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Capítulo
II Rastreio
e problematização do património, experiência
patrimonial e imaginário simbólico
; 1. Introdução 2. Possibilidades de construção de uma cartografia das enunciações envolvendo o património e suas "formas de expressão"; 2.1.1 Génese etimológica e percursos da expressão património; 2.1.2 A noção de propriedade; vizinhanças;
3. As definições de "património", começando pelas mais estabilizadas; 3.1 A urgência de problematizar a questão patrimonial — modos de questionamento; 3.2 A produção do juízo como primeiro elemento questionável;
4. Sobre o inventário, as modalidades e campos de inventariação; 4.1 Casos concretos de experiências diferentes: os patrimónios da Igreja Espanhola e Portuguesa; 5. Experiência patrimonial — imaginário e objectos simbólicos; 5.1 O Imaginário Simbólico; 5.2 A Dinâmica Simbólica na estática geral — funções de estabilização;
6.
Conclusão;
1.
IntroduçãoErro!
Marcador não definido. Após a caracterização da generalidade
dos problemas metodológicos de produção e de leitura que este trabalho
encontra[i]
passamos, neste capítulo, a uma fase mais
específica que tenta abrir, por duas vias essenciais, o caminho para a análise
e abordagens possíveis à experiência patrimonial. Assim: — Uma primeira via tenta detectar os
modos possíveis de problematização do património, o mesmo é dizer, os
modos de questionamento e definição
do que aqui se busca — a experiência patrimonial. — Uma segunda via trabalha a detecção
e caracterização do modo como o simbólico se funcionaliza socialmente,
e até que ponto se constitui como imaginário totalizante. São observadas
algumas manifestações exemplares pelo modo como operacionalizam
a sua acção sob o vector do mais alto rendimento simbólico. No espaço
de um imaginário simbólico cada vez mais reificado é dada especial atenção
ao tecido institucional, em particular no seu modo de segmentar e
aparelhar campos simbólicos em determinados contextos. 2.
Possibilidades de construção de uma cartografia das enunciações
envolvendo o património e suas
"formas de expressão"Erro!
Marcador não definido.; "Pour que s'accomplisse le lent travail d'émancipation à l'égard des traditions, il faut que le passé devienne notre passé.: c'est uniquement au prix de cette appropriation qu'il peut cesser d'apparaître comme une détermination par essence hostile à la revendication démocratique de la liberté." "La question de l'éthique", Homo Aestheticus, Ferry, Luc, ed. Grasset, Paris, 1990, p.344. Assumindo o património enquanto experiência
global que atravessa outros
campos é necessário, de início, ter em conta os domínios da sua expressão;
o modo como estes se estratificam e modalizam a vários níveis,
podendo começar pelo da língua ao nível da frase. O discurso que se assim
se constitui, pode ser analisado enquanto re-presentativo — presença feita
discurso — do real e do simbólico que pretendemos abordar. De algum modo, pensar o património
pode eventualmente parecer absurdo
num contexto onde este se encontra ainda por definir, onde a sua observação
no seio das práticas quotidianas emerge, essencialmente, por entre esquemas
de valoração simbólica adentro dos diversos campos que cruza. O problema
passa igualmente pelas diversas formas de apropriação do passado, de que
fala Ferry na citação acima, que deve orientar a reflexão acerca da sua
capacidade determinista, acerca dos contextos motores da apropriação, acerca
das diversas formas sofisticadas, simples, fetichistas, mercantilistas, que
revestem as práticas mais globais em que se inserem. É na observação transversal de
diversas abordagens — da económica à estética, passando pela histórica,
acabando por se plasmarem todas na grande e menos nítida abordagem em termos
de "cultura" — que se observa a dispersão
que a contemporaneidade sente como força atomizante e, ao mesmo tempo,
geradora de contra-forças integradoras, das quais suspeitamos ser o património
um dos seus vectores. Esta dispersão começa por ser manifesta na pluralidade
de formas e sentidos que assume a expressão património
na contemporaneidade, variando de sentido conforme o contexto, mesmo ao nível
da morfologia da língua. Aceitando as modalizações de sentido e
as formas de representação que o património assume, variando com o contexto
que o enuncia e constitui, pode entender-se a dificuldade do seu
questionamento. Por um lado, a Modernidade cindiu o mundo material e o dos
conhecimentos em fatias pouco comunicantes, em saberes quasi-autónomos e
aparentemente fechados, suportados por sistemas abstractos de referência
entre os quais, por exemplo, Anthony Giddens destaca os sistemas de
"garantias simbólicas" e os "sistemas
periciais"[ii].
Estes saberes estão
"distribuídos" por esses espaços que pouco se tocam/se-deixam-tocar.
Em termos de rigor, e neste contexto, assim se justifica que a expressão
"património" só faça sentido
quando se refere a uma área patrimonial específica que seja
referenciada como, por exemplo, o património paisagístico, o arquitectónico,
o linguístico, etc.[iii]
Mas, por outro lado, especialmente quando se observam relações de poder e de
troca, a Modernidade apresenta em
paralelo, uma lógica económica de contaminação e conversão, característica
do capitalismo, que faz com que tudo possa vir a equivaler-se. É este
paralelismo, passível de ser observado também ao nível da expressão, que
complexifica e torna qualquer definição mais difícil. Por isto, as mesmas
regras que nos levam a definir com precisão a área patrimonial a que nos
referimos em qualquer enunciado, obrigam-nos igualmente a precisar ou ter
muito cuidado no emprego de certas expressões. Embora correntes no discurso
do senso comum[iv],
no discurso político ou mesmo no dos media,
neste contexto de precisão estas expressões perdem todo o sentido,
como por exemplo, "o património" por si só ou, o "património
cultural", ou "o património institucional...". Estas formas de expressão
ocorrem em áreas e sobre suportes propícios à contaminação
valorativa e ao exorbitar do espaço que as contém. É neste caldo (do simbólico)
que ocorrem fusões valorizantes por entre a fertilidade ambígua das expressões,
que só com o tempo se acabam por cristalizar em objectos ou imagens que as
representam. 2.1.1
Génese etimológica e percursos da expressão património
Erro! Marcador
não definido.
; Sendo uma expressão antiga, percebe-se
que tenha vindo pela história a assumir sentidos diferentes no tempo, para lá
da complexidade de matizes que hoje congrega, e de que é também alvo este
estudo. Patrimonium, o termo romano,
dizia respeito à legitimidade familiar envolvida na herança, em particular
sobre os seus direitos de propriedade/posse. A expressão define, na origem, a
relação particular entre o grupo, juridicamente definido, e os bens
materiais concretos que se agrupam sob o nome de património.
De certo modo, a relação primordial é sempre uma relação de posse,
concretizada na propriedade de objectos materiais e imateriais, que hoje mais
se actualiza no que essa relação tem de simbólico e transcendente. Esta
nova dimensão do termo não tem mais de duzentos anos e, só recentemente se
difundiu, até em termos semânticos, por todo o tipo de campos que dela se
apropriaram — património cultural, património ecológico, património genético,
— de uma maneira que André
Chastel apelida uma "métaphore saisissante", que se expande
assumindo um valor afectivo "plus marquée pour désigner certaines
conditions fondamentales de l'existence nationale, voire de l'existence
humaine. Cette évolution ne fait peut-être que traduire le trouble de la
conscience collective face à des menaces, plus ou moins précises et plus ou
moins obscures, pour son intégrité."[v] O facto é que a origem da expressão que
hoje se veicula se formou em França no seio de circunstâncias bem dramáticas
pós-revolução. Todo o tipo de degradação e profanações iconoclastas de
grupos de gente animada de furor libertário, vieram dar origem ao emprego,
pela primeira vez, da expressão vandalismo, pelo abade Gregório, que denunciava como
contra-revolucionários tais atentados contra a integridade do património.[vi]
É assim que o sentido da expressão que envolve os bens fundamentais inalienáveis
da comunidade, se estende às obras de arte, tanto pelos valores tradicionais
que estas transportam, como e especialmente por esta nova ideia de bem comum,
de riqueza moral e aglutinante de toda a nação. Já o modo como a expressão evoluíu nos
países anglo-saxónicos, a partir de Inglaterra, denuncia uma diferença
genealógica, especialmente relacionada com a especificidade dos problemas e
práticas específicas dos ingleses relativamente àquilo que normalmente
designam por Heritage[vii].
A verdade é que, relativamente à deslocação etimológica da expressão,
estamos em Portugal afectos à esfera francófona, até mesmo nas
terminologias, apesar de, por vezes nos depararmos com alguns cruzamentos
(raros), em especial aqueles que nos chegam do Brasil, na assimilação das
expressões americanas aportuguesadas, e depois transpostas para Portugal pela
força dos media. Que matérias são afinal abarcadas e
geridas por esta forma de expressão — "património" —
admitindo-se que a sua produção é resultante de uma determinada experiência?
Se entendermos a experiência como a síntese de vontades, actos, sensações
e relações envolvendo sujeitos, objectos, media
e campos de acção, até que ponto esta expressão resultante e
re-presentante, não de uma mas de experiências diversas, con-funde no seu
emprego e enunciação, experiências de características muito diversas e por
vezes, até inconciliáveis? A resposta a estas questões é um ponto
de referência que não iremos abandonar ao longo de todo o trabalho. Embora
esta inquietude passe essencialmente pelo campo simbólico em geral e pelo da
linguagem, em particular, esta demanda de sentidos e formas da sua criação e
gestão é para nós suficientemente importante para se manter activa durante
todos os capítulos deste trabalho. A linguagem é, afinal, o ente de mediação
revelador dos índices guia da nossa exploração e reflexão; uma referência
por opção reflectida mas que nem por isso deixamos que abafe a respiração
às ideias, conceitos e observações localizadas que se possam sentir menos
à vontade frente ao espelho meta-discursivo que o tratamento morfo-linguístico
pode implicar. 2.1.2
A noção de propriedade —
vizinhançasErro!
Marcador não definido.; Pela relação etimológica que a expressão
património mantém ainda com propriedade,
será interessante observarmos alguns cruzamentos e invasões semânticas que
se registam entre ambas as expressões. Ao contrário da expressão património,
propriedade não evidencia grandes mudanças com o decorrer do
tempo. O substantivo propriedade
deriva do adjectivo latino proprius,
e significa "que é de um indivíduo específico ou de um objecto específico,
sendo apenas seu, típico de."[viii]
Este objecto que pertence a alguém de modo exclusivo deve ser percebido na
amplitude do conceito de propriedade, englobando a posse,
implicando o poder sobre a coisa, independentemente da legitimidade de o
fazer, e a propriedade, inscrita no
direito de possuir a coisa. Daqui que a propriedade se defina como a relação
estabelecida entre o sujeito "A" e o objecto "X" quando A
dispõe livremente de X, e essa faculdade lhe é socialmente reconhecida como
exclusiva. O aspecto essencial da relação passa por essa exclusividade
reconhecida de A dispôr e decidir relativamente a X. Uma exclusividade
fundamentada precisamente na exclusão
de potenciais candidatos ao usofruto do objecto. Esta é, com algum rigôr, a
definição de propriedade privada conhecida no Ocidente. Mas o que nos
interessa é a propriedade pública, que afinal mais não é que a propriedade
privada tornada colectiva — propriedade privada da colectividade —
igualmente assente em alguma exclusão. Percebe-se aqui como esta noção se
aproxima da de património, na sua
constituição identitária de propriedade
do que é próprio/típico. Na propriedade pública, o sujeito da
relação pode ser o Universo Y1 ou o sistema social no seu conjunto,
conceptualmente diferente da soma dos sujeitos singulares que o compõem.
Dentro deste universo, todo o sujeito singular está, como tal e em rigôr,
excluído da relação[ix].
Portanto, o objecto de propriedade pública, só se pode constituir como
objecto de propriedade privada de um sujeito colectivo, excluído qualquer
sujeito individual. Por outro lado, o universo Y1, contrapõe-se a outros
universos Y (Y2,Y3,Y4...) relativamente aos quais se mantém válido o princípio
de exclusão.[x]
De qualquer modo, os termos privado e público não
atingem a precisão aqui necessária e a sua relatividade exige que se
especifique o universo a que se faz referência: por exemplo,
privado-individual, privado-grupo, público-colectividade, público-Estado,
etc. Uma precisão necessária devido à conotação/contaminação acima
referida e que pode paralisar a análise e a problematização do campo, se não
tiver em conta a genealogia arqueológica da constituição das expressões. Nesta relação de propriedade,
identifica-se ainda uma relação de poder, no modo como o proprietário é
passível do exercício das suas capacidades exclusivas de imposição da sua
vontade[xi].
Novamente aqui se descortinam contaminações semânticas no modo como o
património, entre outras funções sociais, se constitui como fonte de poder
do seu proprietário. Uma fonte de poder que se cruza com sentidos modernos e
antigos, já que a História nos mostra nas civilizações mais antigas do
"crescente fértil" (Egipto, Síria, Mesopotâmia) uma forma de
propriedade colectiva em que a terra pertence ao grupo social no seu todo, e
em que a propriedade privada é reservada apenas aos utensílios que o homem
fabrica por si mesmo. Mais para trás ainda, no homem primitivo, é mesmo possível
encontrar um vínculo místico entre pessoa e objecto[xii].
Enquanto parte integrante do grupo social
e de cada indivíduo, a Propriedade é algo
sagrado; isto explica a lentidão com que, no mundo antigo, se chega à plena
reificação da coisa possuída e, paralelamente, à formulação mais próxima
da contemporânea, do direito de propriedade. "O aperfeiçoamento da
instituição da propriedade privada individual acompanha geralmente o
progresso civil dos povos antigos e a transição irreversível da comunidade
política de tipo gentílico à comunidade política territorial: o Estado
tende a privilegiar juridicamente os indivíduos singulares, em desvantagem
dos grupos gentílicos. Ao mesmo tempo, dá origem a formas ingentes de propriedade pública."[xiii] Acreditamos ser possível sondar e
reconstituir a estrutura de relações que no tempo se foi conglomerando e
entretecendo para vir a produzir hoje o quotidiano e a polarização de relações
entre sujeitos, objectos e instituições que nos governam. O modo como evolui
a dinâmica destas relações, pode ser determinado, por exemplo, pelos
diferentes modos de constituição e defesa da propriedade pública, desde a
Modernidade até aos dias de hoje. Para tal, é necessário ir além do
indagar sobre as formas de enunciação que aqui iniciámos, pois acreditamos
que a construção do seu sentido se produz essencialmente no tempo, a partir
de práticas sociais e institucionais que é necessário observar e analisar.
Começamos por reunir algumas definições estabilizadas de património,
e ver que sentidos delas se depreendem, que práticas postulam, e qual o nível
de concordância entre estas definições. 3.
As definições de "património",
começando pelas mais estabilizadasErro!
Marcador não definido.; Para trabalharmos por sobre o património,
pelo menos enquanto experiência estabilizada, dentro e nas periferias do
campo, é necessário que o consigamos observar; pelo menos na sua
operacionalidade experiencial e conceptual. Como tanto as experiências
estabilizadas (do património) como os objectos (na sua fisicalidade) enquanto agentes
de mediação dessas experiências, não são apresentáveis neste texto, mas
apenas representáveis, seria conveniente iniciarmos este capítulo pelas
representações mais estabilizadas daquilo sobre o que queremos trabalhar. De
todas as representações, seleccionamos as mais definitórias e globais, como
o são as dos organismos internacionais de defesa do património — UNESCO
— e respectivas cartas, assim como as dos especialistas e teóricos da área/campo
que mais se debruçaram, teorizaram sobre o assunto. Assim, reunimos a seguir alguns extractos
definidores — no que se podem entender como as definições mais
estabilizadas — da noção de Património.
Estas vão dos textos normativos às definições mais teóricas, e são
reunidas de modo a, num breve relance, deixar encontrar concordâncias e
contrastes, assim como e especialmente, permitir problematizar o património
assim definido. Podemos sempre assinalar a limitação
deste corpus, mas acreditamos ser
representativo das diversas abordagens e olhares que cruzam o campo do património,
nas suas diversas formas de manifestação.[xiv]
Isto acontece porque concluímos apenas nestas manifestações definitórias
ser possível encontrar a síntese das representações
daquilo que tentamos questionar. 1. Convenção
de Haia — Protecção dos bens culturais em caso de conflito armado
— UNESCO, 14 de Maio de 1954- Artigo primeiro. Definição de bens
culturais Para a presente Convenção, são
considerados como bens culturais, seja qual for a sua origem ou propriedade: a) Os bens, móveis ou imóveis, que
representem uma grande importância para o património cultural dos povos,
tais como os monumentos de arquitectura, arte ou história, religiosos ou
laicos, os sítios arqueológicos, os conjuntos de construções, que enquanto
tais apresentem um interesse histórico ou artístico, as obras de arte, os
manuscritos, livros e outros objectos de interesse artístico, histórico ou
arqueológico assim como as colecções científicas e as colecções
importantes de livros, de arquivos ou de reproduções de bens acima
definidos; b) Os edifícios cujo destino principal e
efectivo seja o de conservar ou expôr os bens culturais móveis definidos em
a) tais como os museus, as grandes bibliotecas, os depósitos arquivisticos,
assim como os refúgios destinados a abrigar, em caso de conflito armado, os
bens culturais móveis definidos em a); c) Os centros que compreendem um número
considerável de bens culturais que são definidos nas alíneas a) e b), ditos
"centros monumentais". 2. Carta
de Veneza Conservação e restauro dos monumentos e
dos sítios - 31 de Maio de 1964 (...)Definições Artigo primeiro A noção de monumento histórico
compreende a criação arquitectónica isolada assim como o sítio urbano ou
rural que é portador do testemunho de uma civilização particular, de uma
evolução significativa ou de um acontecimento histórico. A noção
estende-se não apenas às grandes criações mas também às obras modestas
que adquiriram com o tempo uma significação cultural. (...) Artigo terceiro A conservação e o restauro dos
monumentos visa salvaguardar tanto a obra de arte como o testemunho histórico. 3. Convenção
do Património Mundial, Carta de Paris, 1972 Após uma série de considerandos
definidores das ameaças aos patrimónios cultural e natural do globo, a carta
inicia-se com o artigo primeiro, definição do "património
cultural": "- os monumentos: obras arquitectónicas, de escultura ou pintura
monumentais, elementos ou estruturas de carácter arqueológico, inscrições,
grutas e grupos de elementos que tenham um valor
universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência,
- os conjuntos: grupos de construções isoladas ou reunidas, que pela
sua arquitectura, pela sua unidade, ou pela sua integração na paisagem,
tenham um valor universal excepcional
do ponto de vista da história, da arte
ou da ciência, - os sítios: obras do homem ou obras conjugadas do homem e da natureza,
assim como as zonas que compreendem os lugares arqueológicos e que tenham um
valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico
ou antropológico." Artigo
2 Para os fins da presente Convenção, são
considerados como "património natural": - os monumentos naturais constituídos
por formações físicas e biológicas ou pelos grupos de tais formações que
tenham um valor universal excepcional do ponto de vista estético ou científico,
- as formações geológicas ou fisiográficas
e as zonas estritamente delimitadas constituindo o habitat de espécies
animais ou vegetais ameaçadas, que tenham um valor universal excepcional do
ponto de vista da ciência ou da conservação, - os sítios naturais ou as zonas
naturais estritamente delimitadas, que tenham um valor universal excepcional
do ponto de vista da ciência, da conservação ou da beleza
natural."(...) 4. Lei
nº13/85 do Património Cultural Português; Princípios fundamentais Artigo 1º O património cultural português é
constituído por todos os bens
materiais e imateriais que, pelo seu reconhecido
valor próprio devam ser considerados como de interesse relevante para a
permanência e identidade da cultura portuguesa através do tempo. Artigo 2º 1. É direito e dever de todos os cidadãos,
preservar, defender e valorizar o
património cultural. 2. Constitui obrigação do Estado e
demais entidades públicas promover a salvaguarda e valorização do património
cultural do povo português. (...) I.
O Significado da Classificação - Por que se classificam os bens culturais imóveis?,
Doc. 1 Normas e recomendações do IPPAR "A classificação de um bem imóvel
visa distingui-lo pelo seu valor histórico,
cultural ou estético,
e garantir a sua conservação ou fruição
pela comunidade, conferindo-lhe uma protecção legal e um estatuto
privilegiado. (...) As decisões de classificar os bens imóveis são sempre
fundamentadas em critérios de autenticidade,
qualidade e originalidade, ou também no facto desses bens constituirem testemunhos
documentais de natureza histórica, arquitectónica, arqueológica, artística,
científica, técnica ou social."[xv]
5. A
Noção de Património "...Au sens où on l'entand
aujourd'hui dans l'usage courant — sans parler des discours officiels
— il s'agit d'une notion globale, vague et envahissante à la fois, dont
l'apparition date de deux siècles à peine; (...) il est question tous les
jours dans les discussions de notre époque du «patrimoine culturel» qui
embrasserait légendes, mémoires, la langue même; du patrimoine «écologique»
qui concerne les particularités attachantes, sensibles, vitales, de la nature;
les dernières années ont même vu apparaître la métaphore saisissante du
patrimoine «génétique»...En s'élargissant, la notion prend une valeur
affective plus marquée pour désigner certaines conditions fondamentales de
l'existance nationale, voire de l'existence humaine."[xvi] 6. Património
Histórico "L'expression désigne un fonds
destiné à la jouissance d'une communauté élargie aux dimensions planétaires
et constitué par l'accumulation continue d'une diversité d'objets que
rassemble leur commune appartenance au passé: oeuvres et chefs-d'oeuvre des
beaux-arts et des arts appliqués, travaux et produits de tous les savoirs et
savoir-faire des humains. Dans notre société errante, que ne cessent de
transformer la mouvance et l'ubiquité de son présent, «patrimoine
historique» est devenu un des maîtres mots de la tribu médiatique. Il
renvoie à une institution et à une mentalité.
Le paradoxe du transfert sémantique subi par le mot signale
l'intrication et l'opacité de la chose.(...) Le culte rendu aujourd'hui au
patrimoine historique appelle donc mieux que l'habituel constat de
satisfaction. Il est le révélateur néglogé et néanmoins éclatant, d'un
état de société et des questions qui l'habitent."[xvii] 7. Documento/monumento "O monumento tem como características
o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das
sociedades históricas (é um legado à memória colectiva) e o reenviar a
testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos. (...) Já
não se trata de fazer uma selecção de monumentos, mas sim de considerar os
documentos como monumentos, ou seja, colocá-los em série, e tratá-los de
modo quantitativo; e, para além disso, inseri-los nos conjuntos formados por
outros monumentos: os vestígios da cultura material, os objectos de colecção,
os tipos de habitação, a paisagem, os fósseis e, em particular, os restos
ósseos dos animais e dos homens.(...)"[xviii] *
Riegl... e fazer análise. Erlebnis, cumulatividade das experiências
vividas corporificadas no objecto, aura, autenticidade e virtualidades. Observação
sintética Dos pontos 1 ao 3, observa-se uma
progressão. Esta inicia-se com a definição concreta de bens culturais, património
cultural, centros monumentais,
essencialmente através da referência ao género de objectos que os
constituem: "os bens móveis e imóveis de importância...". A
progressão chega à carta de Paris (1972) já mais preocupada com a definição
do próprio conceito de património
cultural. A definição é de novo feita com base na evocação do género
de objectos em causa e na sua relação com "um valor excepcional do
ponto de vista da história, da arte ou da ciência". Isto pressupõe uma
indexação do valor aos campos científicos, em última análise, fora do próprio
campo do património. A lei portuguesa, influenciada pelas
convenções anteriores, expande a sua abrangência e cobertura a um território
de tal maneira vasto que, potencialmente, tudo pode abarcar — "os bens
materiais e imateriais que, pelo seu reconhecido
valor próprio"... — é de uma extensividade que torna a lei quase
inaplicável *(ref. análise legal-direito cap.3).
Além disto, o "reconhecido valor próprio" pressupõe uma
imanência do valor no objecto, extremamente difícil de tratar, até
legalmente. No artigo 2º constitui-se legalmente um campo ético de acção
relativamente ao património, de abrangência à totalidade dos cidadãos. Por outro lado, a partir das definições
do documento do IPPAR, representando a face legal estabilizada da concepção
institucional do Património, é possível destacar alguns pontos fulcrais: — A finalidade
que se destaca como fundamento de toda a acção legal e de protecção, é a
"conservação e fruição pela comunidade". Fica também latente
que é o facto de esses bens constituirem um "testemunho"
(documental) o que lhes outorga capacidade para se candidatarem a serem
classificados e protegidos. Não é novidade que a concepção linear que
enforma esta vontade de preservação, desce aqui a uma forma de legitimação
pela comunidade e seu bem-estar. O que é novo é o facto de começarem aqui a
emergir formas de objectivização/materialização de imaginários sempre
valorizados (o "valor histórico e o estético", por exemplo) mas
nunca antes tão necessitados de corporificação objectiva. O
"testemunho" tem que ser "passado" às gerações
seguintes e é a tábua de salvação da identidade em extinção. O
"testemunho" não só é corporificado no objecto patrimonial (móvel
ou imóvel), como são igualmente corporificadas todas as atenções e vivências
que nele se acumularam[xix]
em tempos passados e só a sua resistência corpórea (superior à do corpo
humano) permitiu fazer chegar ao presente. Esta perspectiva pode ser emulada
pela da nave que, mesmo destroçada, pelo facto de chegar a bom porto (o
presente), deve ser preservada como testemunho do esforço e vivências que a
trouxeram. Por esta via, é a morte que opera a necessidade do depósito
investido no objecto. A efemeridade corpórea da vida do sujeito não pode
rivalizar com a perenidade do objecto valorizado pela intervenção e
"vivência com"; a menos que seja mumificado e tornado objecto.[xx] Relativamente aos pontos 5.
a 7., reflectete-se neles uma abordagem mais distanciada mas, ainda
assim, restrita ao registo sintético-conceptual do que se pode entender por património,
nos campos mais próximos aos autores: — o carácter comunitário de onde se
descola o valor inerente à noção; o carácter global de que a noção se
investe; a hiper-extensividade da noção a tudo o que queira abranger; as próprias
ambiguidades inerentes ao seu emprego em vários campos, alguns em conflito; a
cobertura de monumentalidade/valor que os define como patrimoniais, etc. Após esta breve observação do modo
como o património se representa, se manifesta na sua forma mais estabilizada,
podemos concluir que: a) Pela morfologia das lógicas pelas
quais evoluem estas definições é possível observar o cronos Moderno em que emergem as preocupações com a "perduração"
e os padrões de entendimento da
experiência que lhe servem de suporte. Estes padrões passam por uma radical
autonomização das diferentes dimensões da experiência, o que pressupõe uma
experiência fragmentada em esferas e campos autónomos; uma concepção
linear do tempo — sucessão cronológica — igualmente cimentada na
Modernidade. Isto pode ser observado, por exemplo, em "...um valor
universal excepcional do ponto de vista da história,
da arte ou da ciência," (3. carta de Paris, 1972), ou "testemunhos
documentais de natureza histórica, arquitectónica, arqueológica, artística,
científica, técnica ou social".(IPPAR, O
significado da Classificação). Por oposição a uma
concepção indivisa e pluridimensional da experiência[xxi],
pelo menos idealmente observada na sua completude, torna-se praticamente
impossível a qualquer uma destas definições atirgir aquilo que se pressupõe
serem os seus objectivos: cobrir na sua totalidade experiencial o objecto que
tentam definir. b) Das diferentes fontes de representação
do património aqui expostas, existe de facto um espaço de sentido comum, em
particular relativamente às razões que se induzem para justificar a preservação;
mas mesmo esse sentido comum evolui,
sensivelmente dos anos trinta até aos dias de hoje, descentrando o eixo da
História — valor histórico e pericial dos objectos — e colocando no seu
lugar o valor do interesse público/comunitário. Este último, um valor mais
indexado ao campo político. c) Dada a morfologia das lógicas pelas
quais evoluem estas definições, observa-se um crescente aumento da extensividade e abrangência definitória, do
tipo — "bens materiais e imateriais..." — que acreditamos ter a
ver com a sua entrada numa esfera muito mais global e mais afecta ao campo político
e às próprias pretensões reprodutivas do campo patrimonial, caracterizadas
por uma lógica operacional bem mais difusa que a esfera científica ou
pericial; d) Comum a todos estes intentos definitórios
é igualmente aquilo sobre o que nos vamos centrar já a seguir: o
facto de nenhuma das exposições se questionar minimamente acerca do perfil
de racionalidade do que estão a tentar definir. Seria de admitir que aqui, para efeitos
de representação, estariam apenas excertos
nucleares e definitórios que, por isso mesmo, não pressuporiam qualquer
argumentação acerca da razoabilidade do que pretendem produzir. Acontece que
a nossa pesquisa dessa defesa da razobilidade definitória se revela bastante
infrutífera. A lei, pela sua própria morfologia, não precisa de se
justificar ou explicar — reenvia a procura dos fundamentos para o legislador
e para o político constitucional. A generalidade dos textos mais periciais
que encontramos, ficam-se pela operação descritiva, reenviando a fundamentação
do que expõem para uma suposta evidência de stato
quo que se limitam a descrever. Por esta razão precisamente, somando-a a
todas as outras, tratamos no ponto a seguir a este, a problematização do património,
da noção de património,
questionando-a de um modo que as
noções adquiridas e estabilizadas da sua experiência a não questionam[xxii].
