, tendo uma funçäo de subversäo das dicotomias.
Pode presumir-se a mesma posiçäo em face das dicotomias de processo e sistema
(em Hjelmslev), e de compet~encia e performance (em Chomsky). Em poucas
palavras, será o discurso qualificável como sendo objecto de uma teoria
linguistica e como gramaticalmente estruturado? Os estruturalistas näo encontraram resposta. Na maior parte dos
casos o discurso é identificado com a fala, ou, simplesmente com a manifestaçäo
(de superfície) da língua; o linguista Martinet chega a dizer que "o
discurso näo tem nada que näo se encontre na frase". Dois acrescentos
poderiam oferecer uma certa consistência epistemológica à noçäo de discurso,
mesmo no interior de uma concepçäo estruturalista do fenómeno da linguagem:
primeiro, ligar o discurso à faculdade de linguagem (de linguajar), essa
capacidade sociocognitiva de produçäo linguistica, e em seguida, interpretar o
discurso como uma sintagmática(...). É assim que Buyssens (1943) pode reavaliar
o discurso enquanto objecto válido de uma teoria linguistica. Era o explorar de
certas consideraçöes do Curso de Linguistica geral que eram já abertamente
funcionais. Essa concepçäo funcional da linguagem abre, é verdade, todo o
espaço à linguistica do discurso que se veio a tornar, nos nossos dias, o ramo
piloto da pragmática: foi iluminando a origem psicossocial do acto de falar que
a noçäo de discurso encontrou a sua pertinência epistemológica.
Acontece que essa incerteza sobre o estatuto epistemológico
do discurso ainda se näo levantou. Lembremos a tensäo entre as noçöes de
discurso e de texto. à partida, é preciso fazer notar que o discurso é ao mesmo
tempo o acto e o resultado desse acto, a acçäo de produçäo verbal e o resultado
concreto, visível ou audível. Em seguida e juntando-se a essa primeira ambiguidade,
um discurso é um enunciado que tem propriedades textuais mas é ao mesmo tempo
uma actividade que deve ser caracterizada a partir de certas condiçöes de
produçäo contextualisadas. O discurso é, por consequência, um "texto
contextualisado". O texto, nesta perspectiva é, como a lingua em Saussure,
uma estrutura abstracta, um "objecto" reconstruido e hipotético
resultante da nossa investigaçäo cioentífica. Mas o discurso entäo näo é afinal
pura manifestaçäo do texto subjecente? Isto seria voltar a cair na
identificaçäo falaciosa do discurso e da fala que sempre foram ameaçadores na
axiomática estrutural. O discurso näo é assim nem o texto nem a manifestaçäo do
texto: näo é um enunciado textual, ou para utilizar a terminologia de Greimas,
o discurso näo é um texto enunciável mas enunciativo: a enunciaçäo é o contexto
produtor do discurso. Tudo agora vai depender de onde se localizará a
enunciaçäo se se quiser descrever e sobretudo explicar a actividade linguistica
em toda a sua riqueza original.
O discurso comporta caracterísiticas relacionais e
sistemáticas que näo säo as do "texto" subjacente reconstruido pelos
linguistas estruturalistas. Mas, de encontro à fala que é inefável, fugitiva e
näo estruturada, o discurso comporta a sua "gramática" e as suas
regularidades. O lugar do discurso entre o texto e a fala - constituindo-se de
novo como um "terceiro termo" mediatisando uma dupla dicotómica -
torna-se inteligível se se manipular o modelo de explicaçäo "a níveis de
profundidade", isto é, um modelo que se apresenta sob a forma de um
"percurso generativo". Neste percurso generativo, os semioticistas
fazem a distinçäo entre a compet~encia semio-narrativa e a competência
discursiva. As formas semio-narrativas säo dotadas de um estatuto transcendental:
säo apropriadas a todas as comunidades linguisticas e, por isso, universais,
conservando-se através da traduçäo de uma lingua para a outra. e säo
reconhecíveis até nos "objectos" semióticos näo linguisticos (saídos
do mundo dito näo-natural ou de outros códigos culturais e artísticos); estas
formas semio-narrativas säo de facto formas de inteligência humana na sua
globalidade. A competência discursiva, por outro lado, encontra-se como
garantia: constitui-se do lado da enunciaçäo para a produçäo dos enunciados.