3.1
A urgência de problematizar a questão patrimonial — modos de
questionamentoErro!
Marcador não definido.;[xxiii] A iniciar esta parte é necessário
tratar a definição do problema
que se nos coloca.[xxiv]
Isto implica o arranque e desenvolvimento da experiência
concreta em que nos envolvemos — a investigação do património, suas
modalidades de constituição, enunciação
e investimento. Antes porém, talvez seja útil indagar como é possível
problematizar esta experiência, e definir melhor aquilo que se poderá
entender como "actos de problematização". No contexto em que nos encontramos,
problematizar é quase sinónimo de questionar[xxv],
antes de tudo, colocar questões articuladas numa matriz teórica que sirva de
suporte ao lugar de onde essas questões se colocam. A "questão"
será aqui uma célula constituinte do problema que se representa já enquanto
entretecimento de questões devidamente articuladas numa direcção, que logo
determina o espaço do problema. A
determinação deste espaço ou localização (topologia)
das questões adentro de um espaço maior, será então feita a partir
da qualificação/colocação dos juízos envolvidos nas próprias questões e
nas respostas possíveis, isto é, no campo de respostas delimitado pela direcção
que a pergunta/questão determina e na qualidade dos juízos aí envolvidos.[xxvi]
De algum modo, trata-se aqui da procura dos modos de constituição dos campos
e dos objectos, no sentido de descortinar as formas de automatização/instituição
dessa constituição. Trata-se de encontrar "aquilo-que-faz-com-que-assim-seja..."
e que boa parte das vezes é opacificado pelos habitus[xxvii]
institucionalizados (não questionantes, inertes em termos de reflexão). Habitus
isentos, pela forma instituinte, da necessidade de serem questionados,
pensados, problematizados.[xxviii]
Se pensarmos em
configurar uma postura para a
abordagem que aqui tentamos desenvolver, esta passa também por uma dúvida
radical relativamente à generalidade das formas conceptualizadas com que
vamos deparando ao longo da investigação. Isto implica o questionamento
permanente do pré-construído depositado na linguagem natural com que
trabalhamos; aquilo que, até certo ponto, poderemos classificar como um
alerta céptico e metódico
indispensável ao solidez da progressão neste terreno.
A necessidade de
questionar o património provém do modo cristalizado como se constitui o seu
núcleo experiêncial que nele mesmo incorpora a sua inquestionabilidade. Uma
vez estabilizadas as formas de experiência que em que se balizam as
fronteiras do campo e seus modos de legitimação, suspeitamos que todo o agir
minimamente indexado ao campo, se cristalize em rituais e formas automatizadas
de acção. Nestas circunstâncias, o melhor que podemos fazer é tentar
mostrar a forma como os diversos agentes que encontramos no campo representam
uma realidade que é suposto ser a mesma, mas que parece variar, dependendo da
perspectiva de onde é observada. Uma vez observada a
vontade constituinte e definitória dos agentes que enquadram o campo, alguns
percursos centrais do vector definitório de experiências que se reclamam do
património, parece surgir como problema fundamental o do juízo específico
que esses agentes operacionalizam. O papel do juízo que eleva a entidade ou
objecto à categoria patrimonial; o modo como o juízo se manifesta ou oculta
sob os véus da evidência e outros. Um juízo que, para lá do monopólio do
uso subscrito a agentes (legítimados pelo) do campo, é suposto estar assente
numa homologia operacional que produz os
mesmos efeitos independentente do género de experiências envolvidas. A um outro nível de enquadramento, deve
ter-se igualmente presente, a noção da racionalidade valorativa que abrange
o juízo investido na experiência, sujeitos e objectos. 3.2
A produção do juízo como primeiro elemento questionávelErro!
Marcador não definido.; Aqui, e porque partimos em primeiro lugar
da observação das práticas estabelecidas e institucionalizadas,[xxix]
emerge precisamente essa prioridade da observação do que se faz, e dos juízos envolvidos no
seu desempenho. Por esta razão, a questão primeira que se coloca, 1.- pergunta acerca da categoria dos juízos
efectuados nos processos de decisão sobre a vida ou morte dos objectos[xxx],
e que os divide, no universo total dos objectos, entre
"patrimoniais" e "não-patrimoniais"; o mesmo é dizer,
entre dignos da perenidade e da conservação e, não dignos; entre a
dignidade de serem catalogados no campo do "valor protegido" (património),
ou não; 2.- A segunda questão indaga acerca das
formas e campos de fundamentação desses juízos. É necessário esclarecer já que, o
centrar nestas duas questões-pivot o cerne da abordagem à experiência
patrimonial se deve ao facto de, a partir destas se desdobrarem uma série de
questões em cascata. Esse desdobramento abre-se num tecido questionante,
sobre o qual reflectimos permanentemente, mas que nos reenvia para a
centralidade das questões acima enunciadas. É portanto a partir daqui que
nos parece sensato sondar o terreno em que nos deslocamos, tendo estes pontos
como referência. A primeira questão envolve antes de
tudo, a possibilidade de, a partir do processo de inventariação das formas
de investimento e acção sobre os objectos, o fazer emergir com maior ou
menor nitidez os contornos do campo simbólico que procuramos. Aqui se devem
descortinar as formações discursivas[xxxi]
e seus campos de acção e investimento; as regularidades da acção sobre
todo o tipo de objectos patrimonializáveis; enfim, se possível, levantar uma
axiomática centrada no objecto simbólico, de modo a recortar na generalidade
das características do objecto patrimonial, as que melhor se rentabilizam
para que pragmaticamente justifiquem o investimento levado a efeito no
objecto. Uma consequência das acções envolvidas
no campo que a primeira questão abarca é a de que os "objectos
patrimoniais", "classificados", salvos da sua condição efémera,
são inseridos numa grelha de valoração que os distingue e lhes dá sentido
de destaque e perenidade relativamente a todos os outros; uma categoria de
"valor protegido". Trata-se,
portanto, também aqui: a) de inventariar as diversas formas e modos como são distribuídos e
investidos valores e sentido em determinados objectos e não outros; b) trata-se de observar, particularmente, a morfologia
que adquire a dinâmica de investimento
e valoração dos objectos em consequência dos juízos sobre estes
exercidos. c) trata-se de encontrar, caso tal seja observável, a tipologia dos agentes, instâncias de agenciamento, mais
directamente implicadas neste género de investimento valorativo; d) trata-se ainda de, na generalidade
destas observações, detectar formas e
processos de opacidade e opacificação de estados e acções que não
correspondam, do nosso ponto de vista, à transparência estatutária que
delas se exige. Partindo do princípio de que é possível
desmontar a generalidade dos juízos investidos nas formas de valoração ou
depreciação que ocorrem sobre os objectos, cabe-nos aqui tentar
conceptualizar melhor estas operações.
Podemos dizer que é uma operação
de conversão o que acontece em simultâneo ao que chamamos investimento[xxxii],
de cada vez que um objecto comum é classificado e valorizado como
"património". A lógica base desta valoração/conversão assenta
na integração-constituição do objecto enquanto elemento de uma colecção.
Objecto e colecção que se enriquessem mutuamente; o objecto porque entra
numa textura de relações de contiguidade anteriormente constituída e já
valorizada; a colecção porque, com a integração do novo elemento, se
enriquece na sua extensão e peso estatutário na lógica serial que a põe
frente às outras colecções e objectos isolados. À frente *
poderemos ver, mais en concreto, a centralidade, para o entendimento do
património, destas operações
de conversão. Importa, para já, destacar a articulação que se estabelece
entre a classificação-inventariação-colecção e a valoração, com o juízo,
acima referido, por mediador. Importa
igualmente chamar a atenção para a hipótese
de "automatização" destas operações que, uma vez dinamizadas
num determinado espaço, poderão
aumentar a sua dinâmica ou manter o movimento "conversor" por
simples inércia, convertento automaticamente tudo o que seja introduzido no
campo. A introdução dos objectos na colecção,
no campo protegido, inicia-se com o
inventário. Esta operação "patrimonializante"
inicial, no contexto em que vivemos, é já uma conversão virtual do objecto
às suas novas funções. Mesmo que remoto e intangível, o objecto
inventariado, constando no inventário como fazendo parte da colecção,
adquire logo um estatuto diferente que lhe é consignado pela força indexical
do documento/acção de inventariação. 4.
Sobre o inventário, as modalidades e campos de inventariação
Erro! Marcador não definido.
Em termos expressivos, o "inventário"
está já razoavelmente conceptualizado. Achamos que a referência aqui a esta
expressão-conceito é imprescindível, porque, tal como outros
conceitos-chave, como por exemplo "acesso", "mediação"
ou "conversão" neste trabalho, o "inventário" no campo
do património é, operacionalmente, um dos actos, conglomerado de acções pivot
nos diversos processos de constituição deste campo. É igualmente uma das
formas institucionalizadas (i.e. "automatizadas") de conversão das
entidades e objectos abrangidos. Se buscarmos origens, de cuzamento semântico,
mais objectivas e básicas desta expressão, encontramo-las no processo de
arrolamento — o arrolar de bens — que por qualquer decisão jurídica ou
testamentária, pode envolver a inventariação do património de alguém, com
um determinado objectivo. O inventário que se pode estender ao
espaço regional ou nacional não é, basicamente, muito diferente do
"arrolamento"; difere por complexidade, uma vez que os
inventariadores são portadores de uma pré-classificação dos objectos e
bens a inventariar onde se devem integrar todos os que possam ser encontrados.
Neste inventário acontece uma maior pormenorização da descrição das
características específicas dos bens e objectos ao ponto de, para este
trabalho ser requerido o contributo de especialistas para a descrição dos
devidos objectos. Este é, sem dúvida, um acto ainda muito ligado à noção
de propriedade que legitima a relação do individuo com o objecto e abre ao
primeiro a total disponibilidade em relação ao segundo. O inventário, organizando o trabalho de
cobertura e registo total dos bens e da propriedade, é hoje o significante
que melhor suporta e sustenta a ratio
patrimonial enquanto primeiro trabalho que legitima a
cultura-ideologia-imaginário patrimonializante. Se fizermos um trabalho
arqueológico minimamente satisfatório, acabamos por encontrar a figura d'o inventário
entre as disversas figuras que a experiência na Modernidade constitui para
compensar a perda de autoridade da tradição e das fundamentações herdadas.
Esta compensação emerge no momento em que o universo do futuro, embora já
condicionado por figuras mestras como "o progresso" ou a ideia de
linearidade do tempo, mesmo assim se abre para uma infinidade de possíveis
que urge "inventariar" a partir do presente."Mas, por outro
lado, toda a acção se centra sobre o que existe concretamente, limitando as
possibilidades e, simultaneamente, suportando o trabalho contra os obstáculos
que isso coloca ao "tudo é possível". Ora, na dinâmica da
Modernidade, isso leva a arrolar todas as possibilidades catalogando-as,
descrevendo-as, congelando-as, etc."[xxxiii] Este trabalho passa pela imposição da
necessidade de cobrir todo o terreno em demanda dos bens esquecidos e a
registar, tal como, por exemplo, o trabalho da "ideologia ecológica"
passa pela globalidade dos estudos de impacto ambiental. As novas tecnologias vieram, por um lado,
ajudar a constituir esta noção totalitária de cobertura do inventário, mas
por outro, complicar a sua racionalidade de imposição — as razões por que
se impõe como indispensável e necessária. Com a actual capacidade de
reprodução total dos objectos, na sua realidade analógica e na sua presença
digital, mesmo que virtual, a presença do objecto original só parece ser
imprescindível no momento da reprodução. Isto não parece, no entanto,
passar pela cabeça da generalidade dos responsáveis pelo património e,
especialmente, porque essa capacidade de reprodução parece, aqui, ainda
muito longe. Só há pouco se tornou medida standard,
nos processos de inventariação, a utilização da fotografia...[xxxiv]
Isto parece dizer algo sobre as virtualidades do nosso real. 4.1
Casos concretos de experiências diferentes: os patrimónios da Igreja
Espanhola e PortuguesaErro!
Marcador não definido. Uma das ilustrações exemplares que aqui
podemos oferecer, relativamente a esta questão, emerge da comparação entre
os modos de tutela do património da Igreja em Espanha e em Portugal[xxxv].
O governo espanhol, por via do seu
monarca, dado as relações entre governo e Igreja não serem as melhores,
solicitou um acordo para a abertura de todo o património da Igreja
espanhola a um trabalho de estudo e inventariação. Este acordo foi
realizado, e o trabalho viria a ser feito por professores e investigadores
universitários, com particular destaque para os departamentos de História da
Arte da Universidade Complutense de Madrid. Por via deste acordo, o património
da Igreja foi ainda disponibilizado para outros estudos especializados e,
ainda, para exposições de tipo museológico. Para o próprio governo, este
acordo foi um sucesso, porque as portas da igreja — mosteiros, conventos,
abadias e outras propriedades com os respectivos recheios, — há séculos
que se mantinham fechadas ao público secular, e quando se falava em termos de
"riqueza da igreja", particularmente "riqueza
patrimonial", ninguém adiantava números ou mesmo descrições mais
pormenorizadas e totais. Independentemente das estratégias políticas
ou da disponibilidade da Igreja espanhola, ficou claro que, o argumento que
mais despoletou o processo desta "abertura de portas" foi a ameaça
que veio a constituir-se com a abertura de livre circulação entre fronteiras
na Europa Comunitária. Este fantasma, bem concreto, que pairou e ainda paira
sobre os países mais ricos em património histórico e, ao mesmo tempo,
pobres em termos de capital financeiro, mercantil ou industrial, veio fazer
com que governos como o espanhol se apressassem em todo o tipo de classificações
e inventários patrimoniais ainda por fazer, de modo a evitar fugas para lá
das fronteiras. Continua aqui a perceber-se a íntima relação entre inventário
e propriedade na ratio que
fundamenta toda a acção. Por sua vez, em Portugal, o que nos foi
dado a apreciar foi um panorama totalmente diferente do espanhol devido,
essencialmente, às diferenças nos modos de tutela da
Igreja. Questionando vários técnicos e responsáveis portugueses com o
exemplo espanhol na mão, o que nos foi reafirmado foi a impossibilidade prática
de um tal acordo em Portugal. É que a Igreja portuguesa, relativamente ao
património, como relativamente a outras questões, funciona com total
autonomia das paróquias. Cada pároco é responsável e administra como muito
bem entende a totalidade dos bens adstritos à sua paróquia. Assim, um inventário
idêntico ao espanhol, sgundo os técnicos do IPPAR,
teria de ser "conquistado palmo-a-palmo", e sem quaisquer
garantias de cobertura total do território. O que nos mostra este relato é que são
duas experiências bem distintas, a portuguesa e a espanhola, em particular no
que se refere ao património eclesiástico. Diferentes formas de administração,
mais e menos centralizadas, produzem aberturas ou bloqueamentos de acesso. No entanto, algo as homologiza. Uma
conseguida e outra não, mas ambas se energizam na vontade da inventariação
total, na constituição do "grande catálogo nacional", e no
potencial usofruto da sua força indexical. Uma vontade que diz: — "é preciso tudo inventariar", dentro de uma lógica que se pode já
considerar ideológica, pelas suas formas de manifestação. O que interessa
ao sujeito/agente movido por esta teleologia específica, não é já uma
finalidade localizada mas um valor absoluto, enquadrado por uma racionalidade
axiológica definida num universo comum apenas aos homólogos desse sujeito
— os que partilham a sua matriz de valores e pensam como ele. A estrutura da
sua racionalidade é polarizada numa exigência posta como incondicional; o
sujeito está ao serviço de uma causa suprema que pode ser de ordem ética,
estética, religiosa, política ou outra. A sua conduta orientada por esse
imperativo, desfoca as consequências da sua acção, e limita os padrões de
lucidez da sua progressão. O carácter absoluto desse valor introduz um
elemento de irracionalidade na sua conduta quando esta é colocada ao lado das
outras condutas supostamente mais racionais e previsíveis. Este exemplo
permitiu-nos assim observar o carácter de racionalidade axiológica, no
sentido em que esta é definida por Weber[xxxvi],
que governa a acção e sub-determinação dos sujeitos envolvidos no campo
patrimonial. Para melhor observarmos outras fontes da
racionalidade que por vezes se excedem no campo patrimonial, precisamos de
entender, na experiência patrimonial, o lugar que ocupam o imaginário e os
objectos simbólicos; o mesmo é dizer, o modo como essa experiência se
organiza segundo a modalidade simbólica com suporte num imaginário constituído
no campo. 5.
Experiência patrimonial — imaginário e objectos simbólicosErro!
Marcador não definido.; Antes de tudo, o objecto simbólico é um
objecto mediador do reconhecimento. É através dele que da separação se
chega ao encontro, e ao encontro do que é comum (ao outro). Trata-se de um
objecto relacional, em que a relação se constitui como eixo pivot do acto em
que ele se envolve. Por esta característica mesmo, e outras dela dependentes,
é que este tema se constitui como central relativamente à questão do património,
e mesmo às questões mais gerais da cultura. Se buscarmos o sentido etimológico
do que se pode entender que é o simbólico,
encontramos essencialmente o objecto partido, cortado (a cesura) em dois, e
cujos portadores conservam cada um sua parte (que se ajustam uma à outra)
como testemunho de um pacto a ser cumprido. Além disto, intervém toda a
funcionalidade misteriosa da palavra que "segura" o crédito e a
dimensão do pacto, ou seja, dos
acreditados na relação. Não é por isso que a expressão perde a sua
heterogeneidade de sentido ou dispersão semântica quando se tenta
"agarrá-la" ao nível do conceptual e das suas propiedades mais
abstractas. É que esta é uma expressão sempre cheia de substância e matéria,
sejam elas de sentido ou de morfologia. É a partir delas que se pode arrancar
para a análise e, por isto, as generalizações são difíceis; não há
substâncias iguais; há, quando muito, contextos de emergência idênticos. Há
um reenvio que termina na reconjunção com as origens. "Sem uma metafísica
do sagrado, do divino, de algo que fale das remotas profundezas não
directamente atingíveis parece difícil definir o símbolo, caracterizado
(...) por uma verdade que está noutro lugar".[xxxvii] O símbolo separa e reúne ao mesmo tempo
e é, por isto, evocador da comunidade que se atomizou em pedaços e quer
recompor-se na unidade, ou pelo menos em unidades contíguas. De algum modo o
sentido simbólico encontra-se nas formas de cesura e reunião específicas ao
objecto que transporta a simbolicidade. "Le symbole n'enserre rien, il
n'explique pas, il renvoie au-delà de lui-même vers un sens encore dans
au-delà, insaisissable, obscurément pressenti, que nul mot de la langue que
nous parlons ne pourrait exprimer de façon satisfaisante".[xxxviii] Para lá disto, o símbolo exige uma
forma de envolvimento e participação que compromete o actor nessa experiência.
Uma experiência em que o símbolo se caracteriza por se manter
permanentemente sugestivo relativamente àquilo que cada sujeito nele pode
encontrar e perceber. Até certo ponto, o mesmo se passa relativamente aos
dispositivos de racionalização da experiência localizada no tempo como, por
exemplo, a análise que fragmenta e pulverisa as formas de percepção,
inviabilizando a captação de outras riquezas. Tudo vai depender das formas
de percepção estabilizadas nessa época. Do modo como essas formas simbólicas
se cristalizam na produção de objectos manipulados pela experiência como sólidos.[xxxix]
Para Gilbert Durand, o símbolo apresenta
três características principais: a) O seu aspecto concreto enquanto
significante — sensível, imaginado, etc; b) A sua especificidade optimizada para
evocar um significado — pelo modo como dá a conhecer, sugere, epifaniza; c) A necessidade que implica de mediação,
por envolver um significado que não se dá a perceber directamente. É preciso aqui encontrar o papel do símbolo
enquanto mediador entre a «presença» e a «re-presença». É enquanto
mediador de sentido que mais nos interessa observá-lo, porque nessa função,
o corpo sensível que é investido de sentido e se oferece à mediação,
geralmente excede esse
investimento; torna-se imprescindível como qualquer medium, porque é o único
que permite a relação com o inefável. Como única possibilidade de revelação,
acaba por se constituir como a epifania de um mistério[xl].
"Uma imagem de valor simbólico é a que contém o que Souriau
chama o «anjo da obra», quer dizer, a que incorpora um conteúdo que a
transcende"[xli].
É nesse estatuto de intermediário, entre o transcendente e o
imanente, que lhe podemos encontrar a "tensão criadora" que suporta
aquela excedência. A "metáfora viva" que se instaura em
vez de, e produz novos sentidos. É igualmente aí, no novo território de
ninguém que produz na excedência — como a erupção vulcânica que estende
a terra com o magma pelo mar adentro — que o símbolo gera a sua
ambiguidade. Contrapõe-se aqui à resolução e definição que caracteriza o
signo. Essa ambiguidade e exclusividade mediadora, levam-no à auto-referência;
passa a valer por si mesmo e pela sua evocação, pela repetição das evocações.
Algo que encontramos no seu poder de ressonância e reverberação da mensagem
que incorpora.[xlii]
Repare-se no potencial atractivo em que
se constitui o símbolo para
qualquer vontade de apropriação. O controlo a que se presta, derivado desse
seu estatuto instrumentalizável e rendível. Neste contexto, a razão e a ciência
limitam-se a vincular os sujeitos com as coisas, mas o que vincula os sujeitos
entre si, passa por estas formas de representação do afectivo e do vivido, a
maior parte das vezes incorporados na imagem (simbólica).[xliii]
Se recortarmos os eixos de articulação destas esferas — como esperamos
melhor observar mais à frente — encontra-se uma lógica holista e fusional
do tipo da religiosa e mítica, frente a uma racionalidade analítica e
segmentarizante, típica da do Iluminismo e da Modernidade. Neste trabalho, a própria intuição por
vezes demora a lá chegar; tem que envolver um trabalho de síntese e simpatia
dentro de uma determinada visão-do-mundo. Esse trabalho de simpatia pode
atingir a especularidade tão
característica do simbólico, tal como Cassirer mostrou na sua Filosofia das Formas Simbólicas, pelo modo como o espírito delas
necessita para nelas se reflectir e materializar.[xliv]
Sendo de reter esta característica especular inerente ao simbólico, os
atributos que mais nos interessam passam por outras zonas do vasto território
do simbólico. Passam pelo que é caracterizado
por Umberto Eco como o modo simbólico que "pressupõe sempre e em todo o caso um
processo de invenção aplicado a um reconhecimento. (...) É um processo
(...) que produz a nível semântico uma nova função sígnica, associando a
expressões já dotadas de conteúdo codificado novas porções de conteúdo,
o mais possível indeterminadas e decididas pelo destinatário. (...) O que
permanece indiscutível é que, por detrás de toda a estratégia do modo simbólico,
existe, para o legitimar, uma teologia, quanto mais não seja a teologia
negativa e secularizada da semiose ilimitada."[xlv] A pluridimensidonalidade e pregnância do
símbolo reflectem-se na generalidade dos objectos que o encarnam. No tempo ou
no espaço, a sua existência depende da dinâmica das suas relações com uma
comunidade de sujeitos que o identificam e, assim, criam a rede que o
sustenta. A experiência que lhe dá acesso é totalizante, tal como a lógica
que priveligia é uma lógica holística, atenta à complementaridade possível
das relações entre sujeitos. É também com base nesta forma de operação
articulada nas relações que emergem nos processos (simbólicos) sociais, que
os interaccionistas simbólicos introduzem todas as suas formas de abordagem.
Para eles o sentido não é imanente ao objecto mas decorrente das relações
sociais entre sujeitos, centrada a observação nas capacidades
interpretativas e construtivas dos actores sociais, em contraposição, por
exemplo, aos funcionalistas. O termo foi introduzido por Blumer em 1937, e
este resume os princípios dessa abordagem deste modo: a) Os seres humanos agem, relativamente
às coisas, com base nos significados que essas coisas têm para eles; b) Estes significados emergem a partir da
interacção social; c) A acção social é resultante do
ajustamento de linhas de acção individuais.[xlvi] Quando o modo simbólico se observa e
estuda nestes termos, começa a ser lícito falar de um imaginário colectivo
que é preciso ter em conta sempre que se aborde uma questão que cruze experiências
investidas da sua forma de operacionalidade. 5.1
O Imaginário SimbólicoErro!
Marcador não definido. O imaginário — de um modo muito lato,
a generalidade dos elementos[xlvii]
configurados a que o sujeito acede por via da memória e da consciência,
independentemente de qualquer presença material concreta, é algo que tem
sido observado na sua perspectiva social, tanto por psicólogos como sociólogos.
Do arquétipo Jungiano,
iminentemente social, às memórias colectivas
de Halbwachs, passando pela imaginação
e imaginário sartrianos, se observa
em todos a constituição, aparelhamento de uma comunidade de sentidos que
solidificam as referências e as identidades. A constituição de um imaginário
social é formada por boa parte dos elementos já referidos na génese e
constituição do símbolo. O primeiro a destacar é a sua capacidade de diluição
das resistências que se deparam ao sujeito e, ao mesmo tempo, a
disponibilidade da força emergente do consenso que ele gera[xlviii].
Por isso, é bom observar também o imaginário na sua perspectiva
teleológica, não como um lugar ou domínio em que aparecem imagens e
objectos, mas como um lugar do "projecto", da propensão para,
independentemente do que seja. Em termos axiológicos, dir-se-ía que o imaginário
joga com várias oposições, eixos semânticos e isotopias que satisfazem
necessidades permanentes no quotidiano dos individuos; elas podem ser o
desejo/não-desejo(indiferença)/indesejo(ódio); o acessível/inacessível, a
esperança/desespero, etc. O imaginário constitui-se aqui na promessa e no
"como se" em que o sujeito se investe na vida social. O imaginário
ajuda a vencer as resistências sendo um modo mais económico de contornar as
contingências, pela segurança que a crença, a promessa, a protecção
contra o desgaste que esta comunidade imaginária oferece, até pelo simples
facto de poder ser invocado, em princípio, quando se quiser. Enquanto factor de mediação, o imaginário
tem igualmente que ser observado na sua função de representação do objecto
que se deixa assimilar e modular pelos imperativos pulsionais do sujeito,
assim como pelos modos de acomodação do sujeito ao contexto objectivo. O
imaginário instala-se no sujeito por uma dinâmica do equilíbrio,
representando-se como tensão de duas forças de coesão, mas com lógicas
antagónicas. O que tentaremos mostrar é precisamente a
dimensão imaginária que atravessa todo o campo do património e que
cristaliza os seus rituais de reverência e valoração na experiência
canonizada pelo campo[xlix].
Uma das críticas constantes que as análises
sociológicas destacam na abordagem à sociedade capitalista, de mercado,
objectualizante, é precisamente o perigo do estrangulamento a que sujeita
qualquer tipo de imaginário emergente, pela sua eventual omnipresença
sufocante; o sujeito é "presente" a tanto objecto e tanta imagem,
tanta alternativa e abundância de referências numa tal proximidade que, a
simples capacidade do reflexo, a distância necessária à constituição de
um imaginário próprio, não se faz sentir, não aparece. A exploração do espaço do imaginário
por todo o tipo de solicitações no actual contexto de mercado é ilustrada
por inúmeros casos, mais ou menos contundentes.
Pelas virtudes da analogia, podemos partir do mais comum e frequente
para o mais institucional e "pesado". Quando o criativo publicitário
quer vender um determinado produto, um automóvel por exemplo, sabe que esse
produto-automóvel vem já de fábrica alinhado com características específicas
para um determinado público-alvo; esse público está mais ou menos garantido
como "atento" à mensagem. O criativo tem, essencialmente, que criar
um imaginário acopolado ao produto, que possa "olear" a vontade de
aquisição desse público. Então, para vender um carro desportivo, é
preciso embrulhar o produto em cores de liberdade
e fruição total da estrada, do sol
e do vento; é preciso oferecer, com o carro, a subida de atenções, de
todos, e em particular do objecto desejado, a que o sujeito possuidor vai ter
acesso; e é preciso, acima de tudo, deixar todos os sentidos abertos na sua
pregnância, para que as expectativas se reproduzam e dêem lugar à aquisição.
O mesmo se passará para a venda de um carro de luxo ou um Jeep, na criação de ideias envolventes e imaginários específicos
desencadeadores da aquisição. A lógica do consumo penetra as instituições,
até pelo imaginário, no momento em que alguém, com poder institucional,
decide traçar uma estratégia, planear um projecto de acção, para atingir
um determinado objectivo que não tenha sido manifestamente evidenciado como
socialmente necessário. Uma das razões pela qual existe uma
certa homogeneidade operativa e narrativa entre o imaginário criado pela
publicidade e o imaginário mais institucional, é pelo facto de ambos serem
hoje forçados a passar pelos mesmos media,
com processos de produção e acesso absolutamente idênticos. A história
mostra, essencialmente, a aceleração deste processo básico de estímulo-resposta,
ainda adoptado mais ou menos estrategicamente pelas instituições que têm
acesso a determinados imaginários; da sua capacidade de os costituirem como
instâncias de mediação para a prosecussão dos seus objectivos.[l]*(ref)
Se no início do século acontecia o caso de um elemento imaginário saltar
para o real, isto é, tornar-se concreto por acção de expectativas, forças
e energias concertadamente investidas num objectivo, então, algum organismo
aparecia para administrar esse novo elemento concreto, "conquistado ao
imaginário". Hoje, podemos dizer que, em princípio, a emergência
expontânea de uma expectativa ou de um determinado imaginário é
praticamente impossível; essas próprias emergências, criações ou construções,
são produtos institucionais devidamente "certificados". É possível clarificar o discernimento
deste tipo de imaginário através de alguns dos seus traços. "O
primeiro diz respeito à polaridade de base entre o que Koselleck chama o
"espaço da experiência" e o "horizonte de expectativas".
Por "espaço da experiência"
entenda-se o conjunto de heranças do passado cujos traços
sedimentados constituem de algum modo o solo sobre o qual se apoia aqui que se
pode designar por uma Kulturwandel.
Mas o espaço da experiencia só existe polarizadamente oposto a um horizonte
de expectativas sobre o qual se projectam as previsões e as anticipações,
as crenças e as esperanças, as utopias, que dão conteúdo ao futuro histórico."[li]
Conclui-se, por isto, que de facto é das expectativas que se sustenta
a manutenção de um imaginário. Um povo ou um grupo idealmente com todas as
suas necessidades satisfeitas, deverá ter um imaginário necessariamente mais
pobre, do tamanho das suas expectativas. É a necessidade de uma orientação
no devir da passagem do tempo que traça o vector que liga a memória
colectiva e o horizonte de expectativas; isto para já não referir a
qualidade que se investe na vivência com sentido traçado. A observar ainda, é o facto de, para lá
da administração de todos os elementos concretos a distribuir pelos
sujeitos, a instituição aspira e consegue, essencialmente, regular em
paralelo os imaginários possíveis que se apresentam como ingredientes de
consenso por excelência. Já quanto ao modus operandi dessa regulação
institucional contemporânea é que se podem cada vez mais observar as
homologias com os mecanismos de mercado, em particular os da publicidade, que
alimentam e distribuem, criando as próprias necessidades e fornecendo o
alimento para a sua satisfação. Neste panorama, é insensato criar
necessidades, - um imaginário específico - que não possam rapidamente ser
satisfeitas, pelo menos adentro dos sectores temporais que medeiam entre eleições.
Em termos mais pragmáticos, a fertilidade na criação de novas configurações
a inserir no imaginário, está fortemente balizada por estes condicionalismos
políticos e mercadológicos; é preciso, na prática, ter já em armazem
"aquilo" que se promete, no momento em que se faz a promessa, em que
se adiciona um elemento ao imaginário, para
o qual se propicia um desejo. É que o tempo de espera para a sua satisfação
tem naturalmente vindo a encurtar[lii].
O cuidado com a execuibilidade do imaginário que se inscreve na promessa, tem
vindo a empobrece-lo; as grandes imagens simbólicas e referências,
naturalmente as mais distantes e desejadas anteriormente, têm vindo a
desaparecer. Já só se deseja o que se pode ter, rapidamente.[liii] Este processo de objectualização total,
necessidade de presentificação material que asfixia o imaginário, acontece
paralelamente ao desenvolvimento tecnológico e à nova relação de
proximidades (proxémica) que este cria, nos domínios do acesso geral,
eliminação das distâncias e delapidação das auras ainda existentes[liv].
Por outro lado, imaginário e memória
formam um só componente no que diz respeito à estabilização e regulação
da "coisa comum". "No que diz respeito, em particular, à memória
social, constatamos que as imagens
do passado legitimam geralmente a ordem social presente.. É uma regra implícita
pressupor uma memória partilhada entre os participantes em qualquer ordem
social"[lv].
Existe neste espaço uma certa facilidade de aquisição de sentido,
uma operacionalidade facilitada para a regulação (por quem a queira
assumir). Observa-se aqui a territorialidade fácil da imagem que adquire
sentido sem necessidade de relação específica com o símbolo; o vago é
mais que suficiente neste espaço em que o objecto se projecta e estende ao
suscitar desejo ou produzindo identidade. Se aceitarmos, de algum modo, uma
nova proxémica nas relações sociais com os/dos aparelhos de Estado, a noção
de territorialidade, essencial a esta questão e tradicionalmente enraizada
numa simbólica do território e do enraizamento, é transferida, na
contemporaneidade, para uma axiomática dos fluxos mercantis e todo o imaginário
objectivisado sobre um território abstracto e apenas com um código de inscrição,
propriedade dos poderes do Estado.[lvi]
Toda esta relação imaginário-poder(es) é bem destacada na história das
mais diversas nações pelo modo como os meios que formam e guiam a imaginação
colectiva como, por exemplo, os dispositivos institucionais de gestão do
capital simbólico colectivo, são estrategicamente orientados para os valores
inerentes a esse poder, favorecendo o fortalecimento da sua legitimidade. 5.2
A Dinâmica Simbólica na estática geral; funções de estabilizaçãoErro!
Marcador não definido.; O símbolo percebido na sua vivacidade e
irredutível ao espartilho conceptual, pode ser observado, em primeiro lugar,
adentro de uma funcionalidade exploratória.[lvii]
Exactamente como um instrumento de detecção (scanning) que vai
escrutinando o que lhe aparece pela frente no mundo dos sujeitos, e
convertendo sentidos aleatoreamente, dentro de uma lógica do imaginário em
que quase todas as combinações são possíveis. Esta primeira função
liga-se à segunda pelo modo como os sujeitos partilham a indeterminação e o
pressentimento intuido em que o símbolo se constitui como substituto.
Até certo ponto — e para o nosso tema este é muito importante — o símbolo
está lá "em vez de", para servir de resposta, de solução ou
satisfação a um conflito, um desejo ou um problema para o qual os sujeitos não
encontraram resposta directa no seu quotidiano mais real e encarnado de
objectos resistentes à sua modelação funcional. Um quotidiano em que para lá
do acordo necessário entre sujeito e comunidade acerca dos objectos comuns,
surge a verificação mais recente de que esse acordo é mais fácil e exequível
sobre objectos específicos (mediadores) para tal criados, e não já
existentes e com narrativas anteriores. Emergem aqui as terceira e quarta funções
de mediação e unificação, intimamente ligadas, que caracterizam o objecto "substituinte"
na experiência dos sujeitos. Sabe-se que estes têm necessidade de condensar
toda a experiência parcelizada da comunidade numa síntese unitária e
funcional, operacional em termos vitais e de percepção do mundo. Todas as outras funções que se seguem são
desdobramentos das anteriores, mas nem por isso menos importantes, pelo menos
para melhor percebermos o seu tipo de acção. Emergente do papel
unificador do símbolo está a sua função pedagógica
e por vezes até terapêutica no
modo como a participação numa força ultra-individual gera a identidade do
sujeito e o seu modo-de-estar-com-os-outros; isto é demonstrado por H.P.Jeudy
até ao nível da acção e do simbólico objectivado."A exposição da
transformação dos modos de produção, de seus efeitos sociotécnicos, é
seguida de uma nova apologia da cultura técnica utilizada como meio terapêutico
para administrar os conflitos sociais. Após a desestruturação provocada
pela crise económica e as mutações tecnológicas, a consideração presente
aos patrimónios industriais se dá como uma grande figura terapêutica: os
ecomuseus permitem administrar os efeitos da dilaceração, da ruptura nestas
bacias de emprego onde os operários tiveram de abandonar o seu
trabalho."[lviii]
Em Portugal, por exemplo, o mesmo se passou relativamente às
"artes e ofícios tradicionais" que em boa parte se mantiveram e
mantêm ainda artificialmente com ajudas e subsídios que, nalguns casos,
mascaram os índices de desemprego de zonas mais atingidas pela desertificação
laboral.[lix] Esta função pedagógica e terapêutica
é igualmente uma função socializante
que destaca a comunicação com o meio envolvente e os seus modos-de-participação.
A História é rica de épocas e civilizações tão mais punjentes quanto a
riqueza e complexidade da sua simbologia integradora. Pensar o historiador
activo é vê-lo capaz de reviver com rigor, mesmo que virtualmente, todas as
narrativas e sujeições simbólicas da época que estuda e que o podem ajudar
a entender as forças de integração nesse tempo e nesse espaço; pelo menos
acredita nessa sua capacidade de reprodução imaginativa, mesmo que ilusória,
com ou sem documentos comprovativos[lx].
É aqui que o simbólico melhor se caracteriza na sua universalidade e
especificidade como ponto de convergência e condensação de conhecimentos e
afectividades, no modo como enquanto instrumento de compreensão em todos os
possíveis do acordo, atravessa, do individual ao colectivo, todos os níveis
da relação. Colocando o racional entre parenteses, a irradiação simbólica
anima todas as analogias e equívocos que emergem no imaginário.[lxi] É ainda recortada uma função de
transcendência, no que respeita à capacidade do símbolo de saltar as resistências
hà pouco referidas, estabelecendo relações entre forças antagonistas,
apagando oposições, e criando um statos quo ontológico muito próximo do mágico. Mas a função que mais nos interessa é a de ressonância,
que se destaca quando se distingue entre símbolos mortos e vivos. Os
primeiros são assim caracterizados por não encontrarem eco na memória
individual ou colectiva dos sujeitos; são apenas o conteúdo fossilizado de
uma gaveta do Arquivo e da História. Por
outro lado, quando os objectos ou as imagens desencadeiam no sujeito alguma
ressonância mais ou menos vibratória, é sinal de que estão vivos na sua
propulsão simbólica. Esta vida ou morte dos símbolos está bem localizada
tanto no tempo — que vai deixando entrarem os símbolos para a História na
sua objectividade fossilizada — como no espaço, que reparte e coloca na memória
de cada colectividade os seus símbolos específicos, que noutro espaço não
funcionarão como tal. Para o Indu que vive a reflexão védica, a vaca tem um
interesse espiritual que o criador holandês desconhece por completo. Mas o
que aqui nos ocupa são as enunciações e actividades relacionadas com o
património que, quase automaticamente, associamos à variável
"tempo". Uma das razões por que isto acontece prende-se com a
identidade morfológica do "tempo" enquanto cadeia
contínua de ocorrências localizadas na sua "cartografia", e a
mais forte dimensão significativa da expressão "património" que
ocorre enquanto cadeia de valores relativamente localizada, que adquire
sentido, na mais vasta rede axiológica do social. Um reflexo dos tempos actuais alerta-nos
para o modo como as próprias instituições "farejam" para detectar
e adoptar objectos com o máximo rendimento simbólico num panorama de rarefacção
das simbólicas fortes, isto é, das que num determinado momento fazem
reverberar e ecoar a sua enunciação em determinados campos. "As ciências
humanas punham em destaque o facto de qualquer poder, designadamente o poder
político se rodear de representações colectivas. Para tal poder, o domínio
do imaginário e do simbólico é um importante lugar estratégico.(...)
Exercer um poder simbólico não consiste meramente em acrescentar o ilusório
a uma potência real, mas sim em duplicar e reforçar a dominação efectiva
pela apropriação dos símbolos e garantir a obediência pela conjugação
das relações de sentido e poderio"[lxii] Queremos apenas com isto deixar aqui em stand
by a explicitação das circunstâncias em que o simbólico se constitui
como a melhor forma de controlo do imaginário. Como já acima mostrámos
a sua óptima morfologia para estes usos instrumentais, mais à frente*(onde)
tentaremos mostrar igualmente como esse agenciamento é operacionalizado
entre-campos, que lógicas operacionais o articulam, e quem fica a ganhar o quê
com isso. 6.
ConclusãoErro!
Marcador não definido. Neste percurso, colocámos algumas questões
às diversas formas pelas quais o património se faz representar, e observar
mais demoradamente o modo simbólico que envolve a generalidade das suas
representações; a centralidade das dinâmicas simbólicas que habitam o
imaginário-tipo em que o património se constitui. Caracterizada a generalidade dos
problemas metodológicos de produção e de leitura que este trabalho encontra[lxiii]
passámos, neste capítulo, a uma fase mais
específica que tenta abrir, por duas vias essenciais, o caminho para a análise
e abordagens possíveis à experiência patrimonial. Assim: a) Uma primeira via tenta detectar os
modos possíveis de problematização do património, o mesmo é dizer, os
modos de questionamento e definição
do que aqui se busca — a experiência patrimonial. Tenta, essencialmente,
despistar os diversos modos de emergência e enunciação, do mais discursivo
ao mais pragmático, evidenciados nas diversas dimensões em que a experiência
patrimonial se manifesta e constitui na sua totalidade. Esta detecção dos
diversos modos de emergência da experiência acontece imediatamente antes,
quando não em simultâneo, com a sua problematização,
de um modo que tenta cruzar e ultrapassar a forma positivista que
estatui e delimita apenas o imediatamente visível, sem o questionar. Foram inicialmente observados os
segmentos essenciais que percorrem a linha etimológica e, depois, as diversas
formas de constituição do sentido da expressão património. Este ponto começa com uma cartografia das enunciações
envolvendo a expressão património,
passando-se de seguida à etimologia e desdobramento de usos e significados,
assim como da observação de algumas raízes conceptuais que investem sentido
na expressão, como é o caso de propriedade
e interesse público[lxiv]. Continuando esta exploração das
diversas formas de enunciação, e passando às mais estabilizadas, são a
seguir destacadas e analisadas, as que, pela sua força normativa e definitória,
tanto na dimensão da experiência como na dimensão teórica, nos parecem
merecer mais atenção: são as definições e normas produzidas pelas
principais convenções internacionais; a lei portuguesa do património; as
recomendações do IPPAR; algumas observações e definições teóricas de
quem se debruçou sobre o assunto desde meados do século passado. Em síntese,
podem então observar-se algumas conclusões: — existe uma dominância do cronos
e formas de experiência Moderna nas representações observadas,
pressupondo tanto uma experiência fragmentada em esferas e campos autónomos,
como uma concepção lienar do tempo por contraposição à possibilidade de
observar uma concepção indivisa e pluridimensidonal da experiência;
observa-se uma evolução definitória que descentra o eixo histórico e
pericial, e coloca ao centro o público/comunitário; aumenta sem cessar a
extensividade e abrangência definitória e, finalmente, nenhuma
das exposições se questiona minimamente acerca do perfil de racionalidade do
que está a tentar definir. São estas definições e a sua articulação
(ou não) que nos podem oferecer um corpus
estrutural da experiência a ser problematizada. É o que a seguir se propõe
com os modos de questionamento e
entendimento da experiência patrimonial como problemática. Foram assim
observados os juízos centrais articulados em volta dos valores mais
envolvidos na sua constituição, isto é, na génese
do campo[lxv]
em que se constitui a experiência;
são observadas as modalidades e campos de inventariação como actos iniciais
dessa constituição e analisados alguns casos concretos — os patrimónios
da Igreja Espanhola e Portuguesa. Conclui-se provisoriamente que a globalidade
da experiência se apresenta, em si, inesgotável; que as definições que
tentam balizar o campo dificilmente o conseguem e, nalguns casos, chocam
fronteiras e se contradizem. b) Por uma segunda via fez-se um trabalho de detecção e caracterização do modo como o simbólico se funcionaliza
socialmente, e até que ponto se constitui como imaginário totalizante. São
observadas algumas manifestações exemplares pelo modo como operacionalizam
a sua acção sob o vector do mais alto rendimento simbólico. No espaço
de um imaginário simbólico cada vez mais reificado é dada especial atenção
ao tecido institucional, em particular no seu modo de segmentar e
aparelhar campos simbólicos em determinados contextos. Após esta exploração das formas
centrais de constituição do campo e operacionalização da experiência
patrimonial que nos permite reconhecer alguns padrões performativos nos mais
diversos contextos, estamos mais aptos ao recorte
e análise desses padrões, nos capítulos seguintes. Passamos, assim, ao próximo capítulo em
que iremos observar a generalidade das circunstâncias em que estas dinâmicas
emergem e evoluem na Modernidade — aquilo a que chamámos, " as condições
de emergência da experiência patrimonial".
[i]Que são, aliás comuns a
todas as abordagens não positivistas. [ii]"O processo de esvaziamento do tempo e do espaço é crucial para a segunda grande influência sobre o dinamismo da modernidade, a descontextualização das instituições sociais.(...) Os mecanismos de descontextualização são de dois tipos, a que chamarei "garantias simbólicas" e "sistemas periciais". Vistos em conjunto refiro-me a eles como sistemas abstractos. As garantias simbólicas são meios de troca que têm valor padrão, sendo portanto intercambiáveis ao longo de uma pluralidade de contextos.(...)Os sistemas periciais põem entre parenteses o tempo e o espaço através da utilização de modos de conhecimento técnico que têm validade independentemente dos praticantes e dos clientes que os usam. Estes sistemas penetram virtualmente todos os aspectos da vida social em condições de modernidade..." Modernidade e Identidade Pessoal, Anthony Giddens, ed. Celta, Lisboa 1994, p.16. Ver também "Do Problema da Modernidade à Modernidade Como Problema - A construção dos discursos da Modernidade", em Fundamentos de uma Analítica da Actualidade, José B. Bragança de Miranda , ed. polic. Univ. Nova de Lisboa, 1990 pps 129-249. Ver ainda Comunicação
e Cultura, Adriano D. Rodrigues, "A Modernidade" ed. Presença,
Lisboa 1994, pps 57-70
[iii]"Em breve haverá especialistas em todos estes campos, elaborando os seus próprios termos técnicos, as suas teorias e métodos que se tornarão inacessíveis aos não especialistas. Terão realizado o ideal básico do profissionalismo - a autonomia absoluta das novas especializações. A fortaleza estará completa, as pontes levadiças erguidas." Introdução à
Sociologia, Norbert Elias, 2. "O sociólogo como destruidor de
mitos", ed.edições 70,Lisboa 1980 p.53, ver ainda o problema da especialização científica pps 50-52.
[iv]"Todavia construir um objecto científico é, antes do mais e sobretudo, romper com o senso comum, quer dizer, com representações partilhadas por todos, quer se trate dos simples lugares-comuns da existência vulgar, quer se trate das representações oficiais, frequentemente inscritas nas instituições, logo ao mesmo tempo na objectividade das organizações sociais e nos cérebros. O pré-construido está em toda a parte. (...) Ora isto (o facto de os conceitos se manifestarem de modo idêntico quer nos sujeitos quer nos objectos) contribui para lhes conferir uma evidência - a que resulta da coincidência entre as estruturas objectivas e as estruturas subjectivas - que as põe a coberto de serem postas em causa." in Bourdieu, P.,
O Poder Simbólico, ed. Difel, Lisboa, 1989, p.34 [v]in "La notion de Patrimoine",
André Chastel, Les Lieux de Memoire,
dir. Pierre Nora, La Nation, Vol.II, ed. Gallimard, Paris, 1986, p. 405.
[vi]ibidem, p. 414. Ver, igualmente, "L'origine du terme vandalisme",
Histoire du Vandalisme, Réau, L., ed. Robert Laffont, Paris, 1994,
p. 9.
[vii] Pode observar-se esta definição de património em Robert Hewison, no seu trabalho The Heritage Industry. Britain in a Climate of Decline : "Instead of manufacturing goods, we are manufacturing heritage, a commodity which nobody seems able to define" (p. 9) e, mais à frente, "Imperceptibly, history is absorbed into heritage. But a heritage without a clear definition, floating on the larger frame of the present. The first annual report of the National Heritage Memorial Fund, for 1980‑81 confronted the absence of any definition in the Act of Parliament that had set it up, and concluded that the question of definition was unanswerable: We could no more define the national heritage than we could define, say, beauty or art. Clearly, certain works of art created by people born in this country were part of the national heritage [...] as were buildings [...]. but, heyond that, there was less assurance. So we decided to let the national heritage define itself' (p. 136) ed. Methuen, London, 1987. [viii]in "Propriedade",Giuliano
Martigneti, Dicionário
de Política, org. Norberto Bobbio, N. Matteucci, G. Pasquino, ed. Un.
de Brasília, Brasília, 1993, p.1021.
Ver, igualmente, e com grande actualidade, Lições de Sociologia, "O Direito de Propriedade", Durkheim,E., ed. Un. S. Paulo, S. Paulo, 1983, p. 130. [ix] Quando é evocada a perversão
do privado, ela assenta precisamente na exclusividade da posse a que o
bem se sujeita. Exclusividade que se estabelece na relação de poder (de
decisão, usofruto, ablação, etc.) da parte do
sujeito possuidor sobre o bem possuido.
[x]Que parece ser o grande
fundamento animador dos patrimónios nacionais e localizados, mas que -
paradoxo - se dilui aquando da defesa de um património mundial, que
acontece pelas mãos das organizações internacionais, neste caso a UNESCO.
[xv]Em I.
O Significado da Classificação - Por que se classificam os bens culturais
imóveis?, Doc. 1 Normas e recomendações do IPPAR, Classificação de
bens Imóveis, O enquadramento jurídico e a Instrução das propostas de
classificação.