Segundo a semiótica ortodoxa a dita discursivizaçäo ou produçäo de discurso
consiste na tomada das estruturas semio-narrativas e sua transformaçäo em
estruturas discursivas. É interessante notar que nesta perspectiva , näo existe
qualquer oposiçäo possível entre o discurso enquanto monologo e a comunicaçäo
enquanto dialogica. A estrutura da comunicaçäo näo sendo mais regulada por
parametros exteriores ao discurso (os
contextos psicológico, referencial, situacional, etc.) mas internos, tem uma
competência que se desdobra no processo de genese/geraçäo do discurso a partir
de um universo profundo semio-narrativo, tornando-se completamente recuperável
no interior do modelo semiótico. Apesar desta proposiçäo oferecer uma soluçäo
para o problema epistemológico do estatuto específico do discurso, terceiro
termo entre o texto(ou a lingua) e a fala, entre a profundidade e a
universalidade abstracta por um lado, e a superfície e a contingência
irrecuperável por outro lado, ela näo dá satisfaçäo conclusiva aos filósofos da
linguagem e aos linguistas-pragmáticos. Passemos a enumerar de início os termos
do debate conceptual que dá à problemática do discurso uma opacidade täo
resistente.
Independentemente do modelo, seja ele congeminado em
"percurso generativo" (pensemos na gramática generativa de Chomsky ou
na semiótica de tipo greimasiano) ou seja ele plano/linear ( como na
linguistica estrutural ou na lógica aristotélica), deve poder dar conta das seguintes propriedades do discurso.
a) O discurso é deícticamente marcado: o discurso é
"histórico" no sentido em que o sujeito enunciador está
espacio-temporalmente localisado e modificado pelas forças psicossociais que
caracterizam uma época. Michel Foucault era particularmente sensível a esta
propriedade. Segundo Foucault, o
discurso é "um conjunto de regras anónimas, históricas, sempre
determinadas no tempo e no espaço que
definiram numa determinada época, e para uma área social, económica,
geográfica ou linguistica dadas, as condiçöes do exercício da funçäo
enunciativa". Que a lingua (saussuriana) seja "eterna" ou que a
forma semio-narrativa seja "transcendental" ( como se pode presumir
ao seguir Greimas) distingue de facto definitivamente estas duas entidades do
discurso que transportam exemplarmente as marcas da deixis actorial (a pessoa),
temporal e espacial.
b) O discurso manifesta um conjunto de regularidades e está
assim submetido a régras cujo estatuto é necessário determinar. Näo se trata de
regras gramaticais que governem a boa formaçäo sintáctica das frases; säo mais
estratégias que se devem tornar aceitáveis pragmaticamente no seio de uma
comunidade enunciativa.As regularidades enunciativas säo heterógeneas segundo
os diferentes tipos de contextos que geram a significaçäo: a relaçäo de um
fragmento discursivo com o seu contexto referencial, o seu contexto
situacional, o seu contexto psicológico, o seu contexto comunitário é, de cada
vez, governada por uma classe de "estratégias" específicas que, no
seu conjunto e na sua diversidade continuam comunicáveis e reconhecíveis.
c) O protótipo de toda a discursividade é o discurso
dialógico: todo o discurso é em princípio um interdiscurso.
Os discursos no seu isolamento säo apenas componentes que
encontram a sua identidade sob a alçada do interdiscurso. O sentido discursivo
é forçado e modificado pela unidade de sentido mais alargada que pode ser
projectada a partir do fragmento em consideraçäo.Todo o discurso é sempre
interpelativo ou apelativo, e para mais, é sempre o resultado de uma
interpelaçäo ou de um apelo de um outro discurso. O sentido discursivo näo se
calcula por adiçäo dos sentidos expressos pelas unidades constituintes mas
calcula-se a partir do sentido de todos os discursos que funcionam enquanto
horizonte do discurso em consideraçäo.
d) este carácter interdiscursivo de todo o discurso näo pode
fazer esquecer que a relaçäo entre os discursos é uma relaçäo de traduçäo, näo
oferecida passivamente mas conquistada em toda a tensionalidade/tensäo e em
toda a polémica ( pressupondo por isso uma pluralidade de interpretaçöes ou de
traduçöes possível). A comunicabilidade dos discursos näo significa toda a
ausência de malentendido, de manipulaçäo ou sobretudo de equilíbrio de forças.