[xvi]"La Notion de Patrimoine", André Chastel, Les Lieux de Mémoire, La Nation II, ed. Gallimard, Paris, 1986, p.414. [xvii]L'Allégorie
du Patrimoine, Choay, F., ed. SEUIL, Paris, 1991, p.9
[xviii] in Jacques Le Goff, Documento/Monumento, Vol.1, Memória/História, Enc. Einaudi, ed. INCM, Lisboa, 1984, p. 95 e p. 106. Esta definição foi, decerto, inspirada em Foucault. "Digamos, para resumir, que a história em sua forma tradicional, empreendia memorizar os monumentos do passado, transformá-los em documentos e fazer falar estes traços que, por si mesmos, raramente são verbais, ou dizem em silêncio coisa diversa do que dizem; em nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos, e o que, onde se decifravam traços deixados pelos homens onde se tentava reconhecer em profundidade o que tinham sido, desdobra uma massa de elementos que se trata de isolar, de agrupar, de tornar pertinentes, de estabelecer relações, de constituir conjuntos. Era um tempo em que a arqueologia como disciplina dos monumentos mudos, dos traços inertes, dos objectos sem contexto e das coisas deixadas pelo passado, se voltava para a história e só tomava sentido pelo restabelecimento de um discurso histórico; poder-se-ía dizer, jogando um pouco com as palavras, que a história, em nossos dias se volta para a arqueologia; para a descrição intrínseca do monumento". A Arqueologia do Saber, Michel Foucault, ed. Vozes, Petrópolis, 1971, p.14 [xix] Esta noção que implica uma
unidade activa e de plenitude da experiência,
forma o substantivo alemão ERLEBNIS que acaba por objectivar a viência
no objecto. Alois Riegl com a
Kunstwollen - vontade artística - produziu um termo associado que dá bem a
ideia do investimento individual ou colectivo corporificado no objecto. [xx]Até certo ponto, parece aqui reflectir-se a ideia heideggeriana da necessidade de imersão do sujeito no mundo ("In-der-Welt-sein") que o envolve; da criação de um sujeito autêntico que é um sujeito "besorgt" (cuidadoso, com os outros e com o que o envolve no espaço e no tempo). O tempo é a dimensão que investe mais sentido no ser do Dasein pela sua capacidade de localização entre, — os vivos e os mortos — por exemplo. "O estudo dos pensamentos de um homem morto, a contemplação da sua arte, a realização do seu propósito político, a intensa recordação do seu "estar-aí", são exemplos de cuidado inteiramente típicos do Dasein.(...) A expressão de Heidegger é "solicitude respeitosa". Ela fornece uma pista para a importância primordial que ele atribuirá ao tema da Antígona de Sófocles e a toda a questão de como uma comunidade viva deve constituir um "ser-ao-lado" dos seus mortos."in Heidegger, Steiner, George, ed. Cultrix, S.Paulo, 1982, p.89. [xxi]Queremos
com isto observar o modo como se pode hoje entender a «experiência» que,
numa perpectiva editada pela Modernidade, impõe a congregação da
multidimensionalidade da sua constituição histórica. Com a generalização
da prática da escrita e a introdução da imprensa no Ocidente, acentua-se
a autonomização moderna das diferentes esferas da experiência. O processo
de secularização desinveste a esfera do sagrado da ligação totalizante
das diferentes esferas da experiência, assistindo-se à progressiva emergência
de campos sociais, ao aparecimento de esferas de acção que pretendem
passar a definir a sua própria legitimidade para imporem uma ordem de
valores ao conjunto da sociedade e criarem formas de visibilidade
independentementes da esfera religiosa tradicional. Esta segmentação
moderna da experiência corresponde assim ao aparecimento dos campos
religioso, do saber, do direito, do político, da medicina, como outras
tantas esferas competentes para criarem, imporem e sancionarem ordens axiológicas
relativamente autónomas, definindo espaços de interesses diferenciados e
eventualmente divergentes. Assim se instaura "uma nova instância de
legitimação do discurso e do agir modernos, a instância do sujeito. (...)
A concepção linear do tempo moderno corresponde também à fragmentação
da experiência do sujeito numa diversidade de campos autónomos, cada um
destes campos possuindo a sua própria lógica, os seus processos rituais de
visibilidade simbólica, a sua legitimidade, os seus regimes de
funcionamento, as suas dimensões e as suas modalidades estratégicas."
"Traços fundamentais da Modernidade", Comunicação
e Cultura, Rodrigues, A.D., ed. Presença, Lisboa, 1994, p.66. Rever o penúltimo ponto do capítulo anterior, sobre a
noção de «experiência».
[xxii]Quando muito, acontece a resolução de problemas acidentais e transitórios que, eventualmente, possam pôr em causa a lisura da constituição experiencial: "Inserido em ciências regionais específicas (como a sociologia, ou a psicologia, etc.), este género de análises tem a sua pertinência. Mas a sua estrutura «disciplinar», que é uma forma de positivização, implica uma abordagem que desproblematiza, que inviabiliza a atitude crítica exigida pela analíticaa da actualidade. A consequência inevitável é a resolução da problematicidade da constituição a «problemas» transitórios, de tal modo que a resolução destes problemas é encarada como uma questão meramente «técnica»." Analítica da
Actualidade, Bragança de Miranda , J.B., ed. Vega, Lisboa, 1994, p.114
[xxiii]Como foi referido na introdução, existe um trabalho anterior em que foi feita uma problematização mais localizada, foram formuladas questões mais específicas relativamente ao arquivo de filmes e imagens em movimento. Ao contrário do que é habitual, é um movimento ascensional o que efectuamos a partir de um campo específico já trabalhado, para o campo mais geral e abrangente que o engloba, e alberga necessariamente uma quantidade de outros campos específicos próximos. Anteriormente perguntámo-nos "porque se conservam filmes/imagens em movimento?" — a questão ontológica; "para que se conservam filmes/imagens em movimento?" — a questão pragmática; "o que conservar?" — o imperativo da selecção e a questão axiológica. Já nessa altura se percebia que destas questões se desprendia um rol de questões derivadas a que era difícil atender em pormenor; algumas foram-no, outras não. ver Para uma Ontologia do Arquivo de Imagens em Movimento, Esperança, E.J, ed. polic. Univ. Nova de Lisboa, 1989, p.5. [xxiv]Sendo que, como referido
no ponto anterior, a forma positivista e dominante de experienciar e tratar
o património nunca parece constituir-se como problemática.
[xxv]No sentido em que, apesar de não se ficar aqui pela primeira etapa que comporta o problema em Kant, esta é de todas a mais importante: "Os problemas (problemata) são as proposições demonstráveis que carecem de uma instrução, ou aquelas que enunciam uma acção cujo modo de execução não é imediatamente certo. - Observações - 1.Ao problema pertence (1) a questão, que contém o que deve ser executado; (2) a resolução, que contém a maneira pela qual se pode levar a cabo o que deve ser executado, e (3) a demonstração de que o exigido há-de se cumprir, se eu houver procedido dessa maneira." LÓGICA, Immanuel Kant, "Dos Juízos" #38,
ed. Tempo Bras. Rio de Janeiro, 1992, p.131 [xxvi]Do ponto de vista formal, -
"se abstrairmos de todo o conteúdo de um juízo em geral e
atendermos apenas à forma do entendimento" (Kant, Crítica da Razão
Pura, 2ªsec. §9, p.103, ed. Gulbenkian, Lisboa 1985) - como Kant o
enuncia, é claro que estaremos atentos à forma lógica da generalidade dos
juízos, mas apenas quando o seu conteúdo levantar dúvidas quanto à sua
indexação imediata adentro do
contexto em que se trabalha. Por isto, toda a grelha geral dos juízos e das
categorias em que estes se englobam (ver ibidem) fica latente, sendo
imediatamente activada em caso de indefinição maior.
[xxvii]No sentido como o "de uma estratégia prática do habitus científico, espécie de sentido do jogo que não tem necessidade de raciocinar para se orientar e se situar de maneira racional num espaço." in Bourdieu, Pierre, O
Poder Simbólico, ed. Difel, Lisboa, 1989, p. 62. [xxviii]Michel Meyer, ao explicitar as insuficiências epistemológicas da ciência e da própria filosofia, que no decurso da constituição dos seus saberes não se questionam sobre as suas formas de questionamento, observa igualmente as diferenças de abrangência de perspectivas: "O que explica que a filosofia, ao contrário da ciência, vá globalizar a sua visão do objecto ou do ser, não se fixando nisto ou naquilo, ou mesmo sobre um tipo de fenómenos, mas sim na objectividade do objecto, na fenomenalização do fenómeno, no ser do ente. É então isto que vai fazer com que o objecto seja objecto e o fenómeno fenómeno, com que as coisas sejam o que são. " in Meyer, Michel, A
Problematologia, ed. D. Quixote, Lisboa, 1991, p. 16 [xxx]"objectos" aqui como
estes podem ser designados no sentido ôntico da coisa-em-si, fora do nosso
entendimento. Os objectos que podem ser investidos, na sua materialidade, de
carga simbólica.
[xxxi]"...em lugar de reconstituir cadeias de inferência (como se faz frequentemente na História das Ciências ou da Filosofia), em lugar de estabelecer quadros de diferenças (como fazem os linguistas), decreveria sistemas de dispersão.(...)no caso em que entre os objectos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se poderia definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), dir-se-á, por convenção que se trata de uma formação discrusiva - evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e consequências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, como "ciência", ou "ideologia", ou "teoria", ou "domínio de objectividade".. Chamar-se-á regras de formação às condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objectos, modalidade de enunciação, conceitos, escolhas temáticas.)." A Arqueologia do Saber, Michel Foucault, ed. Vozes, Petrópolis, 1971, p.51 [xxxii]Estamos a utilizar a metáfora
da terminologia económica, por razões operacionais e heurísticas, a que
melhor se adequa a este campo, com os devidos acertos.
[xxxiv]Sobre o inventário do património cultural português, e parte da sua história, ver o prefácio de Carlos Antero Ferreira a Património Arquitectónico e Arqueológico Classificado, ed. IPAAR, Lisboa, 1993, p.XIII-XXV. Relativamente à actual capacidade estocástica que nos
oferecem as Novas Tecnologias, que nesse sentido herdam as virtualidades da
fotografia, o progresso é rápido. Essa capacidade mede-se já em gigabites
e tende a ultrapassar rapidamente todas as previsões da imaginação
arquivistica. Esta questão é desenvolvida no último capítulo deste
trabalho.
[xxxv]Este é um dos primeiros
"casos" concretos que aparece neste trabalho, e neste ponto,
porque achamos despropositado colocá-lo mais adiante, onde outros
"casos" e estudos práticos se concentram, pois é aqui que a
reflexão e a questão teórica ocorrem. Não encontrámos estudos mais
concretos sobre os patrimónios da Igreja Espanhola e Portuguesa. O que é
aqui apresentado neste ponto, resulta de diversas entrevistas aos experts
que estiveram a coordenar o
inventário português encetado pelo IPPAR, pelo seu parecer relativamente
à Igreja portuguesa, e entrevistas feitas ao Director da Direccion de
Patrimonio de la Comunidad de Madrid, Dr. Miguel Oreja e alguns técnicos do
Departamento de História da Universidade Complutense, encarregues do inventário
espanhol. [xxxvi]Racionalidade axiológica
que é bem expressa na tipologia que Weber oferece num dos seus ensaios
sobre os géneros de acção social: "Types of Social
Action Social action, like all action, may be oriented in four ways. It may be: ( I ) instrumentally rational (zweckrational), that is, determined by expectations as to the behavior of objects in the environment and of other human beings; these expectations are used as "conditions" or "means" for the attainment of the actor's own rationally pursued and calculated ends; (2) value‑rational (wertrational), that is, determined by a conscious belief in the value for its own sake of some ethical, aesthetic, religious or other form of behavior, independently of its prospects of success; (3) affectual (especially emotional), that is, determined by the actor's specific affects and feeling states; (4) traditional, that is, determined by ingrained habituation. 1. Strictly
traditional behavior, like the reactive type of imitation discussed above,
lies very close to the borderline of what can justifiably be called meaningfully
oriented action, and indeed often on the other side.
For it is very often a matter of almost automatic reaction to habitual
stimuli which guide behavior in a course which has been repeatedly
followed. The great bulk of all everyday action to which people have become
habitually accustomed approaches this type. Hence, its place in a systematic
classification is not merely that of a limiting case because, as will be
shown later, attachment to habitual forms can be upheld with varying
degrees of self‑consciousness and in a variety of senses. In this case
the type may shade over into value
rationality (Wertrationalitat) . 2. Purely affectual behavior also stands on the borderline of what can be considered "meaningfully" oriented, and often it, too, goes over the line. It may, for instance, consist in an uncontrolled reaction to some exceptional stimulus. It is a case of sublimation when affectually determined action occurs in the form of conscious release of emotional tension. When this happens it is usually well on the road to rationalization in one or the other or both of the above senses. 3. The orientation of value‑rational action is distinguished from the affectual type by its clearly self‑conscious formulation of the ultimate values governing the action and the consistently planned orientation of its detailed course to these values. At the same time the two types have a common element, namely that the meaning of the action does not lie in the achievement of a result ulterior to it, but in carrying out the specific type of action for its own sake. Action is affectual if it satisfies a need for revenge, sensual gratification, devotion, contemplative bliss, or for working off emotional tensions (irrespective of the level of sublimation). Examples of pure value‑rational orientation would be the actions of persons who, regardless of possible cost to themselves, act to put into practice their convictions of what seems to them to be required by duty, honor, the pursuit of beauty, a religious call, personal loyalty, or the importance of some "cause" no matter in what it consists. In our terminology, value‑rational action always involves "commands" or "demands" which, in the actor's opinion, are binding on him. It is only in cases where human action is motivated by the fulfillment of such unconditional demands that it will be called value‑rational. This is the case in widely varying degrees, but for the most part only to a relatively slight extent. Nevertheless, it will be shown that the occurrence of this mode of action is important enough to justify its formulation as a distinct type; though it may be remarked that there is no intention here of
attempting to formulate in any sense an exhaustive classification of types
of action. 4. Action is instrumentally rational (zweckrational) when the end, the means, and the secondary results are all rationally taken into account and weighed. This involves rational consideration of alternative means to the end, of the relations of the end to the secondary consequences, and finally of the relative importance of different possible ends. Determination of action either in affectual or in traditional terms is thus incompatible with this type. Choice between alternative and conflicting ends and results may well be determined in a value‑rational manner. In that case, action is instrumentally rational only in respect to the choice of means. On the other hand, the actor may, instead of deciding between alternative and conflicting ends in terms of a rational orientation to a system of values, simply take them as given sulojective wants and arrange them in a scale of consciously assessed relative urgency. He may then orient his action to this scale in such a way that they are satisfied as far as possibvle in order of urgency, as formulated in the principle of "marginal utility." Value‑rational action may thus have various different relations to the instrumentally rational action. From the latter point of view, however, value‑rationality is always irrational. Indeed, the more the value to which action is oriented is elevated to the status of an absolute value, the more "irrational" in this sense the corresponding action is. For, the more unconditionally the actor devotes himself to this value for its own sake, to pure sentiment or beauty, to absolute goodness or devotion to duty, the less is he influenced by considerations of the consequences of his action.(...) 5. It would be very unusual to find concrete cases of action, especially of social action, which were oriented only in one or another of these ways. Furthermore, this classification of the modes of orientation of action is in no sense meant to exhaust the possibilities of the field, but only to formulate in conceptually pure form certain sociologically important types to which actual action is more or less closely approximated or, in much the more common case, which constitute its elements. The usefulness of the classification for the purposes of this investigation can only be judged in terms of its results." Economy & Society: an outline
of interpretative sociology, Weber, M., ed. Guenther Roth and Claus
Wittich, University of California Press, 1980, p. 26-27. [xxxvii]"Símbolo",
Eco,U. Enciclopédia Einaudi, Vol.
31-Signo, ed. INCM, Lisboa, 1994, p. 176 [xxxviii]"Problémes de l'ame
moderne"p.92, C.G.Jung, in Dictionnaire
des Symboles, int. de Jean Chevalier,ed. Robert Laffont, Paris, 1982
p.XIV
[xxxix]J. Bragança de Miranda, sintetiza-nos isso precisamente com base na observação de quem tratou este problema com mais atenção: "A percepção é construída pela imagem ou «objecto» percepcionado, e só neste sentido ela surge a um nível primordial. Mas mesmo assim não se deve a qualquer empirismo, mas pelo facto de ela servir de revelador de uma certa coerência do que se dá a ver ou do que é visível. Por exemplo, Foucault, quando analisa o «intemamento», refere "a coerência mais secreta de uma percepção. o que o internamento e as suas práticas móveis desenham, em pontilhado, à superf cie das instituições, é aquilo que a Idade Clássica percepciona da déraison". Neste sentido, a percepção é construída historialmente, pois se a dominância da percepção corresponde à Idade Clássica, já no Renascimento "não se tratava de percepcionar; era uma certa maneira de sentir o mundo na sua inteireza, uma certa tonalidade conferida a qualquer percepção". O surgimento da percepção como operador filosófico corresponde a um caminho que leva à dominância da percepção, que na modernidade se apresenta como garantia de «objectividade», exigindo um sujeito seguro de si, sempre correlativo de um objecto localizado no espaço. Tal como é possível mostrar a construção da percepção no tempo da história, o mesmo é detectavel relativamente ao espaço. Trata‑se de um processo complexo em que parece estar presente uma estrutura de mise en abime. Por exemplo, Antoine Bailley sustenta na sua «microgeografia da percepção» que a percepção não reflecte o espaço, antes apresenta "imagens parciais e nao integradas", eminentemente simbólicas, sendo "a percepçao um processo activo e criativo, que é o ponto de partida de uma síníese cognitiva". Porém, o seu carácter simbólico parece advir da selecção de elementos detemminados do espaço por parte dos agentes que os estruturam em «paisagens» significatlvas. Ora, para além da percepção criadora de imagens, também os processos de selecção são «simbólicos», acontecendo o mesmo com os elementos fisicos do espaço. Não existe, portanto, um naturalismo da percepção e do espaço fisico que depois seria sobrecarregado com os interesses sociais (em que o «subjectivo» se acrescenta ao «objectivo»), pois estes já são simbolicamente marcados pela experiência. Como afirma Bourdieu: "As lutas a propósito da identidade étnica ou regional(...) são um caso particular das lutas de classificações, lutas pelo monopólio de fazer ver e fazer crer, de fazer conhecer e fazer reconhecer". A mise en abime resulta desta descoberta de que o mais objectivo é construído simbolicamente, o que não obriga a cair num relativismo sociologista, pois este é sempre reduzido pelas estruturas de estabilização da experiência. O que aqui conta éacima de tudo a demonstração de que mesmo a percepção já está detemminada transcendentalmente por uma visão do mundo, e empiricamente pelos objectos que já contêm em si mesmos as suas «instruções para o uso». Analítica da
Actualidade, Bragança de Miranda, J.B., ed. Vega, Lisboa, 1994,
nota § 12, p. 55 [xlii]Durand diz que, se
observarmos o símbolo enquanto signo que remete a um significado inefável
e invisível, tendo por isso de encarnar concretamente essa apreensão que
lhe escapa, fá-lo através de redundâncias míticas, rituais, iconográficas
que corrigem e completam ad infinitum essa incompletude.13
Ver Les structures anthropologiques de l'imaginaire, Durand, G. ed. Bordas, Paris, 1969, p. 6O [xliii] L'imagination Symbolique, p.124 [xliv] "Também a ordem do simbólico que constitui o objecto da Filosofia das Formas Simbólicas, de Ernest Cassirer, é a ordem do semiótico. A Ciência não reflecte a estrutura do Ser (...) mas põe os seus objectos de conhecimento, e finalmente o tecido do mundo conhecido, «como símbolos intelectuais livremente criados». Cassirer segue a concepção de Hertz ( e de Helmholtz) dos objectos científicos como símbolos ou simulacros « tais que as consequências idealmente necessárias das imagens sejam sempre por sua vez as imagens das consequências naturalmente necessárias dos objectos representados». "Símbolo", Eco,U. Enciclopédia Einaudi, Vol. 31-Signo, ed. INCM, Lisboa, 1994, p.144 Nesta citação se pode bem observar essa característica especular que Cassirer mostrou. Ver também, "EL MITo CoMo FoRMA DE INTUICIóN. ESTRUCTURA Y
DISPoSICIóN DEL MUNDo ESPACIo‑TEMroRAL EN
LA CoNCIENCIA MIToLóGICA" I. La antitesis básica (p.105); II. El conocimiento simbólico y su significación para la construcción del mundo de los objetos (p.29); SEGUNDA PARTE; El problema de la representación y la construcción del
mundo intuitivo I. El concepto y el problema de la representación (p.131) V. La prenez simbólica (p.226) Filosofia de las Formas Simbólicas, Cassirer, E., ed. FCE, México, 1976. Ver, também, "De la lógica del concepto de Símbolo",
em Esencia y Efecto del Concepto de Símbolo,
Cassirer, E., ed. F.C.E, San Lorenzo - México, 1983.
[xlvi]Ver
Symbolic Interaccionism —
Perspective or Method, Blumer, H., ed. Prentice Hall, Englewood Cliffs,
1969.
[xlvii]Estes podem ser imagens mais
ou menos nítidas, palavras, discursos, sons, sensações ou mesmo algo de
mais inefável.
[xlviii]É disto que nos dá conta J.B. Miranda ao mostrar, novamente, como o imaginário morfologicamente simbólico se cristaliza e se torna manipulável através da linguagem, numa inter-acção que proporciona o máximo de tangibilidade. Uma forma de tangibilidade que Bragança de Miranda tenta tornar visível ao listar quatros formas de síntese da retoricização da linguagem: "A utilização da linguagem para dar expressão aos elementos não linguísticos da experiência, a sua integração em programas de organização da experiência em termos escriturais, projectuais e até biográficos, o seu extensionamento imaginário para formar discursos totais que sirvam de horizonte à acção, tudo isso exige a constituição de sínteses de retoricização da linguagem. Trata‑se de um procedimento de grande amplitude, que procura estabilizá‑la a dois níveis essenciais, o da instrumentalidade/normativização (onde sofre a maior restrição) e o do imaginário (onde possui a máxima plasticidade). Porém, para além do procedimento de instrumentalização, a retoricização tem de estender‑se ao próprio imaginário. Embora, como é sabido, os românticos do século XIX se contem entre os primeiros a criticar a instrumentalização da linguagem, opondo‑lhe a imaginação, na verdade esta oposição já resulta da necessidade de controlar a aleatoridade da linguagem. Daí que, paralelamente à instrumentalização da linguagem, surja uma série de procedimentos para controlar o «imaginário» (que não se confunde com a imaginação). Todavia, a ambivalência, referida mais acima, também tem curso aqui, afectando todo o trabalho sobre a linguagem, desde os elementos mais referenciais aos mais imaginários. (...)Limitamo‑nos por isso a listar quatro modalidades da síntese de retoricização da linguagem: 1) de um ponto de vista abstracto, a racionalização do discurso e das formas de usá‑lo, controlá‑lo, etc. (instrumentalização); 2) a museologização do material discursivo, pela constituição de uma arquivística generalizada, de normalização e codificação da tradição, etc.; 3) a narrativização do discurso através de narrativas que permitem integrar vários regimes incompossíveis e contraditórios, numa coerência fundamentalmente voltada para a persuasão; e, por fim, 4) a um nível mais concreto, a institucionalização da linguagem pelos media, constituindo uma esfera de mediação que tende a confundir‑se com a oefentlichkeit, mas apenas de modo sirnulacral." Analítica da Actualidade, Bragança de Miranda, J.B., ed. Vega, Lisboa, 1994, p. 144. Sobre o modo como Foucault tratou o «imaginário», consultar igualmente as notas §38 e §44 de Analítica da Actualidade. Sobre este tema, consultar igualmente: L 'Institution Imaginaire de la Société, Castoriadis, Comelius,ed. SEUIL, Paris, 1975. «O Museu Imaginário» in As Vozes do Silencio, Malraux, André, ed. Livros do Brasil, Lisboa, Vol. 1, s.d., pp. 7‑124. [xlix] Uma experiência, que como mais à frente se verá, se suporta no carácter ilimitado de reprodução e extensão tanto do valor como da atracção simbólica que se ordenam no imaginário dos sujeitos da experiência. Uma intuição que Kant teve já na Crítica do Juízo ao referir várias vezes a relação de comunicação ilimitada que o símbolo imaginário institui. Ver Crítica da Faculdade do Juízo, Kant, I.,ed. INCM, Lisboa, 1992. — Sobre a capacidade reprodutiva da imaginação, ver §57; sobre a ilimitação do processo comunicacional, ver §s 85, 94,96,124,126,; sobre a sua ampliação pelo sublime, ver§ 83. [l]Por seu lado, a psicanálise
freudiana coloca o imaginário como instância reguladora/administrante do
processo de recalcamento que organiza, por substituição, os objectos não
aceites pelo super-ego. Uma dessas ilustrações aparece na análise que
Freud faz do delírio do presidente Schreber, que acaba por ser mais do nível
do simbólico que do imaginário. O que esta análise nos mostra é a dependência
que o imaginário tem relativamente ao simbólico.
[li]Traduzido de
La crise de la conscience historique et l'Europe, Paul Ricoeur, ed.
polic. Simpósio internacional s/ Ética e o futuro da Democracia, p.2
[lii]"C'est ainsi que l'on assiste ici et là à une privatisation des désirs et des projets, à un culte du consumérisme à courte vue; à l'origine de ce mouvement de repli on discerne sans peine un désengagement à l'égard de toute responsabilité civique." La crise de la
conscience historique et l'Europe, Paul Ricoeur, ed. polic. Simpósio
internacional s/ Ética e o futuro da Democracia, p.5 [liv]ver à frente, o consumo mediático
e a espectacularização; as novas formas de produção de auras,estrelas e
pequenos mitos, no Cap. IV * [lvii]Jean Chevalier, na
introdução ao Dictionaire des
Symboles apresenta um capítulo sobre "a dinâmica simbólica e as
suas funções"que, pela sua capacidade sintética e abrangente, nos
será útil observar. Dictionnaire des
Symboles, int. de Jean Chevalier,ed. Robert Lafont, Paris, 1982, p.XVIII
[lviii]Ardis
da Comunicação; a eutanásia dos sábios, H.P.Jeudy, ed. Imago, Rio de
Janeiro, 1990, pps.18-19. [lx]"A vida na Idade Média, a vida no séc.XVII constituem objecto de múltiplos relatos que os historiadores demonstram graças a documentos que são também testemunhos possíveis para reconstituir cenas da vida quotidiana. Podem-se reconstituir com uma fidelidade e autenticidade pressupostas, quadros da vida da Idade Média e remontar assim cenas da existência quotidiana. No fundo, estes modos de vida estão aí como imagens cândidas e simplistas, que nos devolvem toda a ficção de um passado desconhecido sob a forma de um verdadeiro diorama.(...) Quem pode garantir que as coisas realmente se passavam assim em tal aldeia da Idade Média e em tal época? Sem dúvida os documentos são provas, mas a tentativa de reprodução do conjunto da existência quotidiana implica imaginação". Ardis da Comunicação, H-P Jeudy, ed.Imago, Rio de
Janeiro, 1990, pps.16-17
[lxi]"Un symbole peut préfigurer
ce qui sera un jour un fait scientifique, comme la terre, sphère parmi les
sphères, ou comme le don du coeur;(...) Quand il décide de consacrer sa
vie à la recherche, un savant peut obéir à des forces irrationnelles et
à une conception du monde où le symbole, avec sa charge émotive, tient
une place considérable". ibidem, Dictionnaire
des Symboles, p. XXX
[lxii]Imaginação Social,
Bronislaw Bazcko, Enc. Einaudi , Vol 5, ed. INCM, Lisboa 1985, pps. 297-299.
[lxiii]Que são, aliás comuns
a todas as abordagens não positivistas. [lxiv]O interesse
pode aqui ser definido como qualquer forma ou potencial de exploração e/ou
rendibilização em favor de um indivíduo ou uma das partes quando existe
litígio. Este é um dos conceitos ou noções legais mais férteis quando
explorado na óptica da sua inserção sociológica, como iremos mais à
frente observar. Do ponto de vista ontológico, é no interesse
que se pode buscar o pivot de toda a justificação para a regulamentação
acerca da propriedade dos bens e direitos de gestão. Inerentes a esta noção
de interesse, estão todas as outras necessidades mais pragmáticas de
regulamentação de actividades envolvendo transmissão de bens, como sejam
as heranças e sucessões, o crédito, a hipoteca e as dívidas, por
exemplo. Capítulo
II Rastreio
e problematização do património, experiência
patrimonial e imaginário simbólico
Erro! Marcador não
definido.
; 1. Introdução 2. Possibilidades de construção de uma cartografia das enunciações envolvendo o património e suas "formas de expressão"; 2.1.1 Génese etimológica e percursos da expressão património; 2.1.2 A noção de propriedade; vizinhanças;
3. As definições de "património", começando pelas mais estabilizadas; 3.1 A urgência de problematizar a questão patrimonial — modos de questionamento; 3.2 A produção do juízo como primeiro elemento questionável;
4. Sobre o inventário, as modalidades e campos de inventariação; 4.1 Casos concretos de experiências diferentes: os patrimónios da Igreja Espanhola e Portuguesa; 5. Experiência patrimonial — imaginário e objectos simbólicos; 5.1 O Imaginário Simbólico; 5.2 A Dinâmica Simbólica na estática geral — funções de estabilização;
6.
Conclusão;
1.
IntroduçãoErro!
Marcador não definido. Após a caracterização da generalidade
dos problemas metodológicos de produção e de leitura que este trabalho
encontra[i]
passamos, neste capítulo, a uma fase mais
específica que tenta abrir, por duas vias essenciais, o caminho para a análise
e abordagens possíveis à experiência patrimonial. Assim: — Uma primeira via tenta detectar os
modos possíveis de problematização do património, o mesmo é dizer, os
modos de questionamento e definição
do que aqui se busca — a experiência patrimonial. — Uma segunda via trabalha a detecção
e caracterização do modo como o simbólico se funcionaliza socialmente,
e até que ponto se constitui como imaginário totalizante. São observadas
algumas manifestações exemplares pelo modo como operacionalizam
a sua acção sob o vector do mais alto rendimento simbólico. No espaço
de um imaginário simbólico cada vez mais reificado é dada especial atenção
ao tecido institucional, em particular no seu modo de segmentar e
aparelhar campos simbólicos em determinados contextos. 2.
Possibilidades de construção de uma cartografia das enunciações
envolvendo o património e suas
"formas de expressão"Erro!
Marcador não definido.; "Pour que s'accomplisse le lent travail d'émancipation à l'égard des traditions, il faut que le passé devienne notre passé.: c'est uniquement au prix de cette appropriation qu'il peut cesser d'apparaître comme une détermination par essence hostile à la revendication démocratique de la liberté." "La question de l'éthique", Homo Aestheticus, Ferry, Luc, ed. Grasset, Paris, 1990, p.344. Assumindo o património enquanto experiência
global que atravessa outros
campos é necessário, de início, ter em conta os domínios da sua expressão;
o modo como estes se estratificam e modalizam a vários níveis,
podendo começar pelo da língua ao nível da frase. O discurso que se assim
se constitui, pode ser analisado enquanto re-presentativo — presença feita
discurso — do real e do simbólico que pretendemos abordar. De algum modo, pensar o património
pode eventualmente parecer absurdo
num contexto onde este se encontra ainda por definir, onde a sua observação
no seio das práticas quotidianas emerge, essencialmente, por entre esquemas
de valoração simbólica adentro dos diversos campos que cruza. O problema
passa igualmente pelas diversas formas de apropriação do passado, de que
fala Ferry na citação acima, que deve orientar a reflexão acerca da sua
capacidade determinista, acerca dos contextos motores da apropriação, acerca
das diversas formas sofisticadas, simples, fetichistas, mercantilistas, que
revestem as práticas mais globais em que se inserem. É na observação transversal de
diversas abordagens — da económica à estética, passando pela histórica,
acabando por se plasmarem todas na grande e menos nítida abordagem em termos
de "cultura" — que se observa a dispersão
que a contemporaneidade sente como força atomizante e, ao mesmo tempo,
geradora de contra-forças integradoras, das quais suspeitamos ser o património
um dos seus vectores. Esta dispersão começa por ser manifesta na pluralidade
de formas e sentidos que assume a expressão património
na contemporaneidade, variando de sentido conforme o contexto, mesmo ao nível
da morfologia da língua. Aceitando as modalizações de sentido e
as formas de representação que o património assume, variando com o contexto
que o enuncia e constitui, pode entender-se a dificuldade do seu
questionamento. Por um lado, a Modernidade cindiu o mundo material e o dos
conhecimentos em fatias pouco comunicantes, em saberes quasi-autónomos e
aparentemente fechados, suportados por sistemas abstractos de referência
entre os quais, por exemplo, Anthony Giddens destaca os sistemas de
"garantias simbólicas" e os "sistemas
periciais"[ii].
Estes saberes estão
"distribuídos" por esses espaços que pouco se tocam/se-deixam-tocar.
Em termos de rigor, e neste contexto, assim se justifica que a expressão
"património" só faça sentido
quando se refere a uma área patrimonial específica que seja
referenciada como, por exemplo, o património paisagístico, o arquitectónico,
o linguístico, etc.[iii]
Mas, por outro lado, especialmente quando se observam relações de poder e de
troca, a Modernidade apresenta em
paralelo, uma lógica económica de contaminação e conversão, característica
do capitalismo, que faz com que tudo possa vir a equivaler-se. É este
paralelismo, passível de ser observado também ao nível da expressão, que
complexifica e torna qualquer definição mais difícil. Por isto, as mesmas
regras que nos levam a definir com precisão a área patrimonial a que nos
referimos em qualquer enunciado, obrigam-nos igualmente a precisar ou ter
muito cuidado no emprego de certas expressões. Embora correntes no discurso
do senso comum[iv],
no discurso político ou mesmo no dos media,
neste contexto de precisão estas expressões perdem todo o sentido,
como por exemplo, "o património" por si só ou, o "património
cultural", ou "o património institucional...". Estas formas de expressão
ocorrem em áreas e sobre suportes propícios à contaminação
valorativa e ao exorbitar do espaço que as contém. É neste caldo (do simbólico)
que ocorrem fusões valorizantes por entre a fertilidade ambígua das expressões,
que só com o tempo se acabam por cristalizar em objectos ou imagens que as
representam. 2.1.1
Génese etimológica e percursos da expressão património
Erro! Marcador
não definido.
; Sendo uma expressão antiga, percebe-se
que tenha vindo pela história a assumir sentidos diferentes no tempo, para lá
da complexidade de matizes que hoje congrega, e de que é também alvo este
estudo. Patrimonium, o termo romano,
dizia respeito à legitimidade familiar envolvida na herança, em particular
sobre os seus direitos de propriedade/posse. A expressão define, na origem, a
relação particular entre o grupo, juridicamente definido, e os bens
materiais concretos que se agrupam sob o nome de património.
De certo modo, a relação primordial é sempre uma relação de posse,
concretizada na propriedade de objectos materiais e imateriais, que hoje mais
se actualiza no que essa relação tem de simbólico e transcendente. Esta
nova dimensão do termo não tem mais de duzentos anos e, só recentemente se
difundiu, até em termos semânticos, por todo o tipo de campos que dela se
apropriaram — património cultural, património ecológico, património genético,
— de uma maneira que André
Chastel apelida uma "métaphore saisissante", que se expande
assumindo um valor afectivo "plus marquée pour désigner certaines
conditions fondamentales de l'existence nationale, voire de l'existence
humaine. Cette évolution ne fait peut-être que traduire le trouble de la
conscience collective face à des menaces, plus ou moins précises et plus ou
moins obscures, pour son intégrité."[v] O facto é que a origem da expressão que
hoje se veicula se formou em França no seio de circunstâncias bem dramáticas
pós-revolução. Todo o tipo de degradação e profanações iconoclastas de
grupos de gente animada de furor libertário, vieram dar origem ao emprego,
pela primeira vez, da expressão vandalismo, pelo abade Gregório, que denunciava como
contra-revolucionários tais atentados contra a integridade do património.[vi]
É assim que o sentido da expressão que envolve os bens fundamentais inalienáveis
da comunidade, se estende às obras de arte, tanto pelos valores tradicionais
que estas transportam, como e especialmente por esta nova ideia de bem comum,
de riqueza moral e aglutinante de toda a nação. Já o modo como a expressão evoluíu nos
países anglo-saxónicos, a partir de Inglaterra, denuncia uma diferença
genealógica, especialmente relacionada com a especificidade dos problemas e
práticas específicas dos ingleses relativamente àquilo que normalmente
designam por Heritage[vii].
A verdade é que, relativamente à deslocação etimológica da expressão,
estamos em Portugal afectos à esfera francófona, até mesmo nas
terminologias, apesar de, por vezes nos depararmos com alguns cruzamentos
(raros), em especial aqueles que nos chegam do Brasil, na assimilação das
expressões americanas aportuguesadas, e depois transpostas para Portugal pela
força dos media. Que matérias são afinal abarcadas e
geridas por esta forma de expressão — "património" —
admitindo-se que a sua produção é resultante de uma determinada experiência?
Se entendermos a experiência como a síntese de vontades, actos, sensações
e relações envolvendo sujeitos, objectos, media
e campos de acção, até que ponto esta expressão resultante e
re-presentante, não de uma mas de experiências diversas, con-funde no seu
emprego e enunciação, experiências de características muito diversas e por
vezes, até inconciliáveis? A resposta a estas questões é um ponto
de referência que não iremos abandonar ao longo de todo o trabalho. Embora
esta inquietude passe essencialmente pelo campo simbólico em geral e pelo da
linguagem, em particular, esta demanda de sentidos e formas da sua criação e
gestão é para nós suficientemente importante para se manter activa durante
todos os capítulos deste trabalho. A linguagem é, afinal, o ente de mediação
revelador dos índices guia da nossa exploração e reflexão; uma referência
por opção reflectida mas que nem por isso deixamos que abafe a respiração
às ideias, conceitos e observações localizadas que se possam sentir menos
à vontade frente ao espelho meta-discursivo que o tratamento morfo-linguístico
pode implicar. 2.1.2
A noção de propriedade —
vizinhançasErro!
Marcador não definido.; Pela relação etimológica que a expressão
património mantém ainda com propriedade,
será interessante observarmos alguns cruzamentos e invasões semânticas que
se registam entre ambas as expressões. Ao contrário da expressão património,
propriedade não evidencia grandes mudanças com o decorrer do
tempo. O substantivo propriedade
deriva do adjectivo latino proprius,
e significa "que é de um indivíduo específico ou de um objecto específico,
sendo apenas seu, típico de."[viii]
Este objecto que pertence a alguém de modo exclusivo deve ser percebido na
amplitude do conceito de propriedade, englobando a posse,
implicando o poder sobre a coisa, independentemente da legitimidade de o
fazer, e a propriedade, inscrita no
direito de possuir a coisa. Daqui que a propriedade se defina como a relação
estabelecida entre o sujeito "A" e o objecto "X" quando A
dispõe livremente de X, e essa faculdade lhe é socialmente reconhecida como
exclusiva. O aspecto essencial da relação passa por essa exclusividade
reconhecida de A dispôr e decidir relativamente a X. Uma exclusividade
fundamentada precisamente na exclusão
de potenciais candidatos ao usofruto do objecto. Esta é, com algum rigôr, a
definição de propriedade privada conhecida no Ocidente. Mas o que nos
interessa é a propriedade pública, que afinal mais não é que a propriedade
privada tornada colectiva — propriedade privada da colectividade —
igualmente assente em alguma exclusão. Percebe-se aqui como esta noção se
aproxima da de património, na sua
constituição identitária de propriedade
do que é próprio/típico. Na propriedade pública, o sujeito da
relação pode ser o Universo Y1 ou o sistema social no seu conjunto,
conceptualmente diferente da soma dos sujeitos singulares que o compõem.
Dentro deste universo, todo o sujeito singular está, como tal e em rigôr,
excluído da relação[ix].
Portanto, o objecto de propriedade pública, só se pode constituir como
objecto de propriedade privada de um sujeito colectivo, excluído qualquer
sujeito individual. Por outro lado, o universo Y1, contrapõe-se a outros
universos Y (Y2,Y3,Y4...) relativamente aos quais se mantém válido o princípio
de exclusão.[x]
De qualquer modo, os termos privado e público não
atingem a precisão aqui necessária e a sua relatividade exige que se
especifique o universo a que se faz referência: por exemplo,
privado-individual, privado-grupo, público-colectividade, público-Estado,
etc. Uma precisão necessária devido à conotação/contaminação acima
referida e que pode paralisar a análise e a problematização do campo, se não
tiver em conta a genealogia arqueológica da constituição das expressões. Nesta relação de propriedade,
identifica-se ainda uma relação de poder, no modo como o proprietário é
passível do exercício das suas capacidades exclusivas de imposição da sua
vontade[xi].
Novamente aqui se descortinam contaminações semânticas no modo como o
património, entre outras funções sociais, se constitui como fonte de poder
do seu proprietário. Uma fonte de poder que se cruza com sentidos modernos e
antigos, já que a História nos mostra nas civilizações mais antigas do
"crescente fértil" (Egipto, Síria, Mesopotâmia) uma forma de
propriedade colectiva em que a terra pertence ao grupo social no seu todo, e
em que a propriedade privada é reservada apenas aos utensílios que o homem
fabrica por si mesmo. Mais para trás ainda, no homem primitivo, é mesmo possível
encontrar um vínculo místico entre pessoa e objecto[xii].
Enquanto parte integrante do grupo social
e de cada indivíduo, a Propriedade é algo
sagrado; isto explica a lentidão com que, no mundo antigo, se chega à plena
reificação da coisa possuída e, paralelamente, à formulação mais próxima
da contemporânea, do direito de propriedade. "O aperfeiçoamento da
instituição da propriedade privada individual acompanha geralmente o
progresso civil dos povos antigos e a transição irreversível da comunidade
política de tipo gentílico à comunidade política territorial: o Estado
tende a privilegiar juridicamente os indivíduos singulares, em desvantagem
dos grupos gentílicos. Ao mesmo tempo, dá origem a formas ingentes de propriedade pública."[xiii] Acreditamos ser possível sondar e
reconstituir a estrutura de relações que no tempo se foi conglomerando e
entretecendo para vir a produzir hoje o quotidiano e a polarização de relações
entre sujeitos, objectos e instituições que nos governam. O modo como evolui
a dinâmica destas relações, pode ser determinado, por exemplo, pelos
diferentes modos de constituição e defesa da propriedade pública, desde a
Modernidade até aos dias de hoje. Para tal, é necessário ir além do
indagar sobre as formas de enunciação que aqui iniciámos, pois acreditamos
que a construção do seu sentido se produz essencialmente no tempo, a partir
de práticas sociais e institucionais que é necessário observar e analisar.
Começamos por reunir algumas definições estabilizadas de património,
e ver que sentidos delas se depreendem, que práticas postulam, e qual o nível
de concordância entre estas definições. 3.
As definições de "património",
começando pelas mais estabilizadasErro!
Marcador não definido.; Para trabalharmos por sobre o património,
pelo menos enquanto experiência estabilizada, dentro e nas periferias do
campo, é necessário que o consigamos observar; pelo menos na sua
operacionalidade experiencial e conceptual. Como tanto as experiências
estabilizadas (do património) como os objectos (na sua fisicalidade) enquanto agentes
de mediação dessas experiências, não são apresentáveis neste texto, mas
apenas representáveis, seria conveniente iniciarmos este capítulo pelas
representações mais estabilizadas daquilo sobre o que queremos trabalhar. De
todas as representações, seleccionamos as mais definitórias e globais, como
o são as dos organismos internacionais de defesa do património — UNESCO
— e respectivas cartas, assim como as dos especialistas e teóricos da área/campo
que mais se debruçaram, teorizaram sobre o assunto. Assim, reunimos a seguir alguns extractos
definidores — no que se podem entender como as definições mais
estabilizadas — da noção de Património.
Estas vão dos textos normativos às definições mais teóricas, e são
reunidas de modo a, num breve relance, deixar encontrar concordâncias e
contrastes, assim como e especialmente, permitir problematizar o património
assim definido. Podemos sempre assinalar a limitação
deste corpus, mas acreditamos ser
representativo das diversas abordagens e olhares que cruzam o campo do património,
nas suas diversas formas de manifestação.[xiv]
Isto acontece porque concluímos apenas nestas manifestações definitórias
ser possível encontrar a síntese das representações
daquilo que tentamos questionar. 1. Convenção
de Haia — Protecção dos bens culturais em caso de conflito armado
— UNESCO, 14 de Maio de 1954- Artigo primeiro. Definição de bens
culturais Para a presente Convenção, são
considerados como bens culturais, seja qual for a sua origem ou propriedade: a) Os bens, móveis ou imóveis, que
representem uma grande importância para o património cultural dos povos,
tais como os monumentos de arquitectura, arte ou história, religiosos ou
laicos, os sítios arqueológicos, os conjuntos de construções, que enquanto
tais apresentem um interesse histórico ou artístico, as obras de arte, os
manuscritos, livros e outros objectos de interesse artístico, histórico ou
arqueológico assim como as colecções científicas e as colecções
importantes de livros, de arquivos ou de reproduções de bens acima
definidos; b) Os edifícios cujo destino principal e
efectivo seja o de conservar ou expôr os bens culturais móveis definidos em
a) tais como os museus, as grandes bibliotecas, os depósitos arquivisticos,
assim como os refúgios destinados a abrigar, em caso de conflito armado, os
bens culturais móveis definidos em a); c) Os centros que compreendem um número
considerável de bens culturais que são definidos nas alíneas a) e b), ditos
"centros monumentais". 2. Carta
de Veneza Conservação e restauro dos monumentos e
dos sítios - 31 de Maio de 1964 (...)Definições Artigo primeiro A noção de monumento histórico
compreende a criação arquitectónica isolada assim como o sítio urbano ou
rural que é portador do testemunho de uma civilização particular, de uma
evolução significativa ou de um acontecimento histórico. A noção
estende-se não apenas às grandes criações mas também às obras modestas
que adquiriram com o tempo uma significação cultural. (...) Artigo terceiro A conservação e o restauro dos
monumentos visa salvaguardar tanto a obra de arte como o testemunho histórico. 3. Convenção
do Património Mundial, Carta de Paris, 1972 Após uma série de considerandos
definidores das ameaças aos patrimónios cultural e natural do globo, a carta
inicia-se com o artigo primeiro, definição do "património
cultural": "- os monumentos: obras arquitectónicas, de escultura ou pintura
monumentais, elementos ou estruturas de carácter arqueológico, inscrições,
grutas e grupos de elementos que tenham um valor
universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência,
- os conjuntos: grupos de construções isoladas ou reunidas, que pela
sua arquitectura, pela sua unidade, ou pela sua integração na paisagem,
tenham um valor universal excepcional
do ponto de vista da história, da arte
ou da ciência, - os sítios: obras do homem ou obras conjugadas do homem e da natureza,
assim como as zonas que compreendem os lugares arqueológicos e que tenham um
valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico
ou antropológico." Artigo
2 Para os fins da presente Convenção, são
considerados como "património natural": - os monumentos naturais constituídos
por formações físicas e biológicas ou pelos grupos de tais formações que
tenham um valor universal excepcional do ponto de vista estético ou científico,
- as formações geológicas ou fisiográficas
e as zonas estritamente delimitadas constituindo o habitat de espécies
animais ou vegetais ameaçadas, que tenham um valor universal excepcional do
ponto de vista da ciência ou da conservação, - os sítios naturais ou as zonas
naturais estritamente delimitadas, que tenham um valor universal excepcional
do ponto de vista da ciência, da conservação ou da beleza
natural."(...) 4. Lei
nº13/85 do Património Cultural Português; Princípios fundamentais Artigo 1º O património cultural português é
constituído por todos os bens
materiais e imateriais que, pelo seu reconhecido
valor próprio devam ser considerados como de interesse relevante para a
permanência e identidade da cultura portuguesa através do tempo. Artigo 2º 1. É direito e dever de todos os cidadãos,
preservar, defender e valorizar o
património cultural. 2. Constitui obrigação do Estado e
demais entidades públicas promover a salvaguarda e valorização do património
cultural do povo português. (...) I.
O Significado da Classificação - Por que se classificam os bens culturais imóveis?,
Doc. 1 Normas e recomendações do IPPAR "A classificação de um bem imóvel
visa distingui-lo pelo seu valor histórico,
cultural ou estético,
e garantir a sua conservação ou fruição
pela comunidade, conferindo-lhe uma protecção legal e um estatuto
privilegiado. (...) As decisões de classificar os bens imóveis são sempre
fundamentadas em critérios de autenticidade,
qualidade e originalidade, ou também no facto desses bens constituirem testemunhos
documentais de natureza histórica, arquitectónica, arqueológica, artística,
científica, técnica ou social."[xv]
5. A
Noção de Património "...Au sens où on l'entand
aujourd'hui dans l'usage courant — sans parler des discours officiels
— il s'agit d'une notion globale, vague et envahissante à la fois, dont
l'apparition date de deux siècles à peine; (...) il est question tous les
jours dans les discussions de notre époque du «patrimoine culturel» qui
embrasserait légendes, mémoires, la langue même; du patrimoine «écologique»
qui concerne les particularités attachantes, sensibles, vitales, de la nature;
les dernières années ont même vu apparaître la métaphore saisissante du
patrimoine «génétique»...En s'élargissant, la notion prend une valeur
affective plus marquée pour désigner certaines conditions fondamentales de
l'existance nationale, voire de l'existence humaine."[xvi] 6. Património
Histórico "L'expression désigne un fonds
destiné à la jouissance d'une communauté élargie aux dimensions planétaires
et constitué par l'accumulation continue d'une diversité d'objets que
rassemble leur commune appartenance au passé: oeuvres et chefs-d'oeuvre des
beaux-arts et des arts appliqués, travaux et produits de tous les savoirs et
savoir-faire des humains. Dans notre société errante, que ne cessent de
transformer la mouvance et l'ubiquité de son présent, «patrimoine
historique» est devenu un des maîtres mots de la tribu médiatique. Il
renvoie à une institution et à une mentalité.
Le paradoxe du transfert sémantique subi par le mot signale
l'intrication et l'opacité de la chose.(...) Le culte rendu aujourd'hui au
patrimoine historique appelle donc mieux que l'habituel constat de
satisfaction. Il est le révélateur néglogé et néanmoins éclatant, d'un
état de société et des questions qui l'habitent."[xvii] 7. Documento/monumento "O monumento tem como características
o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das
sociedades históricas (é um legado à memória colectiva) e o reenviar a
testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos. (...) Já
não se trata de fazer uma selecção de monumentos, mas sim de considerar os
documentos como monumentos, ou seja, colocá-los em série, e tratá-los de
modo quantitativo; e, para além disso, inseri-los nos conjuntos formados por
outros monumentos: os vestígios da cultura material, os objectos de colecção,
os tipos de habitação, a paisagem, os fósseis e, em particular, os restos
ósseos dos animais e dos homens.(...)"[xviii] *
Riegl... e fazer análise. Erlebnis, cumulatividade das experiências
vividas corporificadas no objecto, aura, autenticidade e virtualidades. Observação
sintética Dos pontos 1 ao 3, observa-se uma
progressão. Esta inicia-se com a definição concreta de bens culturais, património
cultural, centros monumentais,
essencialmente através da referência ao género de objectos que os
constituem: "os bens móveis e imóveis de importância...". A
progressão chega à carta de Paris (1972) já mais preocupada com a definição
do próprio conceito de património
cultural. A definição é de novo feita com base na evocação do género
de objectos em causa e na sua relação com "um valor excepcional do
ponto de vista da história, da arte ou da ciência". Isto pressupõe uma
indexação do valor aos campos científicos, em última análise, fora do próprio
campo do património. A lei portuguesa, influenciada pelas
convenções anteriores, expande a sua abrangência e cobertura a um território
de tal maneira vasto que, potencialmente, tudo pode abarcar — "os bens
materiais e imateriais que, pelo seu reconhecido
valor próprio"... — é de uma extensividade que torna a lei quase
inaplicável *(ref. análise legal-direito cap.3).
Além disto, o "reconhecido valor próprio" pressupõe uma
imanência do valor no objecto, extremamente difícil de tratar, até
legalmente. No artigo 2º constitui-se legalmente um campo ético de acção
relativamente ao património, de abrangência à totalidade dos cidadãos. Por outro lado, a partir das definições
do documento do IPPAR, representando a face legal estabilizada da concepção
institucional do Património, é possível destacar alguns pontos fulcrais: — A finalidade
que se destaca como fundamento de toda a acção legal e de protecção, é a
"conservação e fruição pela comunidade". Fica também latente
que é o facto de esses bens constituirem um "testemunho"
(documental) o que lhes outorga capacidade para se candidatarem a serem
classificados e protegidos. Não é novidade que a concepção linear que
enforma esta vontade de preservação, desce aqui a uma forma de legitimação
pela comunidade e seu bem-estar. O que é novo é o facto de começarem aqui a
emergir formas de objectivização/materialização de imaginários sempre
valorizados (o "valor histórico e o estético", por exemplo) mas
nunca antes tão necessitados de corporificação objectiva. O
"testemunho" tem que ser "passado" às gerações
seguintes e é a tábua de salvação da identidade em extinção. O
"testemunho" não só é corporificado no objecto patrimonial (móvel
ou imóvel), como são igualmente corporificadas todas as atenções e vivências
que nele se acumularam[xix]
em tempos passados e só a sua resistência corpórea (superior à do corpo
humano) permitiu fazer chegar ao presente. Esta perspectiva pode ser emulada
pela da nave que, mesmo destroçada, pelo facto de chegar a bom porto (o
presente), deve ser preservada como testemunho do esforço e vivências que a
trouxeram. Por esta via, é a morte que opera a necessidade do depósito
investido no objecto. A efemeridade corpórea da vida do sujeito não pode
rivalizar com a perenidade do objecto valorizado pela intervenção e
"vivência com"; a menos que seja mumificado e tornado objecto.[xx] Relativamente aos pontos 5.
a 7., reflectete-se neles uma abordagem mais distanciada mas, ainda
assim, restrita ao registo sintético-conceptual do que se pode entender por património,
nos campos mais próximos aos autores: — o carácter comunitário de onde se
descola o valor inerente à noção; o carácter global de que a noção se
investe; a hiper-extensividade da noção a tudo o que queira abranger; as próprias
ambiguidades inerentes ao seu emprego em vários campos, alguns em conflito; a
cobertura de monumentalidade/valor que os define como patrimoniais, etc. Após esta breve observação do modo
como o património se representa, se manifesta na sua forma mais estabilizada,
podemos concluir que: a) Pela morfologia das lógicas pelas
quais evoluem estas definições é possível observar o cronos Moderno em que emergem as preocupações com a "perduração"
e os padrões de entendimento da
experiência que lhe servem de suporte. Estes padrões passam por uma radical
autonomização das diferentes dimensões da experiência, o que pressupõe uma
experiência fragmentada em esferas e campos autónomos; uma concepção
linear do tempo — sucessão cronológica — igualmente cimentada na
Modernidade. Isto pode ser observado, por exemplo, em "...um valor
universal excepcional do ponto de vista da história,
da arte ou da ciência," (3. carta de Paris, 1972), ou "testemunhos
documentais de natureza histórica, arquitectónica, arqueológica, artística,
científica, técnica ou social".(IPPAR, O
significado da Classificação). Por oposição a uma
concepção indivisa e pluridimensional da experiência[xxi],
pelo menos idealmente observada na sua completude, torna-se praticamente
impossível a qualquer uma destas definições atirgir aquilo que se pressupõe
serem os seus objectivos: cobrir na sua totalidade experiencial o objecto que
tentam definir. b) Das diferentes fontes de representação
do património aqui expostas, existe de facto um espaço de sentido comum, em
particular relativamente às razões que se induzem para justificar a preservação;
mas mesmo esse sentido comum evolui,
sensivelmente dos anos trinta até aos dias de hoje, descentrando o eixo da
História — valor histórico e pericial dos objectos — e colocando no seu
lugar o valor do interesse público/comunitário. Este último, um valor mais
indexado ao campo político. c) Dada a morfologia das lógicas pelas
quais evoluem estas definições, observa-se um crescente aumento da extensividade e abrangência definitória, do
tipo — "bens materiais e imateriais..." — que acreditamos ter a
ver com a sua entrada numa esfera muito mais global e mais afecta ao campo político
e às próprias pretensões reprodutivas do campo patrimonial, caracterizadas
por uma lógica operacional bem mais difusa que a esfera científica ou
pericial; d) Comum a todos estes intentos definitórios
é igualmente aquilo sobre o que nos vamos centrar já a seguir: o
facto de nenhuma das exposições se questionar minimamente acerca do perfil
de racionalidade do que estão a tentar definir. Seria de admitir que aqui, para efeitos
de representação, estariam apenas excertos
nucleares e definitórios que, por isso mesmo, não pressuporiam qualquer
argumentação acerca da razoabilidade do que pretendem produzir. Acontece que
a nossa pesquisa dessa defesa da razobilidade definitória se revela bastante
infrutífera. A lei, pela sua própria morfologia, não precisa de se
justificar ou explicar — reenvia a procura dos fundamentos para o legislador
e para o político constitucional. A generalidade dos textos mais periciais
que encontramos, ficam-se pela operação descritiva, reenviando a fundamentação
do que expõem para uma suposta evidência de stato
quo que se limitam a descrever. Por esta razão precisamente, somando-a a
todas as outras, tratamos no ponto a seguir a este, a problematização do património,
da noção de património,
questionando-a de um modo que as
noções adquiridas e estabilizadas da sua experiência a não questionam[xxii].