Näo existe qualquer transparência de princípio no desenvolvimento do
interdiscurso: existe apenas uma opacidade polemológica devida à presença da
subjectividade enunciante nos seus discursos.
e) As instâncias de enunciaçäo discursivisadas (no processo da produçäo de diiscursos) sob a
força determinante do interdiscurso t~em a sua fonte, nunca substancialmente
presente, mas sempre reconstruida por catélise, para utilizar o termo
linguistico de Hjelmslev, na subjectividade enunciante.(ver Enunciaçäo). Näo
existe discurso sem sujeito (enquanto efeito de discurso) tal como näo existe
análise de discurso sem reconstruçäo das condiçöes (subjectivas) de produçäo e
de compreensäo dos discursos.
f) Toda a prática discursiva é virtualmente uma prática
intersemiótica: näo há qualquer incompatibilidade entre diferentes tipos de
semioticidade, e é assim que uma interacçäo de duas ou mais semioticidades
compatíveis pode bem caracterizar práticas culturais e artísticas entre as mais
densas e as mais complexas: é o fenómeno do sincretismo de códigos (pensemos,
por exemplo, no teatro que relaciona diferentes semioticidades, assim como a
ópera e, porue näo, a "vida quotidiana").
g) Finalmente, apesar de existir heteronímia entre o ambiente
ou o contexto gerador e o discurso gerado, näo se pode dissociar o
interdiscurso e os seus componentes, desse ambiente uma vez que o interdiscurso
näo é unicamente o resultado dos contextos;
é acima de tudo, constituinte de contextualizaçäop. Os discursos eles
próprios situam os contextos e os ambientes: näo säo puramente passivos no que
se refere aos contextos.
Eis sete exigências epistemológicas que modulam ou forçam
qualquer abordagem adequada da discursividade. Pode-se, de facto, resumir sob
duas grandes rúbricas que passo em revista nos parágrafos que se seguem: existe
uma discursividade desde que exista uma subjectivaçäo e contextualisaçäo dos
fragmentos da linguagem.
A subjectivaçäo da actividade linguistica é uma necessidade
de toda a reconstruçäo do sentido global e rico de todas as sequências
discursivas pois o discurso näo é apenas um texto "tout court", como
se diz, mas um "texto enunciativo".
Esta subjectivaçäo concretiza-se através de operaçöes de
embraiagem e desembraiagem que criam um quadro espacio-temporal ao programa de
acontecimentos subjacente ao discurso linear (ou sintagmático. O linguista
Roman Jackobson introduziu a noçäo de embraiagem ou embraiamento (shifter) para
analisar os marcadores da presença da subjectividade no discurso: trata-se principalmente
dos demonstrativos (classe genérica que compreende os pronomes pessoais e os
demonstrativos). É necessário, a partir de Jackobson, completar e estruturar a
lista dos demonstrativos indicando as relaçöes dos indicadores de pessoa com os
indicadores de tempo e de espaço; mais, é preciso juntar aos mecanismos de
embraiagem os mecanismos de desembraiagem ou de ausência do sujeito no seu
discurso ( este último tipo de mecanismos será de primordial importância para a
descriçäo de um certo tipo de discursos como o científico, o filosófico ou o
didáctico). Todavia, a embraiagem ou desembraiagem näo esgotam toda a
subjectivaçäo da actividade discursiva. Enquanto "texto
enunciativo", o discurso manifesta
outras instâncias da subjectividade subjacente: esta subjectividade está presente
no seu discurso como uma competência modal criando a partir da concatenaçäo
modal específica, e dempenhando sequências de acçöes cuja intencionalidade
deveria ser reconhecida pelo interlocutor (em todo o caso, se se aceitar que a
comunicabilidade e a transferência das intençöes entre sujeitos enunciadores
funciona como uma coacçäo a toda a actividade discursiva). É preciso ainda
acrescentar que esta competência modal do sujeito enunciador näo é solipsista:
o enuniatário é sempre "imaginável" ou "representável" pelo
enunciador, e é sobre o fundo desta representaçöes, aliás recíprocas, entre
sujeitos e enunciadores (enquanto que enunciador ou enquanto enunciatário) que
a comunicaçäo se realiza. Toda a comunicaçäo pressupöe por isso o
"reconhecimento" (no sentido epistémico tal como no sentido diontico)
recíproco das competências (especificamente modalizadas) dos sujeitos
enunciadores. Esta abordagem do discusos tem a sua origem numa longa tradiçäo
da filosofia da linguagem mas ela foi relativisada, em linguística
contemporânea, por Benvenist (a dita "linguística da enunciaçäo") que
retoma as intuiçöes de Buhler e para lá disso, também há filosofia
essencialmente transcendental (Kant e Husserl) que dá ao sujeito o papel pivot
de condiçäo de possibilidade de toda a fnomenalidade discursiva. "Subjectivar"
o discurso continua, de modo priviligiado a estratégia que motiva a maior parte
dos pragmáticos ditos "continentais" (Ducrot é um exemplo
prototípico).
A contextualizaçäo do fragmento linguístico é uma outra
necessidade para a análise do discurso, e é essencialmente por este lado que os
pragmáticos anglo-saxónicos, especialmente na linha de Wittgenstein e Austin,
abordam o estudo do discurso e das suas especificidades. Contrariamente aos
semiólogos da escola de Greimas, os pragmáticos, tanto na filosofia da linguagem
como na linguística que aceitam a pertinencia da contextualizaçäo do sentido
dos fragmentos discursivos, defendem a tese segundo a qual o contexto näo está
no texto mas tem sim uma tençäo constitutiva entre o discurso e o seu contexto.
Nesta epistemologia, näo é um modelo em profundidade ou "a vários
níveis" que é apresentado mas sim o modelo que reconstroi a riqueza e a
variaçäo dos sentidos na sua distribuiçäo enquanto práticas heterogéneas. Aqui
o discurso é visto como um processo de utilizaçäo num contexto social e
cognitivo. Isso näo terá como consequência a dissociaçäo radical de
"discurso" e "contexto" como duas noçöes independentes. O
discurso, neste perspectiva, näo é modo nenhum um objecto estático e
estabilizado mas sim uma actividade menifestando uma acçäo social determinada
e, mais, capaz de transformar este contexto: Austin lembrou-nos que "dizer
é fazer", o que quer dizer, que se toma este slogan na sua extençäo
maximalista, que a "via do discurso", no fim de contas, é o motor da
"vida da comunidade enunciativa" e das realidades psicossociais daí
decorrentes. É preciso por isso admitir que, apesar do discurso e do seu
contexto continuarem em tensäo perpétua, existe uma interdependência necessária
e uma dialética constitutiva dos dois termos antitéticos, o discurso e o
contexto. É comum distinguir diferentes tipos de contextos: o contexto
referencial (o mundo dos objectos, dos estados de facto e dos acontecimentos;
e, para as ontologias alargadas, os mundos actuais e possíveis), o contexto psicológico,
o contexto actancial e o contexto situacional. A esta tipologia de contextos
pertencem diferentes tipos de pragmáticas. De facto, pode dizer-se que mesmo a
teoria dos modelos e a lógica modal que derivam o sentido de um fragmento
discursivo de um contexto existencial ( por exemplo, o possível e o fccional
como referente; a realidade "modalisada" in se) säo um tipo de
pragmática ou de análise do discurso (chama-se a esta pragmática
"pragmática indexada"). Se se tomar em consideraçäo o contexto actancial
onde o próprio discurso é incorporado como a acçäo mais global e a mais
determinante do sentido de todo o fragmento discursivo, vê-se como e porquê a
dialéctica do discurso e o seu contexto säo constitutivos: o discurso, com
efeito, é o seu próprio contexto. É segundo esta linha de força que
Wittgenstein, Austin e Grice - e tudo o que se segue em filosofia da linguagem
e em linguistica empírica - pensaram a tensäo entre discurso e contexto.