3.1
A urgência de problematizar a questão patrimonial — modos de
questionamentoErro!
Marcador não definido.;[xxiii] A iniciar esta parte é necessário
tratar a definição do problema
que se nos coloca.[xxiv]
Isto implica o arranque e desenvolvimento da experiência
concreta em que nos envolvemos — a investigação do património, suas
modalidades de constituição, enunciação
e investimento. Antes porém, talvez seja útil indagar como é possível
problematizar esta experiência, e definir melhor aquilo que se poderá
entender como "actos de problematização". No contexto em que nos encontramos,
problematizar é quase sinónimo de questionar[xxv],
antes de tudo, colocar questões articuladas numa matriz teórica que sirva de
suporte ao lugar de onde essas questões se colocam. A "questão"
será aqui uma célula constituinte do problema que se representa já enquanto
entretecimento de questões devidamente articuladas numa direcção, que logo
determina o espaço do problema. A
determinação deste espaço ou localização (topologia)
das questões adentro de um espaço maior, será então feita a partir
da qualificação/colocação dos juízos envolvidos nas próprias questões e
nas respostas possíveis, isto é, no campo de respostas delimitado pela direcção
que a pergunta/questão determina e na qualidade dos juízos aí envolvidos.[xxvi]
De algum modo, trata-se aqui da procura dos modos de constituição dos campos
e dos objectos, no sentido de descortinar as formas de automatização/instituição
dessa constituição. Trata-se de encontrar
"aquilo-que-faz-com-que-assim-seja..." e que boa parte das vezes é
opacificado pelos habitus[xxvii]
institucionalizados (não questionantes, inertes em termos de reflexão). Habitus
isentos, pela forma instituinte, da necessidade de serem questionados,
pensados, problematizados.[xxviii]
Se pensarmos em
configurar uma postura para a
abordagem que aqui tentamos desenvolver, esta passa também por uma dúvida
radical relativamente à generalidade das formas conceptualizadas com que
vamos deparando ao longo da investigação. Isto implica o questionamento
permanente do pré-construído depositado na linguagem natural com que
trabalhamos; aquilo que, até certo ponto, poderemos classificar como um
alerta céptico e metódico
indispensável ao solidez da progressão neste terreno.
A necessidade de
questionar o património provém do modo cristalizado como se constitui o seu
núcleo experiêncial que nele mesmo incorpora a sua inquestionabilidade. Uma
vez estabilizadas as formas de experiência que em que se balizam as
fronteiras do campo e seus modos de legitimação, suspeitamos que todo o agir
minimamente indexado ao campo, se cristalize em rituais e formas automatizadas
de acção. Nestas circunstâncias, o melhor que podemos fazer é tentar
mostrar a forma como os diversos agentes que encontramos no campo representam
uma realidade que é suposto ser a mesma, mas que parece variar, dependendo da
perspectiva de onde é observada. Uma vez observada a
vontade constituinte e definitória dos agentes que enquadram o campo, alguns
percursos centrais do vector definitório de experiências que se reclamam do
património, parece surgir como problema fundamental o do juízo específico
que esses agentes operacionalizam. O papel do juízo que eleva a entidade ou
objecto à categoria patrimonial; o modo como o juízo se manifesta ou oculta
sob os véus da evidência e outros. Um juízo que, para lá do monopólio do
uso subscrito a agentes (legítimados pelo) do campo, é suposto estar assente
numa homologia operacional que produz os
mesmos efeitos independentente do género de experiências envolvidas. A um outro nível de enquadramento, deve
ter-se igualmente presente, a noção da racionalidade valorativa que abrange
o juízo investido na experiência, sujeitos e objectos. 3.2
A produção do juízo como primeiro elemento questionávelErro!
Marcador não definido.; Aqui, e porque partimos em primeiro lugar
da observação das práticas estabelecidas e institucionalizadas,[xxix]
emerge precisamente essa prioridade da observação do que se faz, e dos juízos envolvidos no
seu desempenho. Por esta razão, a questão primeira que se coloca, 1.- pergunta acerca da categoria dos juízos
efectuados nos processos de decisão sobre a vida ou morte dos objectos[xxx],
e que os divide, no universo total dos objectos, entre
"patrimoniais" e "não-patrimoniais"; o mesmo é dizer,
entre dignos da perenidade e da conservação e, não dignos; entre a
dignidade de serem catalogados no campo do "valor protegido" (património),
ou não; 2.- A segunda questão indaga acerca das
formas e campos de fundamentação desses juízos. É necessário esclarecer já que, o
centrar nestas duas questões-pivot o cerne da abordagem à experiência
patrimonial se deve ao facto de, a partir destas se desdobrarem uma série de
questões em cascata. Esse desdobramento abre-se num tecido questionante,
sobre o qual reflectimos permanentemente, mas que nos reenvia para a
centralidade das questões acima enunciadas. É portanto a partir daqui que
nos parece sensato sondar o terreno em que nos deslocamos, tendo estes pontos
como referência. A primeira questão envolve antes de
tudo, a possibilidade de, a partir do processo de inventariação das formas
de investimento e acção sobre os objectos, o fazer emergir com maior ou
menor nitidez os contornos do campo simbólico que procuramos. Aqui se devem
descortinar as formações discursivas[xxxi]
e seus campos de acção e investimento; as regularidades da acção sobre
todo o tipo de objectos patrimonializáveis; enfim, se possível, levantar uma
axiomática centrada no objecto simbólico, de modo a recortar na generalidade
das características do objecto patrimonial, as que melhor se rentabilizam
para que pragmaticamente justifiquem o investimento levado a efeito no
objecto. Uma consequência das acções envolvidas
no campo que a primeira questão abarca é a de que os "objectos
patrimoniais", "classificados", salvos da sua condição efémera,
são inseridos numa grelha de valoração que os distingue e lhes dá sentido
de destaque e perenidade relativamente a todos os outros; uma categoria de
"valor protegido". Trata-se,
portanto, também aqui: a) de inventariar as diversas formas e modos como são distribuídos e
investidos valores e sentido em determinados objectos e não outros; b) trata-se de observar, particularmente, a morfologia
que adquire a dinâmica de investimento
e valoração dos objectos em consequência dos juízos sobre estes
exercidos. c) trata-se de encontrar, caso tal seja observável, a tipologia dos agentes, instâncias de agenciamento, mais
directamente implicadas neste género de investimento valorativo; d) trata-se ainda de, na generalidade
destas observações, detectar formas e
processos de opacidade e opacificação de estados e acções que não
correspondam, do nosso ponto de vista, à transparência estatutária que
delas se exige. Partindo do princípio de que é possível
desmontar a generalidade dos juízos investidos nas formas de valoração ou
depreciação que ocorrem sobre os objectos, cabe-nos aqui tentar
conceptualizar melhor estas operações.
Podemos dizer que é uma operação
de conversão o que acontece em simultâneo ao que chamamos investimento[xxxii],
de cada vez que um objecto comum é classificado e valorizado como
"património". A lógica base desta valoração/conversão assenta
na integração-constituição do objecto enquanto elemento de uma colecção.
Objecto e colecção que se enriquessem mutuamente; o objecto porque entra
numa textura de relações de contiguidade anteriormente constituída e já
valorizada; a colecção porque, com a integração do novo elemento, se
enriquece na sua extensão e peso estatutário na lógica serial que a põe
frente às outras colecções e objectos isolados. À frente *
poderemos ver, mais en concreto, a centralidade, para o entendimento do
património, destas operações
de conversão. Importa, para já, destacar a articulação que se estabelece
entre a classificação-inventariação-colecção e a valoração, com o juízo,
acima referido, por mediador. Importa
igualmente chamar a atenção para a hipótese
de "automatização" destas operações que, uma vez dinamizadas
num determinado espaço, poderão
aumentar a sua dinâmica ou manter o movimento "conversor" por
simples inércia, convertento automaticamente tudo o que seja introduzido no
campo. A introdução dos objectos na colecção,
no campo protegido, inicia-se com o
inventário. Esta operação
"patrimonializante" inicial, no contexto em que vivemos, é já uma
conversão virtual do objecto às suas novas funções. Mesmo que remoto e
intangível, o objecto inventariado, constando no inventário como fazendo
parte da colecção, adquire logo um estatuto diferente que lhe é consignado
pela força indexical do documento/acção de inventariação. 4.
Sobre o inventário, as modalidades e campos de inventariação
Erro! Marcador não definido.
Em termos expressivos, o "inventário"
está já razoavelmente conceptualizado. Achamos que a referência aqui a esta
expressão-conceito é imprescindível, porque, tal como outros
conceitos-chave, como por exemplo "acesso", "mediação"
ou "conversão" neste trabalho, o "inventário" no campo
do património é, operacionalmente, um dos actos, conglomerado de acções pivot
nos diversos processos de constituição deste campo. É igualmente uma das
formas institucionalizadas (i.e. "automatizadas") de conversão das
entidades e objectos abrangidos. Se buscarmos origens, de cuzamento semântico,
mais objectivas e básicas desta expressão, encontramo-las no processo de
arrolamento — o arrolar de bens — que por qualquer decisão jurídica ou
testamentária, pode envolver a inventariação do património de alguém, com
um determinado objectivo. O inventário que se pode estender ao
espaço regional ou nacional não é, basicamente, muito diferente do
"arrolamento"; difere por complexidade, uma vez que os
inventariadores são portadores de uma pré-classificação dos objectos e
bens a inventariar onde se devem integrar todos os que possam ser encontrados.
Neste inventário acontece uma maior pormenorização da descrição das
características específicas dos bens e objectos ao ponto de, para este
trabalho ser requerido o contributo de especialistas para a descrição dos
devidos objectos. Este é, sem dúvida, um acto ainda muito ligado à noção
de propriedade que legitima a relação do individuo com o objecto e abre ao
primeiro a total disponibilidade em relação ao segundo. O inventário, organizando o trabalho de
cobertura e registo total dos bens e da propriedade, é hoje o significante
que melhor suporta e sustenta a ratio
patrimonial enquanto primeiro trabalho que legitima a
cultura-ideologia-imaginário patrimonializante. Se fizermos um trabalho
arqueológico minimamente satisfatório, acabamos por encontrar a figura d'o inventário
entre as disversas figuras que a experiência na Modernidade constitui para
compensar a perda de autoridade da tradição e das fundamentações herdadas.
Esta compensação emerge no momento em que o universo do futuro, embora já
condicionado por figuras mestras como "o progresso" ou a ideia de
linearidade do tempo, mesmo assim se abre para uma infinidade de possíveis
que urge "inventariar" a partir do presente."Mas, por outro
lado, toda a acção se centra sobre o que existe concretamente, limitando as
possibilidades e, simultaneamente, suportando o trabalho contra os obstáculos
que isso coloca ao "tudo é possível". Ora, na dinâmica da
Modernidade, isso leva a arrolar todas as possibilidades catalogando-as,
descrevendo-as, congelando-as, etc."[xxxiii] Este trabalho passa pela imposição da
necessidade de cobrir todo o terreno em demanda dos bens esquecidos e a
registar, tal como, por exemplo, o trabalho da "ideologia ecológica"
passa pela globalidade dos estudos de impacto ambiental. As novas tecnologias vieram, por um lado,
ajudar a constituir esta noção totalitária de cobertura do inventário, mas
por outro, complicar a sua racionalidade de imposição — as razões por que
se impõe como indispensável e necessária. Com a actual capacidade de
reprodução total dos objectos, na sua realidade analógica e na sua presença
digital, mesmo que virtual, a presença do objecto original só parece ser
imprescindível no momento da reprodução. Isto não parece, no entanto,
passar pela cabeça da generalidade dos responsáveis pelo património e,
especialmente, porque essa capacidade de reprodução parece, aqui, ainda
muito longe. Só há pouco se tornou medida standard,
nos processos de inventariação, a utilização da fotografia...[xxxiv]
Isto parece dizer algo sobre as virtualidades do nosso real. 4.1
Casos concretos de experiências diferentes: os patrimónios da Igreja
Espanhola e PortuguesaErro!
Marcador não definido. Uma das ilustrações exemplares que aqui
podemos oferecer, relativamente a esta questão, emerge da comparação entre
os modos de tutela do património da Igreja em Espanha e em Portugal[xxxv].
O governo espanhol, por via do seu
monarca, dado as relações entre governo e Igreja não serem as melhores,
solicitou um acordo para a abertura de todo o património da Igreja
espanhola a um trabalho de estudo e inventariação. Este acordo foi
realizado, e o trabalho viria a ser feito por professores e investigadores
universitários, com particular destaque para os departamentos de História da
Arte da Universidade Complutense de Madrid. Por via deste acordo, o património
da Igreja foi ainda disponibilizado para outros estudos especializados e,
ainda, para exposições de tipo museológico. Para o próprio governo, este
acordo foi um sucesso, porque as portas da igreja — mosteiros, conventos,
abadias e outras propriedades com os respectivos recheios, — há séculos
que se mantinham fechadas ao público secular, e quando se falava em termos de
"riqueza da igreja", particularmente "riqueza
patrimonial", ninguém adiantava números ou mesmo descrições mais
pormenorizadas e totais. Independentemente das estratégias políticas
ou da disponibilidade da Igreja espanhola, ficou claro que, o argumento que
mais despoletou o processo desta "abertura de portas" foi a ameaça
que veio a constituir-se com a abertura de livre circulação entre fronteiras
na Europa Comunitária. Este fantasma, bem concreto, que pairou e ainda paira
sobre os países mais ricos em património histórico e, ao mesmo tempo,
pobres em termos de capital financeiro, mercantil ou industrial, veio fazer
com que governos como o espanhol se apressassem em todo o tipo de classificações
e inventários patrimoniais ainda por fazer, de modo a evitar fugas para lá
das fronteiras. Continua aqui a perceber-se a íntima relação entre inventário
e propriedade na ratio que
fundamenta toda a acção. Por sua vez, em Portugal, o que nos foi
dado a apreciar foi um panorama totalmente diferente do espanhol devido,
essencialmente, às diferenças nos modos de tutela da
Igreja. Questionando vários técnicos e responsáveis portugueses com o
exemplo espanhol na mão, o que nos foi reafirmado foi a impossibilidade prática
de um tal acordo em Portugal. É que a Igreja portuguesa, relativamente ao
património, como relativamente a outras questões, funciona com total
autonomia das paróquias. Cada pároco é responsável e administra como muito
bem entende a totalidade dos bens adstritos à sua paróquia. Assim, um inventário
idêntico ao espanhol, sgundo os técnicos do IPPAR,
teria de ser "conquistado palmo-a-palmo", e sem quaisquer
garantias de cobertura total do território. O que nos mostra este relato é que são
duas experiências bem distintas, a portuguesa e a espanhola, em particular no
que se refere ao património eclesiástico. Diferentes formas de administração,
mais e menos centralizadas, produzem aberturas ou bloqueamentos de acesso. No entanto, algo as homologiza. Uma
conseguida e outra não, mas ambas se energizam na vontade da inventariação
total, na constituição do "grande catálogo nacional", e no
potencial usofruto da sua força indexical. Uma vontade que diz: — "é preciso tudo inventariar", dentro de uma lógica que se pode já
considerar ideológica, pelas suas formas de manifestação. O que interessa
ao sujeito/agente movido por esta teleologia específica, não é já uma
finalidade localizada mas um valor absoluto, enquadrado por uma racionalidade
axiológica definida num universo comum apenas aos homólogos desse sujeito
— os que partilham a sua matriz de valores e pensam como ele. A estrutura da
sua racionalidade é polarizada numa exigência posta como incondicional; o
sujeito está ao serviço de uma causa suprema que pode ser de ordem ética,
estética, religiosa, política ou outra. A sua conduta orientada por esse
imperativo, desfoca as consequências da sua acção, e limita os padrões de
lucidez da sua progressão. O carácter absoluto desse valor introduz um
elemento de irracionalidade na sua conduta quando esta é colocada ao lado das
outras condutas supostamente mais racionais e previsíveis. Este exemplo
permitiu-nos assim observar o carácter de racionalidade axiológica, no
sentido em que esta é definida por Weber[xxxvi],
que governa a acção e sub-determinação dos sujeitos envolvidos no campo
patrimonial. Para melhor observarmos outras fontes da
racionalidade que por vezes se excedem no campo patrimonial, precisamos de
entender, na experiência patrimonial, o lugar que ocupam o imaginário e os
objectos simbólicos; o mesmo é dizer, o modo como essa experiência se
organiza segundo a modalidade simbólica com suporte num imaginário constituído
no campo. 5.
Experiência patrimonial — imaginário e objectos simbólicosErro!
Marcador não definido.; Antes de tudo, o objecto simbólico é um
objecto mediador do reconhecimento. É através dele que da separação se
chega ao encontro, e ao encontro do que é comum (ao outro). Trata-se de um
objecto relacional, em que a relação se constitui como eixo pivot do acto em
que ele se envolve. Por esta característica mesmo, e outras dela dependentes,
é que este tema se constitui como central relativamente à questão do património,
e mesmo às questões mais gerais da cultura. Se buscarmos o sentido etimológico
do que se pode entender que é o simbólico,
encontramos essencialmente o objecto partido, cortado (a cesura) em dois, e
cujos portadores conservam cada um sua parte (que se ajustam uma à outra)
como testemunho de um pacto a ser cumprido. Além disto, intervém toda a
funcionalidade misteriosa da palavra que "segura" o crédito e a
dimensão do pacto, ou seja, dos
acreditados na relação. Não é por isso que a expressão perde a sua
heterogeneidade de sentido ou dispersão semântica quando se tenta
"agarrá-la" ao nível do conceptual e das suas propiedades mais
abstractas. É que esta é uma expressão sempre cheia de substância e matéria,
sejam elas de sentido ou de morfologia. É a partir delas que se pode arrancar
para a análise e, por isto, as generalizações são difíceis; não há
substâncias iguais; há, quando muito, contextos de emergência idênticos. Há
um reenvio que termina na reconjunção com as origens. "Sem uma metafísica
do sagrado, do divino, de algo que fale das remotas profundezas não
directamente atingíveis parece difícil definir o símbolo, caracterizado
(...) por uma verdade que está noutro lugar".[xxxvii] O símbolo separa e reúne ao mesmo tempo
e é, por isto, evocador da comunidade que se atomizou em pedaços e quer
recompor-se na unidade, ou pelo menos em unidades contíguas. De algum modo o
sentido simbólico encontra-se nas formas de cesura e reunião específicas ao
objecto que transporta a simbolicidade. "Le symbole n'enserre rien, il
n'explique pas, il renvoie au-delà de lui-même vers un sens encore dans
au-delà, insaisissable, obscurément pressenti, que nul mot de la langue que
nous parlons ne pourrait exprimer de façon satisfaisante".[xxxviii] Para lá disto, o símbolo exige uma
forma de envolvimento e participação que compromete o actor nessa experiência.
Uma experiência em que o símbolo se caracteriza por se manter
permanentemente sugestivo relativamente àquilo que cada sujeito nele pode
encontrar e perceber. Até certo ponto, o mesmo se passa relativamente aos
dispositivos de racionalização da experiência localizada no tempo como, por
exemplo, a análise que fragmenta e pulverisa as formas de percepção,
inviabilizando a captação de outras riquezas. Tudo vai depender das formas
de percepção estabilizadas nessa época. Do modo como essas formas simbólicas
se cristalizam na produção de objectos manipulados pela experiência como sólidos.[xxxix]
Para Gilbert Durand, o símbolo apresenta
três características principais: a) O seu aspecto concreto enquanto
significante — sensível, imaginado, etc; b) A sua especificidade optimizada para
evocar um significado — pelo modo como dá a conhecer, sugere, epifaniza; c) A necessidade que implica de mediação,
por envolver um significado que não se dá a perceber directamente. É preciso aqui encontrar o papel do símbolo
enquanto mediador entre a «presença» e a «re-presença». É enquanto
mediador de sentido que mais nos interessa observá-lo, porque nessa função,
o corpo sensível que é investido de sentido e se oferece à mediação,
geralmente excede esse
investimento; torna-se imprescindível como qualquer medium, porque é o único
que permite a relação com o inefável. Como única possibilidade de revelação,
acaba por se constituir como a epifania de um mistério[xl].
"Uma imagem de valor simbólico é a que contém o que Souriau
chama o «anjo da obra», quer dizer, a que incorpora um conteúdo que a
transcende"[xli].
É nesse estatuto de intermediário, entre o transcendente e o
imanente, que lhe podemos encontrar a "tensão criadora" que suporta
aquela excedência. A "metáfora viva" que se instaura em
vez de, e produz novos sentidos. É igualmente aí, no novo território de
ninguém que produz na excedência — como a erupção vulcânica que estende
a terra com o magma pelo mar adentro — que o símbolo gera a sua
ambiguidade. Contrapõe-se aqui à resolução e definição que caracteriza o
signo. Essa ambiguidade e exclusividade mediadora, levam-no à auto-referência;
passa a valer por si mesmo e pela sua evocação, pela repetição das evocações.
Algo que encontramos no seu poder de ressonância e reverberação da mensagem
que incorpora.[xlii]
Repare-se no potencial atractivo em que
se constitui o símbolo para
qualquer vontade de apropriação. O controlo a que se presta, derivado desse
seu estatuto instrumentalizável e rendível. Neste contexto, a razão e a ciência
limitam-se a vincular os sujeitos com as coisas, mas o que vincula os sujeitos
entre si, passa por estas formas de representação do afectivo e do vivido, a
maior parte das vezes incorporados na imagem (simbólica).[xliii]
Se recortarmos os eixos de articulação destas esferas — como esperamos
melhor observar mais à frente — encontra-se uma lógica holista e fusional
do tipo da religiosa e mítica, frente a uma racionalidade analítica e
segmentarizante, típica da do Iluminismo e da Modernidade. Neste trabalho, a própria intuição por
vezes demora a lá chegar; tem que envolver um trabalho de síntese e simpatia
dentro de uma determinada visão-do-mundo. Esse trabalho de simpatia pode
atingir a especularidade tão
característica do simbólico, tal como Cassirer mostrou na sua Filosofia das Formas Simbólicas, pelo modo como o espírito delas
necessita para nelas se reflectir e materializar.[xliv]
Sendo de reter esta característica especular inerente ao simbólico, os
atributos que mais nos interessam passam por outras zonas do vasto território
do simbólico. Passam pelo que é caracterizado
por Umberto Eco como o modo simbólico que "pressupõe sempre e em todo o caso um
processo de invenção aplicado a um reconhecimento. (...) É um processo
(...) que produz a nível semântico uma nova função sígnica, associando a
expressões já dotadas de conteúdo codificado novas porções de conteúdo,
o mais possível indeterminadas e decididas pelo destinatário. (...) O que
permanece indiscutível é que, por detrás de toda a estratégia do modo simbólico,
existe, para o legitimar, uma teologia, quanto mais não seja a teologia
negativa e secularizada da semiose ilimitada."[xlv] A pluridimensidonalidade e pregnância do
símbolo reflectem-se na generalidade dos objectos que o encarnam. No tempo ou
no espaço, a sua existência depende da dinâmica das suas relações com uma
comunidade de sujeitos que o identificam e, assim, criam a rede que o
sustenta. A experiência que lhe dá acesso é totalizante, tal como a lógica
que priveligia é uma lógica holística, atenta à complementaridade possível
das relações entre sujeitos. É também com base nesta forma de operação
articulada nas relações que emergem nos processos (simbólicos) sociais, que
os interaccionistas simbólicos introduzem todas as suas formas de abordagem.
Para eles o sentido não é imanente ao objecto mas decorrente das relações
sociais entre sujeitos, centrada a observação nas capacidades
interpretativas e construtivas dos actores sociais, em contraposição, por
exemplo, aos funcionalistas. O termo foi introduzido por Blumer em 1937, e
este resume os princípios dessa abordagem deste modo: a) Os seres humanos agem, relativamente
às coisas, com base nos significados que essas coisas têm para eles; b) Estes significados emergem a partir da
interacção social; c) A acção social é resultante do
ajustamento de linhas de acção individuais.[xlvi] Quando o modo simbólico se observa e
estuda nestes termos, começa a ser lícito falar de um imaginário colectivo
que é preciso ter em conta sempre que se aborde uma questão que cruze experiências
investidas da sua forma de operacionalidade. 5.1
O Imaginário SimbólicoErro!
Marcador não definido. O imaginário — de um modo muito lato,
a generalidade dos elementos[xlvii]
configurados a que o sujeito acede por via da memória e da consciência,
independentemente de qualquer presença material concreta, é algo que tem
sido observado na sua perspectiva social, tanto por psicólogos como sociólogos.