Tdavia, as contextualizaçöes mais estudadas depois da voga da pragmática säo os
contextos psicológico e situacional. O discurso é um processo cognitivo onde
"o conhecimento do mundo" tem um papel primordial. näo só o
conhecimento, mas também outros sistemas epistémicos säo determinantes.: pode
pensar-se nos sistemas (ou melhor, pseudo-sistemas) de crenças, de convicçöes e
de prossuposiçöes e, por fim, nas
ideologias. Estes sistemas epistémicos que säo na sua maior parte
estereotipados, dizem respeito a episódios convencionais de uma certa cultura.
É assim que os investigadores em inteligência artificial,
interessados na duplicaçäo ou, pelo menos, na simulaçäo da "vida do
discurso", desenvolveram uma noçäo de "quadro(frame) ou de
cenário/script que nos permitem compreender porquê os interlocutores säo
capazes de estabelecer relaçöes de motivaçäo, de intençäo e de objectivo para
as sequências da acçäo discursiva. A manipulaçäo dos discursos, em produçäo ou
em compreensäo, depende da faculdade, no interlocutor, de instaurar ou de
descobrir as configuraçöes cognitivas "subjectivas" . O último tipo
de contexto que aqui apresentamos, é o contexto situacional ou socio-cultural
(como conjunto de determinantes sociais e sociológicos). Trata-se aqui do
quadro social ou sociológico (hospital, aula, tribunal) ou as circunstâncias da
vida quotidiana (restaurante, conversa informal, etc) que determinam as rotinas
intelectuais e a distribuiçäo de papéis que os participantes têm no
interdiscurso. Näo se pode esquecer, por exemplo, que as hierarquias sociais e,
acima de tudo, a autoridade do enunciador têm uma grande importância
contextualizante se se quiser compreender o sentido de um fragmento de
discurso. Neste domínio, os registos estilísticos e as operaçöes retóricas
dependem das forças contextualizantes (discurso polido, formal ou informal).O
conjunto dos tipos de contextualizaçöes - conjunto fluido e movediço -
determinam o sentido dos fragmentos de discurso segundo o seu enraizamento no
contexto gerador. A subjectivaçäo e a contextualizaçäo säo procedimentos
complementares que marcam a especificidade semântica do discurso, e estes säo
procedimentos que demarcam a noçäo de discurso relativamente à de fala e de
lingua.
A Análise do Discurso, que näo se pode de modo nenhum
identificar com a pragmática enquanto tal, apresenta-se sob múltiplas formas.
Toda a taxionomia é insatisfatória uma vez que as "especialidades" em
matéria de análise do discurso säo necessariamente reduccionistas. Segundo
Charaudeau, podem distinguir-se quatro ordens de organizaçäo do discurso: a
ordem enunciativa, a ordem argumentativa, a ordem narrativa e a ordem retórica.
Todas estas ordens dependem da "competência semiolinguistica". Tudo
depende do facto de se fazer funcionar como maximalizante analitico um modelo
"profundo" (como em semiótica greimasiana) ou um modelo de
"superfície" (como em filosofia nalítica
"post-Wittgenstein"). Em todo o caso, as quatro ordens propostas por
Charaudeau näo säo exclusivas e estäo mesmo encaixadas/encalhadas. É preciso
concluir que esta taxionomia que muitas disciplinas ou especialidades
heterogéneas têm todas uma palavra a dizer no domínio da análise do discurso: a
"linguistica da enunciaçäo", a teoria da argumentaçäo, a gramática
semio-narrativa de tipo greimasiano, a retórica (antiga e nova). Mas a série de
sub-disciplinas näo pára aqui. É preciso juntar a esta lista: a teoria dos
actos de linguagem na linha de Austin e Searle, a "logica
conversacional" (de Grice), a análise do discurso na sua acepçäo mais
restrita e mais técnica (Halliday próximo da sociolinguistica) e igualmente a
dita "análise converscional" de que se encontra a origem em Goffman,
o etnometodólogo americano. Estas abordagens oferecem teorias parciais (que se
constituem frequentemente em filosofias da linguagem) e resultados empíricos
fragmentários (muitas vezes fechados no interior de uma só metodologia) - têm no entanto um futuro certo e
filosoficamente significativo.
Hermann Parret.
Encyclopédie Philosophique Universelle
"Les Notions Philosophiques" - Dictionnaire, vol 1
pág. 665 a 668
Paris, PUF, 1990