Do arquétipo Jungiano,
iminentemente social, às memórias colectivas
de Halbwachs, passando pela imaginação
e imaginário sartrianos, se observa
em todos a constituição, aparelhamento de uma comunidade de sentidos que
solidificam as referências e as identidades. A constituição de um imaginário
social é formada por boa parte dos elementos já referidos na génese e
constituição do símbolo. O primeiro a destacar é a sua capacidade de diluição
das resistências que se deparam ao sujeito e, ao mesmo tempo, a
disponibilidade da força emergente do consenso que ele gera[xlviii].
Por isso, é bom observar também o imaginário na sua perspectiva
teleológica, não como um lugar ou domínio em que aparecem imagens e
objectos, mas como um lugar do "projecto", da propensão para,
independentemente do que seja. Em termos axiológicos, dir-se-ía que o imaginário
joga com várias oposições, eixos semânticos e isotopias que satisfazem
necessidades permanentes no quotidiano dos individuos; elas podem ser o
desejo/não-desejo(indiferença)/indesejo(ódio); o acessível/inacessível, a
esperança/desespero, etc. O imaginário constitui-se aqui na promessa e no
"como se" em que o sujeito se investe na vida social. O imaginário
ajuda a vencer as resistências sendo um modo mais económico de contornar as
contingências, pela segurança que a crença, a promessa, a protecção
contra o desgaste que esta comunidade imaginária oferece, até pelo simples
facto de poder ser invocado, em princípio, quando se quiser. Enquanto factor de mediação, o imaginário
tem igualmente que ser observado na sua função de representação do objecto
que se deixa assimilar e modular pelos imperativos pulsionais do sujeito,
assim como pelos modos de acomodação do sujeito ao contexto objectivo. O
imaginário instala-se no sujeito por uma dinâmica do equilíbrio,
representando-se como tensão de duas forças de coesão, mas com lógicas
antagónicas. O que tentaremos mostrar é precisamente a
dimensão imaginária que atravessa todo o campo do património e que
cristaliza os seus rituais de reverência e valoração na experiência
canonizada pelo campo[xlix].
Uma das críticas constantes que as análises
sociológicas destacam na abordagem à sociedade capitalista, de mercado,
objectualizante, é precisamente o perigo do estrangulamento a que sujeita
qualquer tipo de imaginário emergente, pela sua eventual omnipresença
sufocante; o sujeito é "presente" a tanto objecto e tanta imagem,
tanta alternativa e abundância de referências numa tal proximidade que, a
simples capacidade do reflexo, a distância necessária à constituição de
um imaginário próprio, não se faz sentir, não aparece. A exploração do espaço do imaginário
por todo o tipo de solicitações no actual contexto de mercado é ilustrada
por inúmeros casos, mais ou menos contundentes.
Pelas virtudes da analogia, podemos partir do mais comum e frequente
para o mais institucional e "pesado". Quando o criativo publicitário
quer vender um determinado produto, um automóvel por exemplo, sabe que esse
produto-automóvel vem já de fábrica alinhado com características específicas
para um determinado público-alvo; esse público está mais ou menos garantido
como "atento" à mensagem. O criativo tem, essencialmente, que criar
um imaginário acopolado ao produto, que possa "olear" a vontade de
aquisição desse público. Então, para vender um carro desportivo, é
preciso embrulhar o produto em cores de liberdade
e fruição total da estrada, do sol
e do vento; é preciso oferecer, com o carro, a subida de atenções, de
todos, e em particular do objecto desejado, a que o sujeito possuidor vai ter
acesso; e é preciso, acima de tudo, deixar todos os sentidos abertos na sua
pregnância, para que as expectativas se reproduzam e dêem lugar à aquisição.
O mesmo se passará para a venda de um carro de luxo ou um Jeep, na criação de ideias envolventes e imaginários específicos
desencadeadores da aquisição. A lógica do consumo penetra as instituições,
até pelo imaginário, no momento em que alguém, com poder institucional,
decide traçar uma estratégia, planear um projecto de acção, para atingir
um determinado objectivo que não tenha sido manifestamente evidenciado como
socialmente necessário. Uma das razões pela qual existe uma
certa homogeneidade operativa e narrativa entre o imaginário criado pela
publicidade e o imaginário mais institucional, é pelo facto de ambos serem
hoje forçados a passar pelos mesmos media,
com processos de produção e acesso absolutamente idênticos. A história
mostra, essencialmente, a aceleração deste processo básico de estímulo-resposta,
ainda adoptado mais ou menos estrategicamente pelas instituições que têm
acesso a determinados imaginários; da sua capacidade de os costituirem como
instâncias de mediação para a prosecussão dos seus objectivos.[l]*(ref)
Se no início do século acontecia o caso de um elemento imaginário saltar
para o real, isto é, tornar-se concreto por acção de expectativas, forças
e energias concertadamente investidas num objectivo, então, algum organismo
aparecia para administrar esse novo elemento concreto, "conquistado ao
imaginário". Hoje, podemos dizer que, em princípio, a emergência
expontânea de uma expectativa ou de um determinado imaginário é
praticamente impossível; essas próprias emergências, criações ou construções,
são produtos institucionais devidamente "certificados". É possível clarificar o discernimento
deste tipo de imaginário através de alguns dos seus traços. "O
primeiro diz respeito à polaridade de base entre o que Koselleck chama o
"espaço da experiência" e o "horizonte de expectativas".
Por "espaço da experiência"
entenda-se o conjunto de heranças do passado cujos traços
sedimentados constituem de algum modo o solo sobre o qual se apoia aqui que se
pode designar por uma Kulturwandel.
Mas o espaço da experiencia só existe polarizadamente oposto a um horizonte
de expectativas sobre o qual se projectam as previsões e as anticipações,
as crenças e as esperanças, as utopias, que dão conteúdo ao futuro histórico."[li]
Conclui-se, por isto, que de facto é das expectativas que se sustenta
a manutenção de um imaginário. Um povo ou um grupo idealmente com todas as
suas necessidades satisfeitas, deverá ter um imaginário necessariamente mais
pobre, do tamanho das suas expectativas. É a necessidade de uma orientação
no devir da passagem do tempo que traça o vector que liga a memória
colectiva e o horizonte de expectativas; isto para já não referir a
qualidade que se investe na vivência com sentido traçado. A observar ainda, é o facto de, para lá
da administração de todos os elementos concretos a distribuir pelos
sujeitos, a instituição aspira e consegue, essencialmente, regular em
paralelo os imaginários possíveis que se apresentam como ingredientes de
consenso por excelência. Já quanto ao modus operandi dessa regulação
institucional contemporânea é que se podem cada vez mais observar as
homologias com os mecanismos de mercado, em particular os da publicidade, que
alimentam e distribuem, criando as próprias necessidades e fornecendo o
alimento para a sua satisfação. Neste panorama, é insensato criar
necessidades, - um imaginário específico - que não possam rapidamente ser
satisfeitas, pelo menos adentro dos sectores temporais que medeiam entre eleições.
Em termos mais pragmáticos, a fertilidade na criação de novas configurações
a inserir no imaginário, está fortemente balizada por estes condicionalismos
políticos e mercadológicos; é preciso, na prática, ter já em armazem
"aquilo" que se promete, no momento em que se faz a promessa, em que
se adiciona um elemento ao imaginário, para
o qual se propicia um desejo. É que o tempo de espera para a sua satisfação
tem naturalmente vindo a encurtar[lii].
O cuidado com a execuibilidade do imaginário que se inscreve na promessa, tem
vindo a empobrece-lo; as grandes imagens simbólicas e referências,
naturalmente as mais distantes e desejadas anteriormente, têm vindo a
desaparecer. Já só se deseja o que se pode ter, rapidamente.[liii] Este processo de objectualização total,
necessidade de presentificação material que asfixia o imaginário, acontece
paralelamente ao desenvolvimento tecnológico e à nova relação de
proximidades (proxémica) que este cria, nos domínios do acesso geral,
eliminação das distâncias e delapidação das auras ainda existentes[liv].
Por outro lado, imaginário e memória
formam um só componente no que diz respeito à estabilização e regulação
da "coisa comum". "No que diz respeito, em particular, à memória
social, constatamos que as imagens
do passado legitimam geralmente a ordem social presente.. É uma regra implícita
pressupor uma memória partilhada entre os participantes em qualquer ordem
social"[lv].
Existe neste espaço uma certa facilidade de aquisição de sentido,
uma operacionalidade facilitada para a regulação (por quem a queira
assumir). Observa-se aqui a territorialidade fácil da imagem que adquire
sentido sem necessidade de relação específica com o símbolo; o vago é
mais que suficiente neste espaço em que o objecto se projecta e estende ao
suscitar desejo ou produzindo identidade. Se aceitarmos, de algum modo, uma
nova proxémica nas relações sociais com os/dos aparelhos de Estado, a noção
de territorialidade, essencial a esta questão e tradicionalmente enraizada
numa simbólica do território e do enraizamento, é transferida, na
contemporaneidade, para uma axiomática dos fluxos mercantis e todo o imaginário
objectivisado sobre um território abstracto e apenas com um código de inscrição,
propriedade dos poderes do Estado.[lvi]
Toda esta relação imaginário-poder(es) é bem destacada na história das
mais diversas nações pelo modo como os meios que formam e guiam a imaginação
colectiva como, por exemplo, os dispositivos institucionais de gestão do
capital simbólico colectivo, são estrategicamente orientados para os valores
inerentes a esse poder, favorecendo o fortalecimento da sua legitimidade. 5.2
A Dinâmica Simbólica na estática geral; funções de estabilizaçãoErro!
Marcador não definido.; O símbolo percebido na sua vivacidade e
irredutível ao espartilho conceptual, pode ser observado, em primeiro lugar,
adentro de uma funcionalidade exploratória.[lvii]
Exactamente como um instrumento de detecção (scanning) que vai
escrutinando o que lhe aparece pela frente no mundo dos sujeitos, e
convertendo sentidos aleatoreamente, dentro de uma lógica do imaginário em
que quase todas as combinações são possíveis. Esta primeira função
liga-se à segunda pelo modo como os sujeitos partilham a indeterminação e o
pressentimento intuido em que o símbolo se constitui como substituto.
Até certo ponto — e para o nosso tema este é muito importante — o símbolo
está lá "em vez de", para servir de resposta, de solução ou
satisfação a um conflito, um desejo ou um problema para o qual os sujeitos não
encontraram resposta directa no seu quotidiano mais real e encarnado de
objectos resistentes à sua modelação funcional. Um quotidiano em que para lá
do acordo necessário entre sujeito e comunidade acerca dos objectos comuns,
surge a verificação mais recente de que esse acordo é mais fácil e exequível
sobre objectos específicos (mediadores) para tal criados, e não já
existentes e com narrativas anteriores. Emergem aqui as terceira e quarta funções
de mediação e unificação, intimamente ligadas, que caracterizam o objecto
"substituinte" na experiência dos sujeitos. Sabe-se que estes têm
necessidade de condensar toda a experiência parcelizada da comunidade numa síntese
unitária e funcional, operacional em termos vitais e de percepção do mundo. Todas as outras funções que se seguem são
desdobramentos das anteriores, mas nem por isso menos importantes, pelo menos
para melhor percebermos o seu tipo de acção. Emergente do papel
unificador do símbolo está a sua função pedagógica
e por vezes até terapêutica no
modo como a participação numa força ultra-individual gera a identidade do
sujeito e o seu modo-de-estar-com-os-outros; isto é demonstrado por H.P.Jeudy
até ao nível da acção e do simbólico objectivado."A exposição da
transformação dos modos de produção, de seus efeitos sociotécnicos, é
seguida de uma nova apologia da cultura técnica utilizada como meio terapêutico
para administrar os conflitos sociais. Após a desestruturação provocada
pela crise económica e as mutações tecnológicas, a consideração presente
aos patrimónios industriais se dá como uma grande figura terapêutica: os
ecomuseus permitem administrar os efeitos da dilaceração, da ruptura nestas
bacias de emprego onde os operários tiveram de abandonar o seu
trabalho."[lviii]
Em Portugal, por exemplo, o mesmo se passou relativamente às
"artes e ofícios tradicionais" que em boa parte se mantiveram e
mantêm ainda artificialmente com ajudas e subsídios que, nalguns casos,
mascaram os índices de desemprego de zonas mais atingidas pela desertificação
laboral.[lix] Esta função pedagógica e terapêutica
é igualmente uma função socializante
que destaca a comunicação com o meio envolvente e os seus modos-de-participação.
A História é rica de épocas e civilizações tão mais punjentes quanto a
riqueza e complexidade da sua simbologia integradora. Pensar o historiador
activo é vê-lo capaz de reviver com rigor, mesmo que virtualmente, todas as
narrativas e sujeições simbólicas da época que estuda e que o podem ajudar
a entender as forças de integração nesse tempo e nesse espaço; pelo menos
acredita nessa sua capacidade de reprodução imaginativa, mesmo que ilusória,
com ou sem documentos comprovativos[lx].
É aqui que o simbólico melhor se caracteriza na sua universalidade e
especificidade como ponto de convergência e condensação de conhecimentos e
afectividades, no modo como enquanto instrumento de compreensão em todos os
possíveis do acordo, atravessa, do individual ao colectivo, todos os níveis
da relação. Colocando o racional entre parenteses, a irradiação simbólica
anima todas as analogias e equívocos que emergem no imaginário.[lxi] É ainda recortada uma função de
transcendência, no que respeita à capacidade do símbolo de saltar as resistências
hà pouco referidas, estabelecendo relações entre forças antagonistas,
apagando oposições, e criando um statos quo ontológico muito próximo do mágico. Mas a função que mais nos interessa é a de ressonância,
que se destaca quando se distingue entre símbolos mortos e vivos. Os
primeiros são assim caracterizados por não encontrarem eco na memória
individual ou colectiva dos sujeitos; são apenas o conteúdo fossilizado de
uma gaveta do Arquivo e da História. Por
outro lado, quando os objectos ou as imagens desencadeiam no sujeito alguma
ressonância mais ou menos vibratória, é sinal de que estão vivos na sua
propulsão simbólica. Esta vida ou morte dos símbolos está bem localizada
tanto no tempo — que vai deixando entrarem os símbolos para a História na
sua objectividade fossilizada — como no espaço, que reparte e coloca na memória
de cada colectividade os seus símbolos específicos, que noutro espaço não
funcionarão como tal. Para o Indu que vive a reflexão védica, a vaca tem um
interesse espiritual que o criador holandês desconhece por completo. Mas o
que aqui nos ocupa são as enunciações e actividades relacionadas com o
património que, quase automaticamente, associamos à variável
"tempo". Uma das razões por que isto acontece prende-se com a
identidade morfológica do "tempo" enquanto cadeia
contínua de ocorrências localizadas na sua "cartografia", e a
mais forte dimensão significativa da expressão "património" que
ocorre enquanto cadeia de valores relativamente localizada, que adquire
sentido, na mais vasta rede axiológica do social. Um reflexo dos tempos actuais alerta-nos
para o modo como as próprias instituições "farejam" para detectar
e adoptar objectos com o máximo rendimento simbólico num panorama de rarefacção
das simbólicas fortes, isto é, das que num determinado momento fazem
reverberar e ecoar a sua enunciação em determinados campos. "As ciências
humanas punham em destaque o facto de qualquer poder, designadamente o poder
político se rodear de representações colectivas. Para tal poder, o domínio
do imaginário e do simbólico é um importante lugar estratégico.(...)
Exercer um poder simbólico não consiste meramente em acrescentar o ilusório
a uma potência real, mas sim em duplicar e reforçar a dominação efectiva
pela apropriação dos símbolos e garantir a obediência pela conjugação
das relações de sentido e poderio"[lxii] Queremos apenas com isto deixar aqui em stand
by a explicitação das circunstâncias em que o simbólico se constitui
como a melhor forma de controlo do imaginário. Como já acima mostrámos
a sua óptima morfologia para estes usos instrumentais, mais à frente*(onde)
tentaremos mostrar igualmente como esse agenciamento é operacionalizado
entre-campos, que lógicas operacionais o articulam, e quem fica a ganhar o quê
com isso. 6.
ConclusãoErro!
Marcador não definido. Neste percurso, colocámos algumas questões
às diversas formas pelas quais o património se faz representar, e observar
mais demoradamente o modo simbólico que envolve a generalidade das suas
representações; a centralidade das dinâmicas simbólicas que habitam o
imaginário-tipo em que o património se constitui. Caracterizada a generalidade dos
problemas metodológicos de produção e de leitura que este trabalho encontra[lxiii]
passámos, neste capítulo, a uma fase mais
específica que tenta abrir, por duas vias essenciais, o caminho para a análise
e abordagens possíveis à experiência patrimonial. Assim: a) Uma primeira via tenta detectar os
modos possíveis de problematização do património, o mesmo é dizer, os
modos de questionamento e definição
do que aqui se busca — a experiência patrimonial. Tenta, essencialmente,
despistar os diversos modos de emergência e enunciação, do mais discursivo
ao mais pragmático, evidenciados nas diversas dimensões em que a experiência
patrimonial se manifesta e constitui na sua totalidade. Esta detecção dos
diversos modos de emergência da experiência acontece imediatamente antes,
quando não em simultâneo, com a sua problematização,
de um modo que tenta cruzar e ultrapassar a forma positivista que
estatui e delimita apenas o imediatamente visível, sem o questionar. Foram inicialmente observados os
segmentos essenciais que percorrem a linha etimológica e, depois, as diversas
formas de constituição do sentido da expressão património. Este ponto começa com uma cartografia das enunciações
envolvendo a expressão património,
passando-se de seguida à etimologia e desdobramento de usos e significados,
assim como da observação de algumas raízes conceptuais que investem sentido
na expressão, como é o caso de propriedade
e interesse público[lxiv]. Continuando esta exploração das
diversas formas de enunciação, e passando às mais estabilizadas, são a
seguir destacadas e analisadas, as que, pela sua força normativa e definitória,
tanto na dimensão da experiência como na dimensão teórica, nos parecem
merecer mais atenção: são as definições e normas produzidas pelas
principais convenções internacionais; a lei portuguesa do património; as
recomendações do IPPAR; algumas observações e definições teóricas de
quem se debruçou sobre o assunto desde meados do século passado. Em síntese,
podem então observar-se algumas conclusões: — existe uma dominância do cronos
e formas de experiência Moderna nas representações observadas,
pressupondo tanto uma experiência fragmentada em esferas e campos autónomos,
como uma concepção lienar do tempo por contraposição à possibilidade de
observar uma concepção indivisa e pluridimensidonal da experiência;
observa-se uma evolução definitória que descentra o eixo histórico e
pericial, e coloca ao centro o público/comunitário; aumenta sem cessar a
extensividade e abrangência definitória e, finalmente, nenhuma
das exposições se questiona minimamente acerca do perfil de racionalidade do
que está a tentar definir. São estas definições e a sua articulação
(ou não) que nos podem oferecer um corpus
estrutural da experiência a ser problematizada. É o que a seguir se propõe
com os modos de questionamento e
entendimento da experiência patrimonial como problemática. Foram assim
observados os juízos centrais articulados em volta dos valores mais
envolvidos na sua constituição, isto é, na génese
do campo[lxv]
em que se constitui a experiência;
são observadas as modalidades e campos de inventariação como actos iniciais
dessa constituição e analisados alguns casos concretos — os patrimónios
da Igreja Espanhola e Portuguesa. Conclui-se provisoriamente que a globalidade
da experiência se apresenta, em si, inesgotável; que as definições que
tentam balizar o campo dificilmente o conseguem e, nalguns casos, chocam
fronteiras e se contradizem. b) Por uma segunda via fez-se um trabalho de detecção e caracterização do modo como o simbólico se funcionaliza
socialmente, e até que ponto se constitui como imaginário totalizante. São
observadas algumas manifestações exemplares pelo modo como operacionalizam
a sua acção sob o vector do mais alto rendimento simbólico. No espaço
de um imaginário simbólico cada vez mais reificado é dada especial atenção
ao tecido institucional, em particular no seu modo de segmentar e
aparelhar campos simbólicos em determinados contextos. Após esta exploração das formas
centrais de constituição do campo e operacionalização da experiência
patrimonial que nos permite reconhecer alguns padrões performativos nos mais
diversos contextos, estamos mais aptos ao recorte
e análise desses padrões, nos capítulos seguintes. Passamos, assim, ao próximo capítulo em
que iremos observar a generalidade das circunstâncias em que estas dinâmicas
emergem e evoluem na Modernidade — aquilo a que chamámos, " as condições
de emergência da experiência patrimonial".
[i]Que são, aliás comuns a
todas as abordagens não positivistas. [ii]"O processo de esvaziamento do tempo e do espaço é crucial para a segunda grande influência sobre o dinamismo da modernidade, a descontextualização das instituições sociais.(...) Os mecanismos de descontextualização são de dois tipos, a que chamarei "garantias simbólicas" e "sistemas periciais". Vistos em conjunto refiro-me a eles como sistemas abstractos. As garantias simbólicas são meios de troca que têm valor padrão, sendo portanto intercambiáveis ao longo de uma pluralidade de contextos.(...)Os sistemas periciais põem entre parenteses o tempo e o espaço através da utilização de modos de conhecimento técnico que têm validade independentemente dos praticantes e dos clientes que os usam. Estes sistemas penetram virtualmente todos os aspectos da vida social em condições de modernidade..." Modernidade e Identidade Pessoal, Anthony Giddens, ed. Celta, Lisboa 1994, p.16. Ver também "Do Problema da Modernidade à Modernidade Como Problema - A construção dos discursos da Modernidade", em Fundamentos de uma Analítica da Actualidade, José B. Bragança de Miranda , ed. polic. Univ. Nova de Lisboa, 1990 pps 129-249. Ver ainda Comunicação
e Cultura, Adriano D. Rodrigues, "A Modernidade" ed. Presença,
Lisboa 1994, pps 57-70
[iii]"Em breve haverá especialistas em todos estes campos, elaborando os seus próprios termos técnicos, as suas teorias e métodos que se tornarão inacessíveis aos não especialistas. Terão realizado o ideal básico do profissionalismo - a autonomia absoluta das novas especializações. A fortaleza estará completa, as pontes levadiças erguidas." Introdução à
Sociologia, Norbert Elias, 2. "O sociólogo como destruidor de
mitos", ed.edições 70,Lisboa 1980 p.53, ver ainda o problema da especialização científica pps 50-52.
[iv]"Todavia construir um objecto científico é, antes do mais e sobretudo, romper com o senso comum, quer dizer, com representações partilhadas por todos, quer se trate dos simples lugares-comuns da existência vulgar, quer se trate das representações oficiais, frequentemente inscritas nas instituições, logo ao mesmo tempo na objectividade das organizações sociais e nos cérebros. O pré-construido está em toda a parte. (...) Ora isto (o facto de os conceitos se manifestarem de modo idêntico quer nos sujeitos quer nos objectos) contribui para lhes conferir uma evidência - a que resulta da coincidência entre as estruturas objectivas e as estruturas subjectivas - que as põe a coberto de serem postas em causa." in Bourdieu, P.,
O Poder Simbólico, ed. Difel, Lisboa, 1989, p.34 [v]in "La notion de
Patrimoine", André Chastel, Les
Lieux de Memoire, dir. Pierre Nora, La Nation, Vol.II, ed. Gallimard,
Paris, 1986, p. 405.
[vi]ibidem, p. 414. Ver, igualmente, "L'origine du terme vandalisme",
Histoire du Vandalisme, Réau, L., ed. Robert Laffont, Paris, 1994,
p. 9.
[vii] Pode observar-se esta definição de património em Robert Hewison, no seu trabalho The Heritage Industry. Britain in a Climate of Decline : "Instead of manufacturing goods, we are manufacturing heritage, a commodity which nobody seems able to define" (p. 9) e, mais à frente, "Imperceptibly, history is absorbed into heritage. But a heritage without a clear definition, floating on the larger frame of the present. The first annual report of the National Heritage Memorial Fund, for 1980‑81 confronted the absence of any definition in the Act of Parliament that had set it up, and concluded that the question of definition was unanswerable: We could no more define the national heritage than we could define, say, beauty or art. Clearly, certain works of art created by people born in this country were part of the national heritage [...] as were buildings [...]. but, heyond that, there was less assurance. So we decided to let the national heritage define itself' (p. 136) ed. Methuen, London, 1987. [viii]in
"Propriedade",Giuliano Martigneti,
Dicionário de Política,
org. Norberto Bobbio, N. Matteucci, G. Pasquino, ed. Un. de Brasília, Brasília,
1993, p.1021.
Ver, igualmente, e com grande actualidade, Lições de Sociologia, "O Direito de Propriedade", Durkheim,E., ed. Un. S. Paulo, S. Paulo, 1983, p. 130. [ix] Quando é evocada a perversão
do privado, ela assenta precisamente na exclusividade da posse a que o
bem se sujeita. Exclusividade que se estabelece na relação de poder (de
decisão, usofruto, ablação, etc.) da parte do
sujeito possuidor sobre o bem possuido.
[x]Que parece ser o grande
fundamento animador dos patrimónios nacionais e localizados, mas que -
paradoxo - se dilui aquando da defesa de um património mundial, que
acontece pelas mãos das organizações internacionais, neste caso a UNESCO.
[xv]Em I.
O Significado da Classificação - Por que se classificam os bens culturais
imóveis?, Doc. 1 Normas e recomendações do IPPAR, Classificação de
bens Imóveis, O enquadramento jurídico e a Instrução das propostas de
classificação.
[xvi]"La Notion de Patrimoine", André Chastel, Les Lieux de Mémoire, La Nation II, ed. Gallimard, Paris, 1986, p.414. [xvii]L'Allégorie
du Patrimoine, Choay, F., ed. SEUIL, Paris, 1991, p.9
[xviii] in Jacques Le Goff, Documento/Monumento, Vol.1, Memória/História, Enc. Einaudi, ed. INCM, Lisboa, 1984, p. 95 e p. 106. Esta definição foi, decerto, inspirada em Foucault. "Digamos, para resumir, que a história em sua forma tradicional, empreendia memorizar os monumentos do passado, transformá-los em documentos e fazer falar estes traços que, por si mesmos, raramente são verbais, ou dizem em silêncio coisa diversa do que dizem; em nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos, e o que, onde se decifravam traços deixados pelos homens onde se tentava reconhecer em profundidade o que tinham sido, desdobra uma massa de elementos que se trata de isolar, de agrupar, de tornar pertinentes, de estabelecer relações, de constituir conjuntos. Era um tempo em que a arqueologia como disciplina dos monumentos mudos, dos traços inertes, dos objectos sem contexto e das coisas deixadas pelo passado, se voltava para a história e só tomava sentido pelo restabelecimento de um discurso histórico; poder-se-ía dizer, jogando um pouco com as palavras, que a história, em nossos dias se volta para a arqueologia; para a descrição intrínseca do monumento". A Arqueologia do Saber, Michel Foucault, ed. Vozes, Petrópolis, 1971, p.14 [xix] Esta noção que implica uma
unidade activa e de plenitude da experiência,
forma o substantivo alemão ERLEBNIS que acaba por objectivar a viência
no objecto. Alois Riegl com a
Kunstwollen - vontade artística - produziu um termo associado que dá bem a
ideia do investimento individual ou colectivo corporificado no objecto. [xx]Até certo ponto, parece aqui reflectir-se a ideia heideggeriana da necessidade de imersão do sujeito no mundo ("In-der-Welt-sein") que o envolve; da criação de um sujeito autêntico que é um sujeito "besorgt" (cuidadoso, com os outros e com o que o envolve no espaço e no tempo). O tempo é a dimensão que investe mais sentido no ser do Dasein pela sua capacidade de localização entre, — os vivos e os mortos — por exemplo. "O estudo dos pensamentos de um homem morto, a contemplação da sua arte, a realização do seu propósito político, a intensa recordação do seu "estar-aí", são exemplos de cuidado inteiramente típicos do Dasein.(...) A expressão de Heidegger é "solicitude respeitosa". Ela fornece uma pista para a importância primordial que ele atribuirá ao tema da Antígona de Sófocles e a toda a questão de como uma comunidade viva deve constituir um "ser-ao-lado" dos seus mortos."in Heidegger, Steiner, George, ed. Cultrix, S.Paulo, 1982, p.89. [xxi]Queremos
com isto observar o modo como se pode hoje entender a «experiência» que,
numa perpectiva editada pela Modernidade, impõe a congregação da
multidimensionalidade da sua constituição histórica. Com a generalização
da prática da escrita e a introdução da imprensa no Ocidente, acentua-se
a autonomização moderna das diferentes esferas da experiência. O processo
de secularização desinveste a esfera do sagrado da ligação totalizante
das diferentes esferas da experiência, assistindo-se à progressiva emergência
de campos sociais, ao aparecimento de esferas de acção que pretendem
passar a definir a sua própria legitimidade para imporem uma ordem de
valores ao conjunto da sociedade e criarem formas de visibilidade
independentementes da esfera religiosa tradicional. Esta segmentação
moderna da experiência corresponde assim ao aparecimento dos campos
religioso, do saber, do direito, do político, da medicina, como outras
tantas esferas competentes para criarem, imporem e sancionarem ordens axiológicas
relativamente autónomas, definindo espaços de interesses diferenciados e
eventualmente divergentes. Assim se instaura "uma nova instância de
legitimação do discurso e do agir modernos, a instância do sujeito. (...)
A concepção linear do tempo moderno corresponde também à fragmentação
da experiência do sujeito numa diversidade de campos autónomos, cada um
destes campos possuindo a sua própria lógica, os seus processos rituais de
visibilidade simbólica, a sua legitimidade, os seus regimes de
funcionamento, as suas dimensões e as suas modalidades estratégicas."
"Traços fundamentais da Modernidade", Comunicação
e Cultura, Rodrigues, A.D., ed. Presença, Lisboa, 1994, p.66. Rever o penúltimo ponto do capítulo anterior, sobre a
noção de «experiência».
[xxii]Quando muito, acontece a resolução de problemas acidentais e transitórios que, eventualmente, possam pôr em causa a lisura da constituição experiencial: "Inserido em ciências regionais específicas (como a sociologia, ou a psicologia, etc.), este género de análises tem a sua pertinência. Mas a sua estrutura «disciplinar», que é uma forma de positivização, implica uma abordagem que desproblematiza, que inviabiliza a atitude crítica exigida pela analíticaa da actualidade. A consequência inevitável é a resolução da problematicidade da constituição a «problemas» transitórios, de tal modo que a resolução destes problemas é encarada como uma questão meramente «técnica»." Analítica da
Actualidade, Bragança de Miranda , J.B., ed. Vega, Lisboa, 1994, p.114
[xxiii]Como foi referido na introdução, existe um trabalho anterior em que foi feita uma problematização mais localizada, foram formuladas questões mais específicas relativamente ao arquivo de filmes e imagens em movimento. Ao contrário do que é habitual, é um movimento ascensional o que efectuamos a partir de um campo específico já trabalhado, para o campo mais geral e abrangente que o engloba, e alberga necessariamente uma quantidade de outros campos específicos próximos. Anteriormente perguntámo-nos "porque se conservam filmes/imagens em movimento?" — a questão ontológica; "para que se conservam filmes/imagens em movimento?" — a questão pragmática; "o que conservar?" — o imperativo da selecção e a questão axiológica. Já nessa altura se percebia que destas questões se desprendia um rol de questões derivadas a que era difícil atender em pormenor; algumas foram-no, outras não. ver Para uma Ontologia do Arquivo de Imagens em Movimento, Esperança, E.J, ed. polic. Univ. Nova de Lisboa, 1989, p.5. [xxiv]Sendo que, como referido
no ponto anterior, a forma positivista e dominante de experienciar e tratar
o património nunca parece constituir-se como problemática.
[xxv]No sentido em que, apesar de não se ficar aqui pela primeira etapa que comporta o problema em Kant, esta é de todas a mais importante: "Os problemas (problemata) são as proposições demonstráveis que carecem de uma instrução, ou aquelas que enunciam uma acção cujo modo de execução não é imediatamente certo. - Observações - 1.Ao problema pertence (1) a questão, que contém o que deve ser executado; (2) a resolução, que contém a maneira pela qual se pode levar a cabo o que deve ser executado, e (3) a demonstração de que o exigido há-de se cumprir, se eu houver procedido dessa maneira." LÓGICA, Immanuel Kant, "Dos Juízos" #38,
ed. Tempo Bras. Rio de Janeiro, 1992, p.131 [xxvi]Do ponto de vista formal, -
"se abstrairmos de todo o conteúdo de um juízo em geral e
atendermos apenas à forma do entendimento" (Kant, Crítica da Razão
Pura, 2ªsec. §9, p.103, ed. Gulbenkian, Lisboa 1985) - como Kant o
enuncia, é claro que estaremos atentos à forma lógica da generalidade dos
juízos, mas apenas quando o seu conteúdo levantar dúvidas quanto à sua
indexação imediata adentro do
contexto em que se trabalha. Por isto, toda a grelha geral dos juízos e das
categorias em que estes se englobam (ver ibidem) fica latente, sendo
imediatamente activada em caso de indefinição maior.
[xxvii]No sentido como o "de uma estratégia prática do habitus científico, espécie de sentido do jogo que não tem necessidade de raciocinar para se orientar e se situar de maneira racional num espaço." in Bourdieu, Pierre, O
Poder Simbólico, ed. Difel, Lisboa, 1989, p. 62. [xxviii]Michel Meyer, ao explicitar as insuficiências epistemológicas da ciência e da própria filosofia, que no decurso da constituição dos seus saberes não se questionam sobre as suas formas de questionamento, observa igualmente as diferenças de abrangência de perspectivas: "O que explica que a filosofia, ao contrário da ciência, vá globalizar a sua visão do objecto ou do ser, não se fixando nisto ou naquilo, ou mesmo sobre um tipo de fenómenos, mas sim na objectividade do objecto, na fenomenalização do fenómeno, no ser do ente. É então isto que vai fazer com que o objecto seja objecto e o fenómeno fenómeno, com que as coisas sejam o que são. " in Meyer, Michel, A
Problematologia, ed. D. Quixote, Lisboa, 1991, p. 16 [xxx]"objectos" aqui como
estes podem ser designados no sentido ôntico da coisa-em-si, fora do nosso
entendimento. Os objectos que podem ser investidos, na sua materialidade, de
carga simbólica.
[xxxi]"...em lugar de reconstituir cadeias de inferência (como se faz frequentemente na História das Ciências ou da Filosofia), em lugar de estabelecer quadros de diferenças (como fazem os linguistas), decreveria sistemas de dispersão.(...)no caso em que entre os objectos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se poderia definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), dir-se-á, por convenção que se trata de uma formação discrusiva - evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e consequências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, como "ciência", ou "ideologia", ou "teoria", ou "domínio de objectividade".. Chamar-se-á regras de formação às condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objectos, modalidade de enunciação, conceitos, escolhas temáticas.)." A Arqueologia do Saber, Michel Foucault, ed. Vozes, Petrópolis, 1971, p.51 [xxxii]Estamos a utilizar a metáfora
da terminologia económica, por razões operacionais e heurísticas, a que
melhor se adequa a este campo, com os devidos acertos.
[xxxiv]Sobre o inventário do património cultural português, e parte da sua história, ver o prefácio de Carlos Antero Ferreira a Património Arquitectónico e Arqueológico Classificado, ed. IPAAR, Lisboa, 1993, p.XIII-XXV. Relativamente à actual capacidade estocástica que nos
oferecem as Novas Tecnologias, que nesse sentido herdam as virtualidades da
fotografia, o progresso é rápido. Essa capacidade mede-se já em gigabites
e tende a ultrapassar rapidamente todas as previsões da imaginação
arquivistica. Esta questão é desenvolvida no último capítulo deste
trabalho.
[xxxv]Este é um dos primeiros
"casos" concretos que aparece neste trabalho, e neste ponto,
porque achamos despropositado colocá-lo mais adiante, onde outros
"casos" e estudos práticos se concentram, pois é aqui que a
reflexão e a questão teórica ocorrem. Não encontrámos estudos mais
concretos sobre os patrimónios da Igreja Espanhola e Portuguesa. O que é
aqui apresentado neste ponto, resulta de diversas entrevistas aos experts
que estiveram a coordenar o
inventário português encetado pelo IPPAR, pelo seu parecer relativamente
à Igreja portuguesa, e entrevistas feitas ao Director da Direccion de
Patrimonio de la Comunidad de Madrid, Dr. Miguel Oreja e alguns técnicos do
Departamento de História da Universidade Complutense, encarregues do inventário
espanhol. [xxxvi]Racionalidade axiológica
que é bem expressa na tipologia que Weber oferece num dos seus ensaios
sobre os géneros de acção social: "Types of Social
Action Social action, like all action, may be oriented in four ways. It may be: ( I ) instrumentally rational (zweckrational), that is, determined by expectations as to the behavior of objects in the environment and of other human beings; these expectations are used as "conditions" or "means" for the attainment of the actor's own rationally pursued and calculated ends; (2) value‑rational (wertrational), that is, determined by a conscious belief in the value for its own sake of some ethical, aesthetic, religious or other form of behavior, independently of its prospects of success; (3) affectual (especially emotional), that is, determined by the actor's specific affects and feeling states; (4) traditional, that is, determined by ingrained habituation. 1. Strictly
traditional behavior, like the reactive type of imitation discussed above,
lies very close to the borderline of what can justifiably be called meaningfully
oriented action, and indeed often on the other side.
For it is very often a matter of almost automatic reaction to habitual
stimuli which guide behavior in a course which has been repeatedly
followed. The great bulk of all everyday action to which people have become
habitually accustomed approaches this type. Hence, its place in a systematic
classification is not merely that of a limiting case because, as will be
shown later, attachment to habitual forms can be upheld with varying
degrees of self‑consciousness and in a variety of senses. In this case
the type may shade over into value
rationality (Wertrationalitat) . 2. Purely affectual behavior also stands on the borderline of what can be considered "meaningfully" oriented, and often it, too, goes over the line. It may, for instance, consist in an uncontrolled reaction to some exceptional stimulus. It is a case of sublimation when affectually determined action occurs in the form of conscious release of emotional tension. When this happens it is usually well on the road to rationalization in one or the other or both of the above senses. 3. The orientation of value‑rational action is distinguished from the affectual type by its clearly self‑conscious formulation of the ultimate values governing the action and the consistently planned orientation of its detailed course to these values. At the same time the two types have a common element, namely that the meaning of the action does not lie in the achievement of a result ulterior to it, but in carrying out the specific type of action for its own sake. Action is affectual if it satisfies a need for revenge, sensual gratification, devotion, contemplative bliss, or for working off emotional tensions (irrespective of the level of sublimation). Examples of pure value‑rational orientation would be the actions of persons who, regardless of possible cost to themselves, act to put into practice their convictions of what seems to them to be required by duty, honor, the pursuit of beauty, a religious call, personal loyalty, or the importance of some "cause" no matter in what it consists. In our terminology, value‑rational action always involves "commands" or "demands" which, in the actor's opinion, are binding on him. It is only in cases where human action is motivated by the fulfillment of such unconditional demands that it will be called value‑rational. This is the case in widely varying degrees, but for the most part only to a relatively slight extent. Nevertheless, it will be shown that the occurrence of this mode of action is important enough to justify its formulation as a distinct type; though it may be remarked that there is no intention here of
attempting to formulate in any sense an exhaustive classification of types
of action. 4. Action is instrumentally rational (zweckrational) when the end, the means, and the secondary results are all rationally taken into account and weighed. This involves rational consideration of alternative means to the end, of the relations of the end to the secondary consequences, and finally of the relative importance of different possible ends. Determination of action either in affectual or in traditional terms is thus incompatible with this type. Choice between alternative and conflicting ends and results may well be determined in a value‑rational manner. In that case, action is instrumentally rational only in respect to the choice of means. On the other hand, the actor may, instead of deciding between alternative and conflicting ends in terms of a rational orientation to a system of values, simply take them as given sulojective wants and arrange them in a scale of consciously assessed relative urgency. He may then orient his action to this scale in such a way that they are satisfied as far as possibvle in order of urgency, as formulated in the principle of "marginal utility." Value‑rational action may thus have various different relations to the instrumentally rational action. From the latter point of view, however, value‑rationality is always irrational. Indeed, the more the value to which action is oriented is elevated to the status of an absolute value, the more "irrational" in this sense the corresponding action is. For, the more unconditionally the actor devotes himself to this value for its own sake, to pure sentiment or beauty, to absolute goodness or devotion to duty, the less is he influenced by considerations of the consequences of his action.(...) 5. It would be very unusual to find concrete cases of action, especially of social action, which were oriented only in one or another of these ways. Furthermore, this classification of the modes of orientation of action is in no sense meant to exhaust the possibilities of the field, but only to formulate in conceptually pure form certain sociologically important types to which actual action is more or less closely approximated or, in much the more common case, which constitute its elements. The usefulness of the classification for the purposes of this investigation can only be judged in terms of its results." Economy & Society: an outline
of interpretative sociology, Weber, M., ed. Guenther Roth and Claus
Wittich, University of California Press, 1980, p. 26-27. [xxxvii]"Símbolo",
Eco,U. Enciclopédia Einaudi, Vol.
31-Signo, ed. INCM, Lisboa, 1994, p. 176 [xxxviii]"Problémes de l'ame
moderne"p.92, C.G.Jung, in Dictionnaire
des Symboles, int. de Jean Chevalier,ed. Robert Laffont, Paris, 1982
p.XIV
[xxxix]J. Bragança de Miranda, sintetiza-nos isso precisamente com base na observação de quem tratou este problema com mais atenção: "A percepção é construída pela imagem ou «objecto» percepcionado, e só neste sentido ela surge a um nível primordial. Mas mesmo assim não se deve a qualquer empirismo, mas pelo facto de ela servir de revelador de uma certa coerência do que se dá a ver ou do que é visível. Por exemplo, Foucault, quando analisa o «intemamento», refere "a coerência mais secreta de uma percepção. o que o internamento e as suas práticas móveis desenham, em pontilhado, à superf cie das instituições, é aquilo que a Idade Clássica percepciona da déraison". Neste sentido, a percepção é construída historialmente, pois se a dominância da percepção corresponde à Idade Clássica, já no Renascimento "não se tratava de percepcionar; era uma certa maneira de sentir o mundo na sua inteireza, uma certa tonalidade conferida a qualquer percepção". O surgimento da percepção como operador filosófico corresponde a um caminho que leva à dominância da percepção, que na modernidade se apresenta como garantia de «objectividade», exigindo um sujeito seguro de si, sempre correlativo de um objecto localizado no espaço. Tal como é possível mostrar a construção da percepção no tempo da história, o mesmo é detectavel relativamente ao espaço. Trata‑se de um processo complexo em que parece estar presente uma estrutura de mise en abime. Por exemplo, Antoine Bailley sustenta na sua «microgeografia da percepção» que a percepção não reflecte o espaço, antes apresenta "imagens parciais e nao integradas", eminentemente simbólicas, sendo "a percepçao um processo activo e criativo, que é o ponto de partida de uma síníese cognitiva". Porém, o seu carácter simbólico parece advir da selecção de elementos detemminados do espaço por parte dos agentes que os estruturam em «paisagens» significatlvas. Ora, para além da percepção criadora de imagens, também os processos de selecção são «simbólicos», acontecendo o mesmo com os elementos fisicos do espaço. Não existe, portanto, um naturalismo da percepção e do espaço fisico que depois seria sobrecarregado com os interesses sociais (em que o «subjectivo» se acrescenta ao «objectivo»), pois estes já são simbolicamente marcados pela experiência. Como afirma Bourdieu: "As lutas a propósito da identidade étnica ou regional(...) são um caso particular das lutas de classificações, lutas pelo monopólio de fazer ver e fazer crer, de fazer conhecer e fazer reconhecer". A mise en abime resulta desta descoberta de que o mais objectivo é construído simbolicamente, o que não obriga a cair num relativismo sociologista, pois este é sempre reduzido pelas estruturas de estabilização da experiência. O que aqui conta éacima de tudo a demonstração de que mesmo a percepção já está detemminada transcendentalmente por uma visão do mundo, e empiricamente pelos objectos que já contêm em si mesmos as suas «instruções para o uso». Analítica da
Actualidade, Bragança de Miranda, J.B., ed. Vega, Lisboa, 1994,
nota § 12, p. 55 [xlii]Durand diz que, se
observarmos o símbolo enquanto signo que remete a um significado inefável
e invisível, tendo por isso de encarnar concretamente essa apreensão que
lhe escapa, fá-lo através de redundâncias míticas, rituais, iconográficas
que corrigem e completam ad infinitum essa incompletude.13
Ver Les structures anthropologiques de l'imaginaire, Durand, G. ed. Bordas, Paris, 1969, p. 6O [xliii] L'imagination Symbolique, p.124 [xliv] "Também a ordem do simbólico que constitui o objecto da Filosofia das Formas Simbólicas, de Ernest Cassirer, é a ordem do semiótico. A Ciência não reflecte a estrutura do Ser (...) mas põe os seus objectos de conhecimento, e finalmente o tecido do mundo conhecido, «como símbolos intelectuais livremente criados». Cassirer segue a concepção de Hertz ( e de Helmholtz) dos objectos científicos como símbolos ou simulacros « tais que as consequências idealmente necessárias das imagens sejam sempre por sua vez as imagens das consequências naturalmente necessárias dos objectos representados». "Símbolo", Eco,U. Enciclopédia Einaudi, Vol. 31-Signo, ed. INCM, Lisboa, 1994, p.144 Nesta citação se pode bem observar essa característica especular que Cassirer mostrou. Ver também, "EL MITo CoMo FoRMA DE INTUICIóN. ESTRUCTURA Y
DISPoSICIóN DEL MUNDo ESPACIo‑TEMroRAL EN
LA CoNCIENCIA MIToLóGICA" I. La antitesis básica (p.105); II. El conocimiento simbólico y su significación para la construcción del mundo de los objetos (p.29); SEGUNDA PARTE; El problema de la representación y la construcción del
mundo intuitivo I. El concepto y el problema de la representación (p.131) V. La prenez simbólica (p.226) Filosofia de las Formas Simbólicas, Cassirer, E., ed. FCE, México, 1976. Ver, também, "De la lógica del concepto de Símbolo",
em Esencia y Efecto del Concepto de Símbolo,
Cassirer, E., ed. F.C.E, San Lorenzo - México, 1983.
[xlvi]Ver
Symbolic Interaccionism —
Perspective or Method, Blumer, H., ed. Prentice Hall, Englewood Cliffs,
1969.
[xlvii]Estes podem ser imagens mais
ou menos nítidas, palavras, discursos, sons, sensações ou mesmo algo de
mais inefável.
[xlviii]É disto que nos dá conta J.B. Miranda ao mostrar, novamente, como o imaginário morfologicamente simbólico se cristaliza e se torna manipulável através da linguagem, numa inter-acção que proporciona o máximo de tangibilidade. Uma forma de tangibilidade que Bragança de Miranda tenta tornar visível ao listar quatros formas de síntese da retoricização da linguagem: "A utilização da linguagem para dar expressão aos elementos não linguísticos da experiência, a sua integração em programas de organização da experiência em termos escriturais, projectuais e até biográficos, o seu extensionamento imaginário para formar discursos totais que sirvam de horizonte à acção, tudo isso exige a constituição de sínteses de retoricização da linguagem. Trata‑se de um procedimento de grande amplitude, que procura estabilizá‑la a dois níveis essenciais, o da instrumentalidade/normativização (onde sofre a maior restrição) e o do imaginário (onde possui a máxima plasticidade). Porém, para além do procedimento de instrumentalização, a retoricização tem de estender‑se ao próprio imaginário. Embora, como é sabido, os românticos do século XIX se contem entre os primeiros a criticar a instrumentalização da linguagem, opondo‑lhe a imaginação, na verdade esta oposição já resulta da necessidade de controlar a aleatoridade da linguagem. Daí que, paralelamente à instrumentalização da linguagem, surja uma série de procedimentos para controlar o «imaginário» (que não se confunde com a imaginação). Todavia, a ambivalência, referida mais acima, também tem curso aqui, afectando todo o trabalho sobre a linguagem, desde os elementos mais referenciais aos mais imaginários. (...)Limitamo‑nos por isso a listar quatro modalidades da síntese de retoricização da linguagem: 1) de um ponto de vista abstracto, a racionalização do discurso e das formas de usá‑lo, controlá‑lo, etc. (instrumentalização); 2) a museologização do material discursivo, pela constituição de uma arquivística generalizada, de normalização e codificação da tradição, etc.; 3) a narrativização do discurso através de narrativas que permitem integrar vários regimes incompossíveis e contraditórios, numa coerência fundamentalmente voltada para a persuasão; e, por fim, 4) a um nível mais concreto, a institucionalização da linguagem pelos media, constituindo uma esfera de mediação que tende a confundir‑se com a oefentlichkeit, mas apenas de modo sirnulacral." Analítica da Actualidade, Bragança de Miranda, J.B., ed. Vega, Lisboa, 1994, p. 144. Sobre o modo como Foucault tratou o «imaginário», consultar igualmente as notas §38 e §44 de Analítica da Actualidade. Sobre este tema, consultar igualmente: L 'Institution Imaginaire de la Société, Castoriadis, Comelius,ed. SEUIL, Paris, 1975. «O Museu Imaginário» in As Vozes do Silencio, Malraux, André, ed. Livros do Brasil, Lisboa, Vol. 1, s.d., pp. 7‑124. [xlix] Uma experiência, que como mais à frente se verá, se suporta no carácter ilimitado de reprodução e extensão tanto do valor como da atracção simbólica que se ordenam no imaginário dos sujeitos da experiência. Uma intuição que Kant teve já na Crítica do Juízo ao referir várias vezes a relação de comunicação ilimitada que o símbolo imaginário institui. Ver Crítica da Faculdade do Juízo, Kant, I.,ed. INCM, Lisboa, 1992. — Sobre a capacidade reprodutiva da imaginação, ver §57; sobre a ilimitação do processo comunicacional, ver §s 85, 94,96,124,126,; sobre a sua ampliação pelo sublime, ver§ 83. [l]Por seu lado, a psicanálise
freudiana coloca o imaginário como instância reguladora/administrante do
processo de recalcamento que organiza, por substituição, os objectos não
aceites pelo super-ego. Uma dessas ilustrações aparece na análise que
Freud faz do delírio do presidente Schreber, que acaba por ser mais do nível
do simbólico que do imaginário. O que esta análise nos mostra é a dependência
que o imaginário tem relativamente ao simbólico.
[li]Traduzido de
La crise de la conscience historique et l'Europe, Paul Ricoeur, ed.
polic. Simpósio internacional s/ Ética e o futuro da Democracia, p.2
[lii]"C'est ainsi que l'on assiste ici et là à une privatisation des désirs et des projets, à un culte du consumérisme à courte vue; à l'origine de ce mouvement de repli on discerne sans peine un désengagement à l'égard de toute responsabilité civique." La crise de la
conscience historique et l'Europe, Paul Ricoeur, ed. polic. Simpósio
internacional s/ Ética e o futuro da Democracia, p.5 [liv]ver à frente, o consumo mediático
e a espectacularização; as novas formas de produção de auras,estrelas e
pequenos mitos, no Cap. IV * [lvii]Jean Chevalier, na
introdução ao Dictionaire des
Symboles apresenta um capítulo sobre "a dinâmica simbólica e as
suas funções"que, pela sua capacidade sintética e abrangente, nos
será útil observar. Dictionnaire des
Symboles, int. de Jean Chevalier,ed. Robert Lafont, Paris, 1982, p.XVIII
[lviii]Ardis
da Comunicação; a eutanásia dos sábios, H.P.Jeudy, ed. Imago, Rio de
Janeiro, 1990, pps.18-19. [lx]"A vida na Idade Média, a vida no séc.XVII constituem objecto de múltiplos relatos que os historiadores demonstram graças a documentos que são também testemunhos possíveis para reconstituir cenas da vida quotidiana. Podem-se reconstituir com uma fidelidade e autenticidade pressupostas, quadros da vida da Idade Média e remontar assim cenas da existência quotidiana. No fundo, estes modos de vida estão aí como imagens cândidas e simplistas, que nos devolvem toda a ficção de um passado desconhecido sob a forma de um verdadeiro diorama.(...) Quem pode garantir que as coisas realmente se passavam assim em tal aldeia da Idade Média e em tal época? Sem dúvida os documentos são provas, mas a tentativa de reprodução do conjunto da existência quotidiana implica imaginação". Ardis da Comunicação, H-P Jeudy, ed.Imago, Rio de
Janeiro, 1990, pps.16-17
[lxi]"Un symbole peut préfigurer
ce qui sera un jour un fait scientifique, comme la terre, sphère parmi les
sphères, ou comme le don du coeur;(...) Quand il décide de consacrer sa
vie à la recherche, un savant peut obéir à des forces irrationnelles et
à une conception du monde où le symbole, avec sa charge émotive, tient
une place considérable". ibidem, Dictionnaire
des Symboles, p. XXX
[lxii]Imaginação Social,
Bronislaw Bazcko, Enc. Einaudi , Vol 5, ed. INCM, Lisboa 1985, pps. 297-299.
[lxiii]Que são, aliás comuns
a todas as abordagens não positivistas. [lxiv]O interesse
pode aqui ser definido como qualquer forma ou potencial de exploração e/ou
rendibilização em favor de um indivíduo ou uma das partes quando existe
litígio. Este é um dos conceitos ou noções legais mais férteis quando
explorado na óptica da sua inserção sociológica, como iremos mais à
frente observar. Do ponto de vista ontológico, é no interesse
que se pode buscar o pivot de toda a justificação para a regulamentação
acerca da propriedade dos bens e direitos de gestão. Inerentes a esta noção
de interesse, estão todas as outras necessidades mais pragmáticas de
regulamentação de actividades envolvendo transmissão de bens, como sejam
as heranças e sucessões, o crédito, a hipoteca e as dívidas, por
exemplo. |